"De que me serve entender o resto?"
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"De que me serve entender o resto?"

Ricardo Lombardi

22 de janeiro de 2009 | 06h06

Circular: (…) Quando a vida amorosa acaba, a vida em seu conjunto adquire algo de convencional, de forçado. Você mantém uma forma humana, os comportamentos habituais, uma espécie de estrutura; mas o coração, como se diz, não está mais ali. (…) Quando você renuncia à vida, os últimos contatos humanos que permanecem são os que você mantém com os comerciantes. No meu caso, limitam-se a algumas palavras pronunciadas em inglês. (…) Pode-se  habitar o mundo sem entendê-lo, basta arranjar alimento, carícias e amor. Em Pattaya, o alimento e as carícias são baratos, segundo os critérios ocidentais, e até mesmo asiáticos. Já no que diz respeito ao amor, é difícil falar. Agora estou totalmente convencido: para mim, Valérie foi uma exceção resplandecente. Ela era um desses seres capazes de dedicar a vida à felicidade de alguém, fazer disso seu objetivo direto. Este fenômeno é um mistério. Nele residem a felicidade, a simplicidade e a alegria; mas não sei como nem por que ele acontece. E se não entendi o amor, de que me serve entender o resto?

Até o fim continuarei a ser uma criança da Europa, da inquietação e da vergonha; não tenho nenhuma mensagem de esperança a transmitir. Não sinto ódio pelo Ocidente: no máximo, um enorme desprezo. Tudo o que sei é que, na medida em que existimos, fedemos a egoísmo, masoquismo e morte. Criamos um sistema em que é simplesmente impossível viver; e, como se não bastasse, continuamos a exportá-lo. (…)”

(Michel Houellebecq em “Plataforma“).

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