"Em defesa do Tiririca"
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"Em defesa do Tiririca"

Ricardo Lombardi

31 de outubro de 2010 | 11h02

tiririca

Sugestão de leitura: o texto “Em defesa do Tiririca“, do jornalista Leandro Beguoci (vale a pena conhecer o blog dele). Copio o texto aqui — e espero que ele não se importe.

Em defesa do Tiririca

“Existem alguns livros ou filmes que valem apenas por uma frase. Para ficar no mundo pop, pense apenas em “Vou fazer uma oferta que você não pode recusar”, de “O Poderoso Chefão”. Obviamente, o filme não se restringe a essa frase, mas seria menos brilhante sem ela. Da mesma forma, é difícil imaginar essa frase em outro filme senão  “O Poderoso Chefão”. No caso das eleições deste ano, e especialmente relacionada ao massivo número de votos recebido por Tiririca, uma frase é particularmente interessante: “Tem coisas que só acontecem no Brasil”. Ela geralmente vem acompanhada ou pelo enfado ou pelo ufanismo, mas, não importa a situação, carrega sempre consigo a certeza de que o Brasil é um país singular, um pedaço de terra banhado por água capaz de parir um universo de idiossincrasias, sempre nos extremos, sempre espetaculares ou medonhas. Da mesma forma que a oferta que não se pode recusar, essa frase resume a obra, e algumas vezes, parece que o Brasil foi feito para abrigá-la. Mas, nesse caso, a frase diz mais sobre quem a pronuncia do que sobre o país _e isso é preocupante. É como se você tivesse certeza que “Ser ou Não Ser” fosse de Zorra Total, e não de Shakespeare. Mas, antes disso, vamos ao Tiririca.

A indignação pela votação do Tiririca é um surto coletivo de vergonha alheia. Realmente, é constrangedor assistir à sua eleição, especialmente com os slogans que ele escolheu. Mas o Tiririca, ao contrário da jabuticaba, não é coisa nossa. Schwarzenegger é governador da Califória e a Cicciolina foi eleita deputada na Itália. Com alguma freqüência, aliás, representantes das subcelebridades, ex-celebridades ou obscuras celebridades ganham uma vaga em Parlamentos (ou governos) mundo afora. É do jogo, e não há nada de errado com isso. Não existem profissões ou slogans proibidos no Parlamento. Cada um faz campanha com a plataforma que quiser, dizendo o que quiser.

Aliás, essa é a função de uma campanha: dizer a que veio. As pessoas se identificam com essas pessoas, ou pelo menos com a imagem que elas têm, e geralmente essa é uma das principais razões pelas quais nós votamos: pela identificação com a pessoa, com o programa, com o partido. Alguns votam em quem diz que cortará impostos; outros, em que vai fazer a reforma agrária. E existem as pessoas que votam em quem vai fazer piada no Congresso. A eleição do Tiririca atraiu os cidadãos que realmente não têm idéia do que faz um deputado federal e encantou os eleitores que, de fato, acreditam que pior do que está não pode ficar. Tiririca fez a festa dos eleitores que gostariam de ver um palhaço de verdade na Câmara _e que acham que existem centenas de palhaços de mentira em Brasília. Não dá para desprezar: é uma plataforma de campanha. Niilista, é verdade, mas é uma plataforma que atraiu mais de um milhão de votos e que você em algum momento, antes do Tiririca, provavelmente repetiu diante dos seus amigos. Com todo direito, aliás.

Porque, afinal, o niilismo cômico de Tiririca não faria vergonha a Nietszche.  Se não viesse acompanhado por aquele chapéu absolutamente brega, talvez fizesse algum sucesso no Centro Acadêmico da FFLCH ou mesmo do Direito do Mackenzie. No final das contas, Tiririca se elegeu zombando das instituições, assim como nós zombamos delas quando achamos super esperto pagar uma propina ao seu guarda, ou assim como tem gente que faz campanha contra as instituições, à direita e à esquerda, dizendo que tem de fechar o Congresso, ou assim como tem gente que zomba da inteligência do eleitor dizendo que, como deputado, vai levar o metrô a Guarulhos.

O que não pode acontecer é Tiririca perder o mandato por ser Tiririca, assim como não tinha cabimento um liberal ser banido na Rússia comunista ou um socialista correr o risco de perder a cadeira durante a ditadura militar no Brasil. Ele só pode perder o posto se violar a lei. A ânsia de punir o palhaço não esconde um certo ar aristocrático, como se o Parlamento fosse a casa dos homens bons. Primeiro, esse lugar não existe. Segundo, o papel do Parlamento é abrigar os representantes da população, e não necessariamente seus melhores membros. E, apesar dos problemas, apesar dos representantes, as coisas têm melhorado e o país tem caminhado. A democracia tem algum mecanismo oculto que faz com que ela discretamente se aperfeiçoe _e não só no Brasil. Nos Estados Unidos, no começo do século 20, membros do Congresso defendiam o linchamento de negros. Esse grupo foi varrido. No Brasil, já tivemos governadores que defendiam o prende e arrebenta. Talvez alguns deles ainda achem isso, mas já não tem tanto espaço para defender o espancamento.

È por isso que eu acho mais preocupante a frase “Tem coisas que só acontecem no Brasil” do que os votos no Tiririca. A frase assume que as coisas não vão mudar porque são e serão sempre assim. A frase zomba tristemente de tudo que foi construído ao longo dos anos. É um niilismo tiririquiano: Tão natural quanto a feijoada é a calçada esburacada, tão natural quanto o samba é a o hábito nacional de furar fila. É óbvio que a eleição do Tiririca incomoda, é um horror pagar uma pessoa para ser seu representante no Parlamento tendo a certeza de que a produção dela será um pouco melhor do que péssima. Mas é tão ruim quanto tratar o pedaço de terra em que se mora, se trabalha e onde vivem as pessoas que você mais gosta (e, no final, um país é isso) como se fosse uma nau sem rumo.

Primeiro, porque não é uma nau. Segundo, porque tem um rumo. Às vezes melhor, às vezes pior, como qualquer outro país do mundo (sempre pense que a França que pariu Voltaire é a pátria do Sarkozy; que os EUA são de Roosevelt e também da Ku Klux Klan). Nas eleições, melhor do que lamentar é escolher quem a gente acha que vai colocar o Brasil no rumo que a gente acha melhor pela maior parte do tempo. Não tem jeito, por pior que seja, por mais que seja chato, viver em uma democracia exige um grau de comprometimento mínimo com o lugar que asfalta a sua rua. A autoflagelação melhora a imagem de cidadão consciente e indignado, mas não vai muito além disso, não. “Tem coisas que só acontecem no Brasil” diz mais sobre quem a fala do que sobre o pedaço de terra que fala português onde moramos. Mais importante do que se indignar com o Tiririca é eleger gente boa que possa trabalhar dobrado para compensar o trabalho que o Tiririca não vai fazer. Vendo a lista dos eleitos, dá para dizer: tem gente assim no Parlamento. Porque de tanto a gente repetir que o Brasil não tem jeito, mais de um milhão de pessoas, só em São Paulo, acabou convertendo a crença em voto. Mais de um milhão, diga-se.”