Circular: uma antologia
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Circular: uma antologia

Ricardo Lombardi

04 de julho de 2008 | 06h24

Só para variar, publico abaixo uma antologia de frases e trechos de livros que apareceram neste blog nos últimos meses:

“Aquele que se deixa prender sentimentalmente por criatura destituída de dotes físicos de encanto ou graça, acha-as dotada desses mesmos dotes que outros não lhe vêem. ‘Quem ama o feio bonito lhe parece‘” (Millôr Fernandes, “Provérbios prolixizados”, 1959)

“Depois que a tecnologia inventou o telefone, telégrafo, televisão, todos os meios de comunicação a longa distância, é que se descobriu que o problema da comunicação era o de perto.” (Millôr Fernandes)

“O casamento foi para ele uma espécie de passeio ao Corcovado. Ora, todos são de acordo que do Corcovado se goza uma vista magnífica, mas ninguém lembrou ainda a idéia de lá fundar uma cidade. Ninguém lá fica; sobe-se, goza-se, desce-se.” (Machado de Assis, “Qual dos dois?”, em “Histórias Românticas”).

“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.” (Graciliano Ramos)

“Mais um comentário sobre o filme de Antonioni. A Lei de Tynan sobre o Cinema Responsável: todos os filmes que tentem diagnosticar a sério os Problemas Humanos Contemporâneos são ruins. Só os filmes históricos, as comédias, as sátiras e os filmes de suspense prestam. Não sei porque é assim, mas é. (Nota: Cidadão Kane é em parte histórico e, em parte, uma sátira.)” (Kenneth Tynan, 16 de junho de 1975)

“Na rua, andando, sem almoço, sem vintém, parecia levar após si um exército. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custódio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho.” (Machado de Assis, “O Empréstimo”, em “Papéis Avulsos”).

“Toda família clássica sente-se na obrigação de ter um fracassado: uma família sem fracassado não é uma família de verdade, porque lhe falta um princípio que a conteste e lhe dê legitimidade. O tio tem quarenta anos e mora num conjugado de trinta metros quadrados: é como um quarto de criança, só que sem pais. A superfície ocupada pelo tio é inversamente proporcional à sua idade: quando ele tinha trinta anos, dispunha de um apartamento de cinqüenta metros quadrados. O tio deseja que sua mãe vá continuar entre os mortos sua paixão pelas doenças e sua tagarelice maçante. Não que dê para tirar assim da alma uma farpa dessas, mas o desaparecimento físico de uma pessoa proporciona com toda certeza vantagens definitivas. O tio acumulou tropeços gratificantes, que confortam a família em suas escolhas justas e nobres: desemprego, divórcio, falta de descendentes, concubinato com mulheres divorciadas, inserções fracassadas em lares monoparentais etc.” (Pierre Mérot em “Mamíferos”)

“Tantas vezes me mataram
tantas vezes já morri
e no entanto estou aqui
ressuscitando
Agradeço à desgraça
e àquele golpe de punhal
que me matou tão mal”

(trecho da canção argentina “La Cigarra”, de Maria Elena Walsh)

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