O palavrão é indispensável
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O palavrão é indispensável

Ricardo Lombardi

27 de novembro de 2008 | 06h01

Circular: “Já me estão a cansar… parem lá com a mania de que digo muitos palavrões, caralho! Gosto de palavrões! Como gosto de palavras em geral. Acho-os indispensáveis a quem tenha necessidade de dialogar… mas dialogar com caracter! O que se não deve é aplicar um bom palavrão fora do contexto, quando bem aplicado é como uma narrativa aberta, eu pessoalmente encaro-os na perspectiva literária! Quando se usam palavrões sem ser com o sentido concreto que têm, é como se estivéssemos a desinfectá-los, a torná-los decentes, a recuperá-los para o convívio familiar. Quando um palavrão é usado literalmente, é repugnante. (…)

(…) Se há palavras realmente repugnantes, são as decentes como ‘vagina’, ‘prepúcio’, ‘glande’, ‘vulva’ e ‘escroto’. São palavrões precisamente porque são demasiadamente inequívocos… para dizer que uma localidade fica fora de mão, não se pode dizer que ‘fica na vagina da mãe’ ou ‘no ânus de Judas’. Todas as palavras eruditas soam mais porcas que as populares e dão menos jeito! Quem é que se atreve a propor expressões latinas como ‘fellatio’ e ‘cunnilingus’? Tira a vontade a qualquer um! Da mesma maneira, ‘masturbação’ é pesado e maçudo, prestando-se pouco ao diálogo, enquanto o equivalente popular ‘esgalhar um pessegueiro’, com a ressonância inocente que tem, de um treta que se faz com o punho, é agradavelmente infantil. Os palavrões são palavras multifacetadas, muito mais prestáveis e jeitosas do que parecem. É preciso é imaginação na entoação que se lhes dá. Eu faço o que posso.” (Miguel Esteves Cardoso, neste texto.)

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