"Ele vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver"
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"Ele vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver"

Ricardo Lombardi

28 de janeiro de 2010 | 17h34

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“O duque Mu da China disse a Po Lo: ‘Você está bem entrado em anos. Haverá alguém em sua família capaz de substituí-lo na tarefa de procurar cavalos para mim?’. Po Lo respondeu: ‘Um bom cavalo pode ser selecionado por sua aparência e constituição física. Mas o cavalo fora de série – o que não levanta poeira e nem deixa rastro – é algo evanescente e fugidio, tão intangível quanto o ar rarefeito. Os talentos de meus filhos situam-se em plano definitivamente inferior: reconhecem um bom cavalo quando o vêem, mas são incapazes de identificar um cavalo excepcional. No entanto, tenho um amigo chamado Chiu-Fang Kao, um vendedor de lenha e de legumes, que não fica nada a me dever em matéria de cavalos. Por favor, fale com ele’.

“O duque Mu assim fez, enviando-o logo depois em busca de um cavalo. Passados três meses, ele voltou anunciando que o encontrara. ‘Está agora em Sach’iu’, acrescentou. ‘Que tipo de cavalo é ele?’, perguntou o duque. ‘Ah, é uma égua baia’, foi a resposta. Porém, quando alguém foi buscar o animal, verificou-se que era um garanhão negro como carvão! Muito contrariado, o duque mandou chamar Po Lo. ‘Esse seu amigo’, disse ele, ‘que contratei para encontrar um cavalo, meteu os pés pelas mãos. Ora bolas, não sabe nem distinguir a cor ou o sexo de um animal! O que é que ele pode entender de cavalos?’ Po Lo soltou um suspiro de satisfação. ‘Será mesmo que ele chegou a tal ponto?’, perguntou em tom excitado. ‘Ah, então ele é dez mil vezes melhor do que eu. Não há comparação entre nós. O que o Kao tem em mira são os elementos espirituais. Certificando-se do essencial, esquece os detalhes comezinhos; concentrando-se nas qualidades internas, perde de vista os sinais exteriores. Ele vê o que quer ver, e não o que não quer ver. Vê o que precisa ver e esquece o que não precisa ver. Kao é tão sabido como avaliador de cavalos que deveria julgar algo melhor do que simples animais.’

Quando o cavalo chegou, provou ser extraordinário.”

Do livro “Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira“, de J. D. Salinger (um repeteco aqui no blog em homenagem ao autor).

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