"É difícil imaginar algo mais antijornalístico do que o horóscopo. Pense bem: pode haver um zodíaco objetivo? Você conhece algum horóscopo crítico? Existe horóscopo independente?"
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"É difícil imaginar algo mais antijornalístico do que o horóscopo. Pense bem: pode haver um zodíaco objetivo? Você conhece algum horóscopo crítico? Existe horóscopo independente?"

Ricardo Lombardi

05 de maio de 2009 | 09h07

Não tinha lido este ótimo texto de Eugênio Bucci no Observatório da Imprensa, mas fui alertado pelos editores da Revista da Semana, que publicaram um trecho na última edição. O artigo de Bucci começa assim:

“Gente, o seguinte: o Oscar Quiroga me persegue. Sério mesmo. O dono da coluna astrológica no ‘Caderno 2’ do Estado de S.Paulo está numa campanha de mídia contra mim. Perto disso, o que fizeram com o Senado e com a Câmara dos Deputados é fichinha. Nós, de Sagitário, estamos expostos a uma persistente doutrinação da opinião pública no sentido de convencer a todos de que o nosso signo é sofredor, só erra, é egoísta e caminha celeremente para o abismo. É muita injustiça. Mas, respiro fundo, preciso ir devagar com este meu andor. Se eu não começar esta história pelo começo, por onde ela deve começar, você, caro leitor do Observatório, você que prima pela delicadeza quando se dirige a mim, vai dizer que fiquei paranóico. Não vou contra-argumentar, mas o fato de você poder dizer que eu ando paranóico não significa que eu não esteja sendo perseguido. E estou. Hei de provar.

Com calma. Eu disse que teria de começar do começo, sob pena de ser atirado no mais cruel descrédito. Peço que você tenha paciência, porque é o que farei. No princípio, devo iniciar por uma questão óbvia, uma questão de método: por que falar de horóscopo no Observatório da Imprensa? Digamos que a explicação seja um tanto quanto simples: os jornais mudam de diagramação, de formato, de projeto gráfico, de colunistas, de diretores – mas nunca deixam de publicar suas colunas de horóscopo. Sempre foi assim. São colunas muito lidas, como sabemos. Se fizessem pesquisa a respeito, talvez descobrissem que os índices de confiabilidade da astrologia, na opinião do leitorado, estão entre os mais altos de tudo o que aparece no jornal. Tanto que os signos estão todos lá, todos os dias, e não há editor que ouse arremessá-los para fora do vagão da imprensa. Os leitores gostam. Sendo o Observatório um fórum dedicado a debater a imprensa, nada mais natural, portanto, que ele se ocupe também de horóscopos.

Ao mesmo tempo, é difícil imaginar algo mais antijornalístico do que o horóscopo. Pense bem: pode haver um zodíaco objetivo? Você conhece algum horóscopo crítico? Existe horóscopo independente? Ele pode ser preciso? Factual? O autor da coluna consulta suas fontes on ou off? As informações que ele publica são passíveis de ser verificadas por um ser humano dotado de suas habilidades normais? Não sei, não sei. Mesmo assim, o horóscopo não sai da pauta. E, depois, há tanto antijornalismo em tantas outras pautas cotidianas que não se deve pedir ao horóscopo que ele pague o pato sozinho (…).”

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