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Julio Bernardo, do “Boteco do JB”, lança “Dias de feira”

Ricardo Lombardi

26 de maio de 2014 | 11h58

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O crítico gastronômico Julio Bernardo, autor do blog Boteco do JB, lançará no sábado, dia 31 de maio, o livro “Dias de feira”, pela editora Companhia das Letras. Se você não conhece o Julio (nem as opiniões dele sobre gastronomia), sugiro que leia este perfil que o jornalista Rodrigo Levino escreveu para a revista VIP, edição de janeiro. Está tudo lá.

Sobre o livro: “O texto divertido, leve, esclarecedor e assumidamente nostálgico de Julio Bernardo passeia pelas feiras de São Paulo, mostrando – com didatismo e humor – o funcionamento e toda a dinâmica social e econômica das feiras. Mais do que isso, o autor, que é filho de feirantes, chef de cozinha e um dos blogueiros gastronômicos mais ácidos da internet brasileira, recupera histórias, causos, tragédias e episódios de personagens que compõem a vasta e rica comédia humana que é a feira. Mocinhos e bandidos, gostosonas e espertalhões, justiceiros e paus d’água: tipos humanos inesquecíveis depois da leitura desse livro encantador”, escrevem os editores.

O lançamento será na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho, lá pelas 5 da tarde.

A seguir, um trecho da obra:

 1979

  “Mão na cabeça!”, disse o elemento, munido de imponente trezoitão na mão e patética meia encobrindo o rosto, assim como o parceiro que o escoltava. Era domingo à noite, e assistíamos tranquilamente um filme quando veio a surpresinha.

Puta troço desagradável interromperem sua santa paz dominical com um assalto. Enquanto um amarrava minha mãe na cadeira, outro pegava com meu velho o saco plástico com as férias do fim de semana. Maior volume de dinheiro, estava ali a quantia para pagar funcionários, fornecedores e tudo mais. Claro que um assalto nunca vem em boa hora, mas sem aquele dinheiro tão contado estaríamos especialmente fodidos, a família inteira.

A operação toda até que foi bem rápida, sem dano maior, como violência física ou estupro, graças à calma do meu bom pai, que meio que conduziu a bagaça, acalmando o assaltante durante todo o tempo. Até que, meio assustado com a situação, deixei cair meu peão no chão. No que o ladrão abaixou inocentemente, para me ajudar na recaptura do brinquedo, meu pai, que não fora amarrado, sacou rapidamente o calibre 32 que guardava no tornozelo e deu uma coronhada no larápio, retirando a porra da meia em seguida.

“Peraê, você não é irmão do Josimar?”, perguntou o velho, reconhecendo o elemento.

“Sô, sim”, admitiu, cabeça baixa, com seu revólver já no chão.

“Então eu tiro seu irmão da cadeia, dou trabalho digno pra ele e é assim que vocês me agradecem, puta que pariu?! Cês merecem é uma sova!.”

Enquanto meu pai esmurrava a cara do sujeito (porrada na cara é mais pra machucar a moral do cabra que seu corpo, em si) eu, minha mãe amarrada ainda e o parceiro dele assistíamos à cena, atônitos. O safado pedia desculpas como uma criança, e meu pai descia a mão, mandando que ele calasse a boca.

Surra tomada, os dois larápios saíram correndo como cachorrinhos inofensivos. No outro dia, fugiram rumo ao Norte, antes que a humilhação se espalhasse.

Minha mãe, finalmente desamarrada, me abraçou e disse que era para eu aprender que o mundo é dos honestos.

Bom, pelo menos no universo dos bucheiros, essa regra vale. Nessa noite pensei que talvez fosse uma boa viver nesse mundo.

De fato, fiquei nele por bons vinte e cinco anos.”

 

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