Questões gramaticais
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Questões gramaticais

Ricardo Lombardi

02 de dezembro de 2008 | 07h11

Sugestão de leitura: o texto “Assustada de repente“, de Lydia Davis, publicado na mais recente edição da Piauí. É um seleção de contos do livro “Varieties of Disturbance“, publicado em 2007. Um trecho:

Questões Gramaticais

Pois bem, na hora em que ele estiver morrendo, será que posso dizer, “É aqui que ele vive”?

Se alguém me pergunta, “Onde é que ele vive?”, será que eu devo responder, “Bem, neste momento, ele não está vivendo, ele está morrendo”?

Se alguém me pergunta, “Onde é que ele vive?”, será que posso dizer, “Ele vive em Vernon Hall”? Ou devo dizer, “Ele está morrendo em Vernon Hall”?
Depois que ele morrer, vou poder dizer, com o verbo no passado, “Ele vivia em Vernon Hall”. Também vou poder dizer, “Ele morreu em Vernon Hall”.

Depois que ele morrer, tudo o que tiver a ver com ele virá com o verbo no passado. Melhor dizendo, a frase “Ele está morto” vai ficar no presente. E também perguntas como “Para onde estão levando ele?” ou “Onde ele está agora?”.

Mas aí eu não vou saber se as palavras “ele” e “dele” estão corretas, no presente. Ele, depois de morrer, ainda será “ele”? E, se for assim, durante quanto tempo ele ainda é “ele”?

As pessoas podem dizer “o corpo” e depois chamá-lo de “isso”. Eu não vou ser capaz de dizer “o corpo” me referindo a ele, porque para mim ele ainda não é uma coisa que se possa chamar de “corpo”.

As pessoas podem dizer “o seu corpo”, mas isso também não parece correto. Não é o “seu” corpo, porque ele não é o dono do corpo, uma vez que ele não está mais ativo nem é mais capaz de ser dono de nada.

Não sei se existe um “ele”, ainda que as pessoas digam “Ele está morto”. Mas parece correto dizer “Ele está morto”. Essa pode ser a última vez em que ele ainda vai ser “ele”, no presente. Ou melhor, não vai ser a última vez, porque eu também vou dizer, “Ele está no caixão”. Não vou dizer, nem ninguém vai dizer, “Isso está no caixão”. (…)

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