Boas metáforas
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Boas metáforas

Ricardo Lombardi

05 de fevereiro de 2009 | 06h04

“RASTROS NA FLORESTA

“Um cervo assustado quase morre de medo na sintaxe negra da floresta em que Erik Zondag caminhará amanhã sem reconhecer seus rastros. (Cees Nooteboom, escritor holandês, em Paraíso perdido, p. 103)

CRISE NA UNIÃO EUROPÉIA

“Tanto a Irlanda quanto a União Européia estão navegando em águas não mapeadas”. (Brian Cowen, primeiro-ministro irlandês, sobre a crise na UE deflagrada pela rejeição de seu país ao Tratado de Lisboa)

O PALHAÇO

“O palhaço é como o curinga num jogo de cartas. Pode assumir qualquer lugar, qualquer valor. E quando ele cumpre sua missão, vai para outro lugar. Não podemos ter rabo preso com nada, esse é o desafio.” (Membro da equipe dos Doutores da Alegria, que trabalha como palhaço.)

A OBRA ARTÍSTICA

“A obra artística é como uma flecha que se dirige a um alvo. Não importa se ela alcança ou não esse alvo, mas sim que ela se movimente. Por isso, comparo o escritor a essa flecha: ele é o que é, mas também o que deseja ser, representado pelo alvo.” (Tomás Eloy Martinez, escritor argentino)

O MANDATO E A TAÇA

“O mandato não pertence ao deputado, e sim ao seu partido. Se um jogador faz o gol do título numa final de campeonato, isso não lhe dá o direito de levar a taça embora ao deixar o clube.” (De um político, em um telejornal)

AS IDÉIAS

“As idéias são como camisas. É preciso trocá-las muitas vezes para conservá-las limpas.” (Jean-Yves Leloup, pensador espiritualista francês)

OS GUARDA-CHUVAS

“Eu caminhava entre guarda-chuvas pretos, como se uma população inteira de morcegos se locomovesse.” (Cees Nooteboom, em Caminhos para Santiago, p. 412)

O PIANISTA GENIAL

“Quando tocava, o piano deixava de existir enquanto tal: tornava-se uma prótese de madeira de sua mente.” (Alessandro Baricco, escritor italiano, a respeito do pianista canadense Glenn Gould)

O BRASIL

“O Brasil é um andar de cima realizado e um andar de baixo esquecido.” (Antonio Cândido, crítico literário brasileiro)

A SALVAÇÃO DO RICO

“É mais fácil um camelo passar pelo furo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.” (Jesus Cristo; Mateus 19:24)

AS RELAÇÕES HUMANAS

“As relações entre as pessoas são como dois barcos jogados um contra o outro em mares tempestuosos. A violência do choque é muito maior que a potência dos motores.” (Bernard-Marie Koltès, dramaturgo francês, 1948-1989)

AMIZADE COM SEXO

“O estudo sugere que essas amizades físicas freqüentemente entopem uma das artérias emocionais da verdadeira amizade, a franqueza. Amigos que antes podiam falar de tudo passam a ter um tópico que é um tabu não declarado — o próprio relacionamento. Em toda conversa, há a sugestão; um elefante na sala.” (Benedict Carey, em reportagem no New York Times)

A INQUIETUDE

“Pensamentos giram em cambalhotas em nossas mentes sem nenhuma ordem particular, como roupas passando a girar na vidraça de uma máquina de lavar, enquanto nos perguntamos quanto tempo essa tarefa levará para estar acabada.” (Joan Gould, no livro Fiando Palha, Tecendo Ouro, Ed. Rocco, p. 113)

O GÊNIO

“Leonardo da Vinci foi como um homem que acordou cedo demais na escuridão, enquanto os outros continuavam a dormir.” (Sigmund Freud, criador da psicanálise)

A DEPRESSÃO

“A depressão é um resfriado da alma” (dito japonês)

 CARROS MENOS POLUENTES

“Achar que a indústria automobilística vá se adequar rapidamente às mudanças necessárias é tão fora de propósito quanto achar que um tigre passará a ser vegetariano para agradar aos visitantes do zoológico.” (Laura Tetti, coordenadora do primeiro programa para se retirar automóveis das ruas de São Paulo, a Operação Alerta, de 1988)

O ASCETA AUTÔNOMO

“Sou um monge sem mosteiro. Gosto de trafegar pelas mais diversas crenças e sistemas de pensamento, mas sem pertencer a congregações. Isto me causa o mesmo desconforto de caminhar com sapato apertado. Prefiro seguir em frente com minhas próprias sandálias.” (Liang Tzu)

SAÍDA DE PASSAGEIROS

“Quando o trem parou na Bahnhof, em Munique, os passageiros saíram como que de um embrulho rasgado.” (Markus Zusak, em A menina que roubava livros, p. 27)”

(Metáforas selecionadas e editadas pelo escritor Renato Modernell, autor de “Sonata da Última Cidade“). Para ilustrar, trabalho de Nobuyoshi Araki.

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