"Coisas absolutamente terríveis acontecem"
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"Coisas absolutamente terríveis acontecem"

Ricardo Lombardi

04 de maio de 2009 | 06h11

Circular: “Ó, estou dizendo é que a gente tende às vezes a ser muito limitado com a miríade de coisas diferentes que entram em conta para fazer uma pessoa ser quem é. Estou dizendo que a gente fica tão careta e condescendente com direitos, com perfeita justiça, com proteger as pessoas que ninguém pára para lembrar que ninguém é só vítima e nada é só negativo ou só injusto – quase nada é desse jeito. Ó – como é possível que as piores coisas que podem acontecer com você acabem sendo fatores positivos para quem você é. […] Pense como é ser estuprada por uma gangue, degradada, espancada até quase morrer, por exemplo. Ninguém vai dizer que isso é bom, não estou dizendo isso […] Mas vamos botar duas coisas no lugar aqui. Uma é que, depois, ela sabe uma coisa sobre ela mesma que não sabia antes.

O que ela sabe é que a coisa mais totalmente terrível que ela podia sequer imaginar que aconteceria com ela aconteceu de verdade com ela agora. E que ela sobreviveu. Não estou dizendo que está contente, […] [mas] a idéia que ela tem dela mesma e aquilo que ela pode viver e a que pode sobreviver é maior agora. Ampliou, cresceu, se aprofundou. Ela está mais forte do que nunca pensou lá no fundo dela e agora sabe disso, ela sabe que é forte de um jeito totalmente diferente de saber só porque seus pais disseram para você ou porque alguém que faz discurso na reunião da escola faz você repetir que você é Alguém, que você é Forte, repetir, repetir. […]

E além disso ela agora sabe também mais sobre a condição humana, o sofrimento, o terror, a degradação. Quer dizer, todo mundo admite que o sofrimento e o horror fazem parte do estar vivo, do existir, ou pelo menos se fala da boca para fora que se sabe disso, da condição humana. Mas agora ela sabe mesmo.

Coisas absolutamente terríveis acontecem. A existência e a vida dobram as pessoas de uma porrada de jeitos horríveis o tempo todo.”

(David Foster Wallace, “Breves Entrevistas com Homens Hediondos”, via blog do Tiago Martins). A ilustração peguei no Brunoise.

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