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Saqueando Berlim

Ricardo Lombardi

21 de março de 2014 | 13h32

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Sugestão de leitura: o texto “Saqueando Berlim“, de Quinn Slobodian e Michelle Sterling, publicado no site da revista Serrrote. Um trecho:

“(…)

Entra em cena o hipster. Na década de 2000, o pacote berlinense de cerveja pilsen, faláfel, Airbnb e noites exaustas no famoso Berghain (descrito por uma revista de bordo como “a melhor boate do mundo”) era um grande sucesso. O número de noites passadas por turistas na cidade dobrou entre 2003 e 2011 – de 11 para 22 milhões. Começando por volta da contestada vitória de Bush em 2000 e acelerando depois da recessão de 2008, o rosto do típico visitante de Berlim mudou: de alemão para não alemão, dos suéteres largos dos acadêmicos para os cortes de cabelo em ziguezague e os moletons fluorescentes dos artistas ou, pelo menos, de “gente artística”. Enquanto os aluguéis chegavam a picos no Brooklyn e em Vancouver, Melbourne, Copenhague e Londres, Berlim ficava mais atraente. Rios de jovens com pós-graduação em literatura, arte e teoria chegavam à cidade procurando quartos em apartamentos divididos. A Craigslist virou uma central de bicicletas roubadas e quartos com móveis da Ikea em que finórios senhorios acrescentavam cem euros ao preço habitual e prometiam proximidade “ao atual distrito hipster de Neukölln, repleto de bares, galerias e artistas internacionais”.

O ciclo de retroalimentação começou quando pessoas de cenas distantes compraram a cidade por causa de sua similaridade com os lugares que tinham deixado. Tatuagens, outrora uma província exclusiva da classe operária alemã, começaram a aparecer nas mesas de calçada dos cafés; os homens passaram a usar shorts. Em 2010, californianos estavam servindo huevos rancheros de oito euros a parisienses com calças de estampa asteca, enquanto dinamarqueses vestidos em sacos negros sem forma sorviam Bionade sabor lichia. Espanhóis cozinhavam paellas enormes nas feiras de rua e britânicos empreendedores faziam arbitragem vintage, comprando vestidos sem manga de seda dos anos 1980 nos mercados de pulgas dos bairros turcos e árabes do Sul para vendê-los bem caro nos bairros hipster e turísticos do Norte. Novembro passado a New York Times Magazine publicou o relato de um australiano em Berlim que teve de ir embora porque estava simplesmente se divertindo demais para conseguir fazer qualquer coisa.

Aqueles que ficaram tiveram de arrumar trabalho, e alguns expatriados conseguiram empregos como instaladores de arte nas galerias de Mitte, ao passo que outros criaram suas próprias ocupações freelance, preparando cupcakes, ou como professores de ioga, mecânicos de bicicleta, promotores de shows e djs de iPod. Muitos subsistiram graças a bandejas de salame e Brötchen de um euro, e todos ficaram gratos pelo baixíssimo preço de pães e frios na Alemanha. Em certas ruas ficou cada vez mais raro ouvir o idioma local. As pessoas procuravam médicos que falassem inglês e dicas para lidar com a imigração no site de expatriados Toytown Germany, nome que captava a atmosfera libertadora de eterna juventude e brincadeira. Muitos julgavam ter encontrado um paraíso boêmio. (…)”.

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