O apocalipse do "game over"
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O apocalipse do "game over"

Ricardo Lombardi

07 de dezembro de 2009 | 06h02

ilustraBom texto de Michel Laub sobre as máquinas de pinball Taito publicado na Revista da Folha. Reproduzo abaixo:

“Existem vários motivos para gostar de São Paulo — teatro, shows, hambúrgueres do tipo gourmet ou pós-Chernobyl –, mas nenhum bate o fato de que aqui dá para jogar pinball Taito. Em qualquer grande cidade você entra num fliperama e encontra uma oferta infinita de máquinas novas. Mas em nenhuma outra há uma linha específica de modelos, lançada num período específico dos anos 1980, que reúne a mitologia específica de uma geração inteira.

O escritor francês Marcel Proust publicou uma série de romances célebres que podem ser resumidos numa sensação, a de comer um tipo de bolo -a madeleine- cujo gosto remetia a um desfile caudaloso de memórias.

No caso de quem tem entre 35 e 40 anos hoje, a madeleine são máquinas como Cavaleiro Negro, Sure Shot, Hawkman. Jogá-las é ter 13 anos de novo, época em que meus amigos passavam as tardes roubando lacres de placas de automóveis, um pedaço de chumbo que era derretido e recortado no formato de uma ficha, razão para mais de um deles ter apanhado dos seguranças dos fliperamas.

Mas não é só nostalgia que motiva a ida a lugares como o Clube do Pinball, no Cambuci, com a maior coleção brasileira de Taitos. Ou o Dublin, no Itaim, que até alguns anos atrás mantinha uma Rally. Ou o Rabo de Peixe, na Vila Madalena (Zarza e Vortex); ou o CB, na Barra Funda (Gemini 2.000); ou um boteco da rua Afonso Celso cujo dono se desfez de uma Shark e de uma Titan.

Porque qualquer aficionado que tenha essa experiência sabe: bastam duas ou três partidas, duas ou três vezes em que você diz para si mesmo que é apenas um “revival” inocente e sorri, ao reconhecer as luzes e os sons dos “bumpers”, caçapas, e “banks” de bandeirinhas, e você está no jogo de novo: apreensivo, frustrado ou coberto de glória ao ganhar ou não uma bola extra, um recorde de pontos. Uma cidade pode dar a você trabalho, amigos, filhos e o amor da sua vida. São Paulo dá tudo isso e mais o épico entre a colocação da ficha e o apocalipse do “game over”.”

(Crédito da ilustração: Graphorama.)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.