"A vida é breve, a D.R. é longa"
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"A vida é breve, a D.R. é longa"

Ricardo Lombardi

25 de março de 2009 | 06h07

Circular: “‘Aí naquele maior barraco, ele, rapaz acadêmico, vem com uma citação de Deleuze (o Gilles, filósofo francês) pra cima de mim, vê se pode uma coisa dessas?!!’

Pior é que pode.

Sim, como o desabafo da amiga N. não nos deixa mentir, intelectual (ou metido a) bota Deleuze & Sartre até no meio de uma D.R., a sigla como é conhecida hoje a mitológica ‘Discussão de Relação’, mesmo a mais breve.

Embora seja escritora de mancheia e conhecedora do mundo afrancesado, N. não se conteve diante do mancebo-dos-rizomas. Deu download na brava cabocla Iracema que mora na sua alma cearense e sapecou: ‘Diabeisso?!’, corruptela alencarina de ‘que diabo é isso?!’

Ela não concebia que naquelas cinzas das horas, a casa caindo, alguma criatura esquecesse de mirar o próprio teto e convocasse Deleuze para resolver o drama de alcova. Como se a vida a dois fosse uma tese, como se desconsiderasse o conhecimento do belo inferno dos lares.

D.R. com intelectual ou artista envolvido é assim mesmo. Não tem jeito. D’onde classificamos alguns embates com os seus respectivos padrinhos, além do Deleuze já citado da cumeeira deste texto:

D.R. Kurosawa

Outra noite adiei a saideira por horas, reparando num embate de casal que imitava a arte deste cineasta. Uma discussão lenta, imagens lindas, arrozais sob montanhas, silêncios que falam coisas, uma peleja quase em ideogramas.

D.R. MPB

Indecifrável e incompreensível como o ‘zum de besouro ímã’ do verso do Djavan. Muita onomatopéia e nem uma idéia os males da D.R. são.

D.R. Erística

Como na corrente homônima herdada dos gregos, a arte de triunfar no barraco oral mesmo sem ter razão.

D.R. Punk Rock

Três acordes e vai cada um pro seu lado, dormir na casa da mãe, de um (a) amigo (a), hotel, flat, amante, homeless…

D.R. Paulo Coelho

Depois de ’11 minutos’ de sexo, o barraco sempre começa com uma parábola bíblica ou uma lenda árabe.

D.R. Bartleby

‘Prefiro não discutir’, diz uma das partes, repetindo o mantra do escriturário do livro homônimo de Melville.

D.R. Free-Style

É a discussão rimada, estilo rap, passionais MC’s: ‘Assim você me afunda/ com esse pé-na-bunda/ com essa insensatez…/ meu barquinho já naufraga/ bossa nova é uma praga/ veja só o que a vida fez!’.

D.R. Brechtiana

A arte de enfrentar o público, seja num botequim, seja numa festa, com o distanciamento do personagem, como se dissessem do palco, a cada golpe, ‘não é nada disso que vocês estão pensando, controlem-se’.

D.R. Abaporu ou D.R. Arte Moderna

Típica discussão sem pé nem cabeça, que para nenhum dos dois interessa.

D.R. Metalingüística

A D.R. da D.R., tipo roteiro de Kaufman (Adaptação, o filme), exercício das cabeças requentadas ou das mentes ressentidas.

P.S. da D.R. ou Existencialismo de Cabeceira

Melhor uma D.R. com Gisele Bündchen ou um sexo com Simone de Beauvoir?”

(Texto de autoria de Xico Sá, direto do meu baú, publicado na Bravo em 2005. Foto achada aqui).

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