"A lição dos abacates"
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"A lição dos abacates"

Ricardo Lombardi

09 de dezembro de 2008 | 06h03

Circular: “(…) A função essencial de qualquer jornalismo cultural é simples: é estabelecer padrões. O nível desses padrões, no entanto, me parece essencial – não se trata, como já se notou, de distinguir o que é bom do que é ruim, mas o que é bom do que é excelente. Não estamos mais acostumados ao melhor – estamos acostumados ao moderno, o elegante, ou o fotogênico. Desaprendemos a distinguir o que é marketing do que é real; o que é truque do que é visceral; o que é um estrondo artificial do que é um murmúrio decisivo. Nossa cultura crítica não parece equipada com músculos, mas com gravatas-borboleta. Há substituições melhores.

Além disso, quem trate de cultura talvez devesse ter, por obrigação moral básica, o compromisso tácito de saber escrever. O primeiro problema é que ninguém pode saber escrever se não souber pensar. O segundo é que é sempre bom não confiar demasiadamente nas facilidades de um estilo que, mesmo fluente, nunca deve ser imediato. O terceiro problema é que somos condescendentes demais com nossas próprias emoções para avaliar, com qualquer intensidade, seja o que for. Na maior parte dos casos, ou parecemos donzelas suscetíveis ou analistas de mercado frustrados. Não sei o que é pior.

Se há solução, não é – garanto – problema meu. Nada me é mais indiferente que sugerir qualquer caminho para qualquer tipo de análise – mesmo que fosse, naturalmente, de minha competência. O jornalismo cultural brasileiro que amadureça, como certas frutas. Não deve ser difícil – qualquer abacate é capaz de amadurecer. Abacates não são notados, particularmente, por sua vaidade, sua displicência com o estilo ou sua ostensiva ignorância. Imitemos os abacates. (…)” (Sérgio Augusto de Andrade em “A lição dos abacates”.)

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