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"No Brasil, somos também vigiados pelas nossas famílias, cujo princípio básico é evitar a solidão de seus membros"

Ricardo Lombardi

11 de novembro de 2009 | 06h05

Circular: “A maioria dos intelectuais brasileiros que conheço teve que lutar para ler um livro dentro de suas casas, independentemente de nível social. (…) É que, no Brasil, somos também vigiados pelas nossas famílias, cujo princípio básico é evitar a solidão de seus membros. Qualquer tipo de isolamento ou individuação, seja porque a pessoa fala pouco ou porque fica dentro de seu quarto (quando o tem), é tomado como sintoma de que algo não está bem. Criamos nossos rebentos para serem sociáveis e dependentes dos mais velhos e exemplos para os mais novos. Olhamos mais vertical do que horizontalmente. Dessa jaula de carinhos e favores feita por relações perpétuas (pois nem a morte rompe com elas), não há escapatória. Nossas crianças não podem ficar sozinhas. A todo momento um adulto as excita, solicitando um olhar ou um sorriso. É enorme a carga social que despejamos uns nos outros. Disso resulta uma aversão à solidão que, no Brasil, é castigo. Na América, ensina-se como fazer amigos. No Brasil, precisamos do manual de como podemos nos livrar daqueles que, por amor, nos sufocam. É óbvio que uma pessoa assim socializada tenha dificuldades em ler e estudar, pois essas são atividades _como descobriram os monges e profetas_ que demandam um mínimo de isolamento e de autonomia, esses irmãos de um silêncio que é mandamento principal das bibliotecas e de todos os ambientes de leitura.”

Do antropólogo Roberto DaMatta, no artigo “Ficar sozinho no Brasil”. (Via blog do Armando Antenore).

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