"Ó, 'dude', vou mentir muito pior pra você daqui a uns 10 anos"
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"Ó, 'dude', vou mentir muito pior pra você daqui a uns 10 anos"

Ricardo Lombardi

24 de junho de 2009 | 06h53

Ótimo post do blog Filthy McNasty que pode ser útil para pais:

“Meu amigo K. foi apanhado pela mulher em flagrante delito de assustar o filho do casal, que tem quatro anos, com história ameaçadora de monstro (à maneira das onipresentes histórias sobre o Homem do Saco que, er, traumatizaram minha infância). A pedagogia mudérna, claro, desaprova terrorismo comportamental pra cima dos fedelhos, e todo mundo parece concordar com a ideia de isolar as crianças contra aquilo que a ciência designa ‘o estado apavorante da matéria’. Tá. Todo mundo está provavelmente certo, mas eu acato o argumento central da defesa: as crianças precisam ter medo de alguma coisa, caceta.

Eu lembro bem da minha infância, ao contrário de muitos adultos. Medos irracionais eram parte dela, mesmo que eu não fosse o tipo de menino a quem a ameaça do Homem do Saco ou do Bicho-Papão causasse pesadelo (o modo bravata sempre foi dominante, na minha psicologia, e quando alguém falava em Bicho Papão eu logo imaginava dar umas cadeiradas na criatura e devolvê-la às trevas com o rabo entre as pernas). E ainda que despertar medos irracionais para usá-los como ferramenta de controle de chiliques da petizada seja escrotinho, medo é necessário. E talvez medo despertado assim, er, em laboratório, ajude as crianças a se acostumar com a sensação e, exatamente porque as ameaças proferidas jamais se concretizam, a desenvolver autocontrole.

Além disso, mais uma vez porque eu me lembro bem do que sentia na infância, descobrir que esses medos todos são patranhas me parece parte essencial da evolução da personalidade. Descobrir que o Bicho Papão não existe resulta em um sentimento de superioridade secreta diante da tirania dos adultos, e duvidar dessas coisas é passo importante no caminho que conduz a duvidar de outras patacoadas que os adultos virão a proferir sobre sexo, drogas, envenenamento por tatuagem e a necessidade incontornável de um deproma em Direito, medicina ou engenharia. Porque os pais, pelo menos os pais da minha geração, sabem –ou deveriam saber- que todas essas ladainhas são bem menos verdadeiras do que as obrigações da paternidade impõem sustentar, história de Bicho Papão talvez seja a maneira mais amorosa de fazer com que um filho saiba que, ‘ó, dude, vou mentir muito pior pra você daqui a uns 10 anos’. Useful to get that learnt.”

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