"O espanto levou a melhor sobre mim"
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"O espanto levou a melhor sobre mim"

Ricardo Lombardi

27 de abril de 2009 | 06h07

Circular: “(…) Como o chão em que caí, a um lado do caminho, era duro, e como eu podia ficar muito tempo ali e mal conseguia me mover, dediquei-me a escavar pacientemente, com o canivete, a terra ao redor de meu corpo. A tarefa mostrou-se bem fácil, de vez que, sob a superfície dura, a terra era esponjosa. Pouco a pouco, fui me enterrando numa espécie de fossa que veio a ser um leito tolerável e quase abrigado pela quente umidade. A tarde fugia. Minha esperança e meu cavalo desapareceram no horizonte. Veio a noite, escura e cerrada. Eu a esperava assim, horrorosa e pegajosa de negrume, com desesperança de mundos, de lua e estrelas. Naquelas primeiras noites negras, o espanto levou a melhor sobre mim. Léguas de espanto, desespero, recordações! Não, não, ide, recordações! Não hei de chorar por mim, nem por… Uma fina e persistente garoa chorou por mim. Ao amanhecer do outro dia, meu corpo estava bem colado à terra. Dediquei-me a tragar, com entusiasmo e regularidade “exemplares”, pílula atrás de pílula de ópio, e isso terá determinado o “sono” que precedeu minha “morte”. (…)”

(Santiago Dabove, “Ser Pó“, na revista Piauí).