Kelvi até o finalzinho, Kelvi sem parar e Kelvi total
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Kelvi até o finalzinho, Kelvi sem parar e Kelvi total

Ricardo Lombardi

16 de fevereiro de 2009 | 06h47

Ótimo texto de Roberto Kaz sobre a “técnica” Kelvi que saiu na mais recente edição da revista Piauí. Vale a pena. No site, está apenas para assinantes, mas espero que me desculpem por colocar uma cópia aqui. (Atualização: a matéria pode ser lida no site da revista, sim).

Kelvin, esse desconhecido” 

“No cruzamento da avenida Nossa Senhora de Copacabana com a rua Prado Júnior, no Rio de Janeiro, há um orelhão de uma banalidade total. Dentro dele, ali onde o sem-celular se enfia para levar seu papo adiante, há um sem-número de anúncios de ofertas sexuais. Novidade nenhuma. Sexo é mercadoria abundante nessa região onde se concentram os mais notórios inferninhos da cidade. O que chama a atenção é o mistério de alguns reclames.

Quem não gosta de charadas se aterá ao cardápio libertino de 20 reais oferecido por Gracinha (“mulata show, popozão maravilhoso”), Luana (“gostosona, sem limites”) ou Capitu (“louraça levando você ao delírio”). Já um lúbrico destemido decerto preferirá digitar os oito números que o separam de Luma, “morena clara, manequim 38, capa de revista”; no frescor dos 25 anos, ela se especializou em Kelvi — mais especificamente, num exclamativo “Kelvi total!!!”

Luma não está só. A concorrente Anita se declara adepta do “Kelvi até o finalzinho”. Já Ariel e Bruna afiançam ter talento ímpar para o “Kelvi sem parar”. E Cristini, uma “quase mulher”, promete um Kelvin — agora com n — “completo, sem embalagem”.

A dúvida se instala. Seja na Mercearia Alto do Mondim, no Frigorífico Bagé ou mesmo na loja de artigos sexuais Sex Cigana — estabelecimentos situados num raio de 20 metros do orelhão —, nenhum gerente, atendente ou entregador parece conhecer o sentido da palavra, quanto mais sua origem. É o caso de empenhar esforços para dar cabo do enigma.

De início, pesquisou-se entre os cerca de 228 mil verbetes do Houaiss, que permitiu rememorar velhas aulas de física nas quais kelvin, com n, era mencionado como a “unidade de temperatura no Sistema Internacional de medidas, definida como 1/273,16 da temperatura termodinâmica do ponto triplo da água”. O que não ajudou muito, apenas gerou a angústia adicional quanto à exata constituição do “ponto triplo da água”. No Aurélio, ganhou-se ao menos uma explicação etimológica: o substantivo vem de William Thomson, físico inglês, barão de Kelvin.

Era um início. Com a nova pista, partiu-se para a Britânica, descobrindo-se ali que lorde Kelvin publicou seu primeiro artigo científico aos 17 anos de idade. Porém, tendo morrido em 1907 — um século antes de a terminologia se espraiar por Copacabana —, foi preciso eximi-lo de responsabilidade. A palavra “kelvi”, por sua vez, não foi encontrada em nenhum dicionário ou enciclopédia.

Na internet, o melhor lugar para se conhecer a língua viva das ruas, a pesquisa avançou. No site forumnow.com.br, dedicado à discussão de assuntos díspares (a adoção de cães ou o significado de letras heavy-metal, por exemplo), surgiu o tópico “Kelvin profundo”. Infelizmente ainda não se tratava de explicações, mas de uma inquietação similar: “Aí pessoal, alguém aqui sabe que diabos é isso de Kelvin profundo?????” Havia 24 tentativas de resposta, tais como: “Vai ver que é a mesma história da famosa folhinha verde” — outra prova de que Kelvin é um gerador de enigmas.

No portal multiply.com, as perspectivas se assanharam com um fórum intitulado “Coisas de Copacabana, ou por que Kelvin?”, mas, também ali, nada se achou de conclusivo. “Variação de Calvin Klein”, sugeriu um. “Corruptela da pergunta ‘Quer vir?’, que em bom português é dito ‘Qué vim?’”, arriscou outro. Oitenta e duas explicações depois, alguém se arrancou os cabelos metafóricos: “E por que Kelvin? Por que não Charles, Jack ou Peter?”

Os fiascos sucessivos levaram a um especialista em lançar luzes sobre questões linguísticas: o professor Pasquale Cipro Neto, que gentilmente atendeu o telefone em plena viagem de trabalho pelo Ceará. Surpreso, ele afirmou desconhecer o vocábulo, mas elucubrou: muitas vezes, mal-entendidos fonéticos acabam por criar palavras novas, como chumbrega — “O Houaiss sugere que ela viria de um certo alemão chamado Schönberg” — ou carrasco — “que vem do português Belchior Nunes Carrasco, que era um algoz”. Pasquale assinalou que, para ser dicionarizada, a terminologia de Copacabana precisaria se difundir, passando a ser empregada num universo menos paroquial: “Nada acontecerá se Kelvin continuar restrito a um pequeno grupo.” Explicar que é bom, não explicou: “Eu me valeria do chutômetro”, disse.

Havia, enfim, a desesperada saída de ir diretamente às fontes e ligar para Luma, a praticante do “Kelvi total!!!”. Do outro lado da linha, a interlocutora se mostrou evasiva: “Só conto ao vivo.” Achou-se melhor deixar o enigma sem solução.”

(Para ilustrar o port, imagem escaneada que eu peguei aqui.)

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