"Reputações e escândalo"
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"Reputações e escândalo"

Ricardo Lombardi

16 de dezembro de 2008 | 06h03

Circular: “Nada como uma má reputação.

Sempre que Gérard de Nerval recolocava a coleira em sua lagosta predileta antes de começarem a passear por Paris, seu gesto era menos uma atitude que um símbolo: quase todo o século 19 adorava se fantasiar como um dandy travesso e tentar fazer passar os trapos de sua fantasia como parte do mosaico de sua convicção. Foi uma tática tão eficaz que seu alcance só podia mesmo crescer, de forma insidiosa e tácita, como uma planta venenosa impaciente – o abismo que separava o artista da sociedade burguesa passou rapidamente a servir para separar o artista da crítica e, em última instância, da própria arte: nenhum sucesso era medido pela repercussão de sua estima, mas pelas ressonâncias de seu escândalo. Para o século 19, o escândalo era um bem de consumo, um privilégio, uma vocação, um ritual e uma conveniência.

Victor Hugo nunca suportou Stendhal – ler O Vermelho e o Negro, para o autor de Os Trabalhadores do Mar, era uma experiência comparável à de extrair um dente; Barbey d’Aurevilly nunca suportou Flaubert; Taine nunca suportou Baudelaire; Sainte-Beuve nunca suportou nenhum dos três. Matthew Arnold conseguiu ignorar a obra de Browning, Swinburne e George Meredith; William Hazlitt chegou a desqualificar Coleridge; Maxime du Camp detestava Courbet; Roujon era só mais um dos que não chegavam a considerar Cézanne alguém ligado, fosse como fosse, a qualquer ramo das artes.

Nada disso importava muito: a indiferença em relação à aprovação crítica não era mais um triunfo; era um postulado. O que o século 19 tomou para si, como quem invade um continente, foi a comemoração arrogante de uma nova apropriação das possibilidades da arte. Se por um lado o continente, na verdade, era só uma ilha, por outro cada nova possibilidade era como um tesouro enterrado. O século 20 nasceu e cresceu fascinado pela chance de poder parecer desobediente; a má reputação retomada como inscrição do gênio foi seu brinquedo preferido, seu melhor jogo e sua maior aposta. (…)”

(Sérgio Augusto de Andrade, em “Reputações e escândalo”).

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