Os prazeres da psicanálise
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Os prazeres da psicanálise

Ricardo Lombardi

07 de janeiro de 2009 | 06h02

Circular: “(Cenário: bar movimentado, da moda, de preferência em Ipanema. Garçons lentos e displicentes. Os dois personagens, ELE e ELA, depois das dificuldades presumíveis que podem ser inventadas pelo diretor, conseguem uma mesa. Esperam duas horas por um garçom que já passou por eles no mínimo duzentas vezes e o diálogo se inicia).

ELE — O que é que você quer? Chope?

ELA — Por quê deveria querer chope? Pedir chope aqui é um tanto compulsivo. Você não pede chope por uma escolha livre: é uma compulsão. Coisa típica da neurose obsessiva. Você sabe muito bem que não é meu caso, querido.

ELE — Está bem. Você já passou duas horas com seu psicanalista, hoje. Será que não pode mudar de assunto?

ELA — Fique sabendo que o auto-conhecimento é o começo da cura. Depois, não tenho pressa em beber nada. Não sofro de nenhuma regressão à fase oral, como você.

ELE — Regressão a quê? Que diabo é isso? Não estou sentindo nada!

ELA — Está, sim. Está.

ELE — Claro que não.

ELA — Claro que está. Você é que não sabe.

ELE — Ué, não estou sentindo nada!

ELA — Pior. Muito pior. Não sente por causa de seus mecanismos de defesa. Você nunca ouviu falar de couraça caracterológica?

ELE — Nunca. O que é isso?

ELA — É uma pena.

ELE — Por quê?

ELA — Você está doente, meu amor. Muito doente.

ELE — (um tanto alarmado) Não!

ELA — (com firmeza) Doente, sim. Muito doente. Por que você não vai ao Dr. Hauser? Posso marcar hora para você, amanhã.

ELE — E quem é o Dr. Hauser?

ELA — Você está cansado de saber quem é o Dr. Hauser. Pergunta por causa de outro mecanismo de defesa. Seu caso está me parecendo mais grave do que eu pensava.

ELE — Está bem. Mas quem é ele.

ELA — Meu analista, é claro. Você vai gostar muito dele, querido. É um homem maravilhoso. Bonito, inteligente, culto, atlético, divino. Se eu já não estivesse no meu quinto ano de análise, poderia pensar até que é um semideus. Mas não. Já sei que é um ser humano como qualquer outro, sujeito aos mesmos erros e defeitos. Ele mesmo fez questão de deixar isso bem claro. Não é genial?

ELE — O que é genial?

ELA — Ora, o próprio Dr. Hauser dizer que é um ser humano. Só um homem divino diria isso.

ELE — Eu também reconheço que sou apenas um ser humano.

ELA — Mas você não é o Dr. Hauser. Não desanime nas primeiras sessões. suas resistências serão muito fortes, entende? Isso também aconteceu comigo, no começo. Mas o Dr. Hauser é um mestre no manejo da transferência e, depois de algum tempo, você vai sentir—se outra pessoa.

ELE — Mas eu não quero me sentir outra pessoa.

ELA — Coitadinho de você, meu bem. Num instante o Dr. Hauser vai convencer você de que você quer ser outra pessoa. Claro que quer.

ELE — Mas que outra pessoa, meu Deus?

ELA — Uma pessoa mais livre, mais independente. Sem essa dependência neurótica que você tem de mim, por exemplo.

ELE — (esmagado) E eu tenho dependência neurótica de você?

ELA — Claro. Qualquer pessoa com experiência de análise percebe isso logo de cara.

ELE — Você está quase me convencendo.

ELA — Tem uma fixação oral, também. E é um obsessivo-compulsivo típico. Já reparou essa mania por ordem e limpeza que você tem? Já? Aposto que não. Você não repara nada porque seu mecanismo repressivo tomou a forma da inversão. Você se acredita sadio quando está horrivelmente, miseravelmente, talvez até irrecuperavelmente doente.

ELE — (totalmente aterrado) Puxa! Acho que preciso beber alguma coisa. Posso pedir um chope?

ELA — Claro. Peça um para mim, também.”

(Luiz Carlos Maciel, “Os prazeres da psicanálise”, publicado na edição 2 de “O Pasquim”).

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