O carioca
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O carioca

Ricardo Lombardi

15 de janeiro de 2009 | 06h07

Circular: “Certa vez perguntei ao compositor Antônio Nássara, genuíno filho da Rua Ibituruna, no Maracanã, como ele definia um bom carioca. Isso foi num tempo em que por aqui ainda havia políticos. Ele me respondeu:

— Bom carioca é o que aceita sem ressentimento o fato irremediável de que os bons empregos não foram feitos para ele. E que inútil é disputar com o filho ou o genro de um político mineiro os melhores cargos burocráticos. Uma boca pequena em qualquer repartição pública, onde não tenha que assinar ponto, lhe basta, é o suficiente para que se sinta realizado e agradecido a São Jorge.

Por sua vez, J. Carlos, o fabuloso chargista, costumava dizer que carioca legítimo é aquele que ‘tendo de resolver um problema urgente, adia-o para o dia seguinte, entre as 3 e 6 da tarde, chega às 8 e ainda bronqueia porque a pessoa com quem marcou encontro não o esperou’.

E Marques Rebelo, carioca do Trapicheiro, escreveu que ‘o carioca está sempre pronto para se divertir, e o Rio, em verdade, não é mais que um imenso parque de diversões’. Mas, acrescentava, ‘com que o carioca se diverte, mesmo, é com as coisas sérias’.

A esses três julgamentos-definições, emitidos por inegáveis conhecedores do assunto, eu poderia enumerar uma série sem conta de características e marcas especiais que compõe essa singular criatura sorridente, urbana e versátil, engenhosa e sem complicações, ao mesmo tempo íntima e eqüidistante, esgarçada e vária, a quem se chama de carioca, ente de ‘alma estóica, sensual e carnavalesca’ (Manuel Bandeira). Há quem diga, por exemplo, que carioca legítimo nunca foi ao Pão de Açúcar ou ao Corcovado. Eu mesmo conheci pelo menos três, dos mais genuínos, que nunca lá estiveram: o citado Nássara, o pintor Di Cavalcanti, carioca da Rua Riachuelo, e Paulo Portela. Sei disso porque eles mesmos me contaram. Diz-se também que um bom carioca está sempre em dia com a geografia e a topografia da sua cidade, sabendo perfeitamente distinguir (sem que seja preciso recorrer ao livro já clássico de Brasil Gérson) a Rua D. Mariana, em Botafogo, da Travessa Mariana, em Ramos; e não desconhece que a Rua da Coragem (‘quem mora lá’ — dizia Di Cavalcanti — ‘resiste ao calor local, o mais quente do Rio, abraçado à placa da rua’) fica na Penha; a Rua Emerenciana, em São Cristóvão; e a Visc. de Abaeté, em Vila Isabel. Esse povo do Rio, do qual se afirma ser o mais tratável e lhano de todo o mundo, é, como se sabe, uma mistura feliz das mais diferentes tribos. (…)”

(Joel Silveira em “Memórias de Alegria”).

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