"A orientação que damos é quase sempre a mesma: aguardar."
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"A orientação que damos é quase sempre a mesma: aguardar."

Ricardo Lombardi

18 de maio de 2009 | 06h14

Circular: “SEGUNDA-FEIRA, 23 DE MARÇO_Dia tranquilo no trabalho. O sistema caiu umas três vezes e ficou inoperante umas duas horas. Nestes casos, a gente só atende a ligação, informa que não vai poder fazer o atendimento e volta a assistir tevê, comer, conversar, ler. O sistema cai quase todos os dias, mas geralmente fica apenas segundos fora do ar. Atendo em média umas trinta ligações por dia. Quando chove, a média sobe para cinquenta a sessenta ligações. Aliás, quando chove em São Paulo é o caos. Muitos bairros ficam sem imagem e é aquela enxurrada de reclamações. A orientação que damos é quase sempre a mesma: aguardar.

Hoje atendi um senhor chamado Geraldo, simpaticíssimo; pessoas idosas costumam ser mais educadas e pacientes. Ele não conseguia ter acesso ao canal erótico que contratou. Fiz reset de sua senha, não adiantou e por isso o encaminhei ao pessoal da área técnica, que é quem pode solucionar esses casos. Gente idosa gosta de contar a vida. Fica triste quando a tevê pifa, mas acho que eles ligam mais para poder falar com alguém. Eu ouço até o fim, dou risada alto, não tô nem aí. Tem cliente que não dá vontade nem de desligar o telefone, tão bonita a voz e imensa a simpatia. Tem cliente que também canta as atendentes, mas geralmente é de uma maneira leve: elogia a voz, diz que nunca foi tão bem atendido antes, chama de amor, de querida.

Às vezes eu fico curiosa: como será essa pessoa do outro lado? Construo em pensamento um perfil físico, pessoal, baseado no tom de voz do cliente. Também olho no cadastro o nome, data de nascimento, onde mora… e essas informações vão se somando. Vai ver que algumas vezes consegui chegar perto do real. Tem atendimento que fica na nossa memória e a gente nunca mais esquece.

Quando o cliente liga pra contratar um canal erótico , ele evita ao máximo falar o nome do canal. Refere-se apenas ao número. “Aquele 193, quanto é que é?”, pergunta. Faço questão de responder citando o nome do canal por extenso, incluindo os destaques da programação. As perguntas mais frequentes são: “Tem senha? Na conta vem o nome do canal? Toda vez que eu for assistir vai pedir a senha?””

(Trecho de “Ter 18 anos na cidade grande“, reportagem de Barbara Pina, na Piauí, sobre a rotina de uma jovem paulistana que trabalha em call center de tv por assinatura). 

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