Os três discípulos e o Tao
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Os três discípulos e o Tao

Ricardo Lombardi

13 de novembro de 2008 | 05h40

Circular: “Um mestre chamado Shan-Tzu tinha três discípulos. Os jovens aprendizes tinham sido acolhidos no mesmo ano e feito juntos todo o aprendizado.

Certo ao dia, antes do pôr-do-sol, Shan-Tzu convocou seus discípulos e comunicou-lhes: ‘Chegou o momento de avaliar vossa sintonia com o Tao. Quero ver qual caminho cada um vai seguir. Conversarei em particular com cada um de vós e depois devereis realizar uma tarefa’.

Chamou o primeiro discípulo para longe dos demais. Fez-lhe duas perguntas:
‘O que é para ti o Tao?’
‘Se eu definir o Tao, então não estou falando do Tao’, respondeu o primeiro discípulo.
‘O que tem quatro paredes e um teto?’
‘Uma casa’, respondeu o jovem prontamente.
‘Procura então dentro da tua casa o tesouro que deixei para ti’, disse o mestre.

Shan-Tzu chamou o segundo discípulo. Fez as mesmas perguntas e obteve as mesmas respostas. Pediu-lhe a mesma tarefa. Chamou o terceiro discípulo e tudo se repetiu da mesma forma.

O primeiro discípulo dirigiu-se para o quarto onde dormia e revirou-o completamente. Após longa procura encontrou uma pedra de jade.

O segundo pensou um pouco e concluiu que, sendo ele próprio um devoto, sua casa só podia ser o templo. Dirigiu-se para lá. Após uma calma procura, encontrou um manuscrito antigo.

O terceiro discípulo demorou mais tempo pensando. Chegou à conclusão de que o único lugar em que se sentia em casa era um pequeno planalto do outro lado do rio. Abriu os portões e saiu.

Passou pelo jardim e parou, demorando-se em observar os pássaros. Mergulhou no rio, chegou ao planalto e, lá, conversou durante longo tempo com um búfalo. Ao fim do dia estava cansado e, sem querer, adormeceu.

No dia seguinte, ao nascer do sol, os três discípulos foram ter com o mestre. ‘Aqui está o tesouro que encontrei: uma lindíssima pedra de jade’, disse o primeiro.
‘Aqui está o meu, que descobri no templo: um manuscrito com as palavras de Lao-Tzu’.
Shan-Tzu virou-se para o terceiro e perguntou:
‘E tu, encontraste o tesouro?’
‘Não, as únicas coisas que trago são uma pena, que um pássaro deixou cair; um seixo, que apanhei no fundo do rio; e a minha roupa, cheia de pêlos do búfalo que se deitou em cima de mim.’
Shan-Tzu dirigiu-se então aos três:
‘A todos vós ensinei o mesmo. A todos vós fiz as mesmas perguntas. Todos vós me deram as mesmas respostas. No entanto, seguiram caminhos diferentes. Porque, mais importante do que o que dizem, mais importante do que o que aprendem, é a forma como ouvem. É isso o que vos torna especiais.’

Olhando para o primeiro, o mestre continuou:
‘O Tao flui em ti. Não precisas pensar muito. Encontraste na tua casa o teu equilíbrio. Serás muito útil aqui ao meu lado.’

Ao segundo, ele disse:
‘Tu és um estudioso. Meditar é o teu destino. Poderás um dia ajudar-me a explicar a importância do estudo e da meditação’.

Por fim dirigiu-se ao terceiro:
‘Tu escolheste o teu caminho. Deverás sair daqui de imediato. O mundo é a tua casa; e a natureza, a tua amante. Aguardo com impaciência o dia em que voltes e me aceites como teu discípulo.’
O jovem aprendiz se foi. Para tornar-se o homem que ficaria sendo conhecido como Jie-Tzu.”

(“Jie-Tzu”, fábula taoísta, via Renato Modernell).

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