"Uma lista de coisas que nunca me pareceram fazer sentido algum numa discussão"
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"Uma lista de coisas que nunca me pareceram fazer sentido algum numa discussão"

Ricardo Lombardi

19 de novembro de 2009 | 06h20

typewriter640328889_1c5fcc9772_oDo meu baú de guardados, resgatei um texto do Alexandre Soares Silva que “vale a pena ver de novo”. Segue.

Polêmicas

“A Internet é o fim da profissão de jornalista. Ou pelo menos da dignidade dela. O mais digno, barrigudo e pomposo jornalista corre o risco de ser xingado por um molequinho em Mogi das Cruzes. Ou de ser contestado num detalhe qualquer por um sujeito vagamente desequilibrado que mora entre pilhas de jornais velhos no Baixo Leblon. Não importa se o texto estava liricamente, solenemente, melancolicamente, maravilhosamente escrito. O sujeito do Baixo Leblon coloca logo abaixo do texto: “Adolpho Bloch nunca disse isso, e posso provar” – seguido de nove parágrafos com citações, inclusive, do próprio Adolpho Bloch dizendo que nunca disse isso. Logo abaixo, uma mensagem do molequinho de Mogi das Cruzes: “Hua hua hua hua! O cara mentiu malandro! Se liga mané!!!!!!! Valeeeeeeuuuuuuu!!!!”

Assim não há dignidade que resista. Mas pior que isso é que não há texto que resista. Cartas furiosas de leitores furiosos, cartas chatas de leitores chatos – essas coisas sempre existiram. Mas agora a fúria e a chatice ficam logo ali abaixo do texto, estragando todo o efeito da coisa. Piadas do jornalista são estragadas por piadas piores dos leitores. A ironia sutil do texto é estragada com a palavra “engraçadinho”; o lirismo de uma passagem é estragado com a palavra “viado”; a melancolia cuidadosamente planejada dos parágrafos é estragada com as palavras “auto-piedade”, “coitadinho” e “snif-snif”. Um golpe duro, um golpe duro…

Com o propósito de salvar a profissão de jornalista, proponho, portanto, a obediência a certas regras de polêmica. Não porque eu queira poupar o jornalista digno e pomposo do primeiro parágrafo – quem se importa com ele? Não, não. Minha preocupação é que, nesse sistema de comentários seguido por um bom número de jornais online, mesmo o maior dos jornalistas, o mais inteligente e engraçado e espirituoso, não sobreviveria. Leitores exigiriam que ele dissesse em que fatos (com datas, se possível) ele baseou determinado witticism. Estragariam o efeito de seus paradoxos ao notarem truculentamente que eles envolvem uma certa contradição. E – horror dos horrores – pediriam que ele “definisse os seus termos”! Há certos golpes baixos na polêmica que simplesmente não podem ser tolerados.

Eis aqui uma pequena, provisória lista de coisas que nunca me pareceram fazer sentido algum numa discussão:

1) O golpe do “Não Generalize”- Uma das coisas que as pessoas deveriam ter em mente, quando debatem com um jornalista polêmico, é que ele sabe que existem exceções. Acredite, ele sabe. Não fique apontando o óbvio para ele, que é muito rude. Não fique dizendo: “Nem todo tenista é burro”. Ele sabe. Talvez até conheça dois ou três que não são burros. A questão é que é muito menos chato escrever “todos os tenistas são burros” do que escrever “há um grande número de atletas profissionais (não só tenistas, é claro) que não são assim, digamos, muito inteligentes. Mas faço questão de frisar que há exceções”. Portanto, regra número um: generalizar é divertido. Deixe o generalizador em paz. Ele sempre sabe que há exceções.

2) O golpe do “Não queira comparar” – Ah, esse é velho, e muito popular. Não se pode fazer comparação alguma sem que alguém diga: “Você está querendo comparar Jesus Cristo com Agnaldo Timóteo? Trotsky com Sharon Stone? Eliot com Cacaso?” Meu Deus, e daí? Sim, estou comparando. Comparações só podem ser feitas entre coisas diferentes. Exatamente para ver a diferença. Você compara uma melancia com a lua e conclui que uma é um bocado maior do que a outra. Mas você não compara uma melancia com precisamente a mesma melancia. É preciso ao menos que seja outra melancia, o que significa uma melancia diferente. É para isso mesmo que comparações servem! “Não que eu queira me comparar com Van Gogh, mas…” Mas o quê? Se compare, idiota!

3) O golpe do Ataque Ad Hominem – O bom e velho xingamento gratuito. Nem é preciso explicar porquê isso não deveria ser feito. O texto é sobre matemática, digamos – e o leitor desqualifica o autor porque, segundo fontes confiáveis, “ele é corcunda”. Que feio, que feio. Esse tipo de recurso só é válido, é claro, se o xingamento for ao menos engraçado – alguma piadinha sobre corcundas e áreas cônicas, ou algo assim. Mas essa piada tem que ser um pouco elaborada. Um xingamento puro e simples, ou um xingamento com sarcasmo puro e simples, mas sem um toque de ironia, é um comportamento digno de labregos.

4) O golpe do “Explique-se Melhor”- Também conhecido como o golpe do “Hein?”, ou “Não entendi”, ou “Fale Sério”, ou “Baseado em Quê Você Diz Isso?”. Não há piada ou frase de espírito ou boutade ou witticism que resista a isso. É como aquele sujeito que pede para que lhe expliquem a piada. Por favor, não peça ao autor da frase espirituosa que justifique sua afirmação em 500 palavras ou menos, usando trechos de jornais de época e bibliografia selecionada. Esse é um dos golpes mais hediondos do manual.

5) O golpe do “Debate”- Ah, a mania do “debate”. Não basta a alguém escrever um texto brilhante – na Internet, ele tem que “debater” cada ponto de vista, sob o risco de ser considerado um idiota que não sabe o que diz. Não basta que o regime de governo seja democrático; é preciso que os sites sejam democráticos, com textos democráticos e comentários democráticos, em que leitores democráticos interpelam democraticamente as boutades do escritor democrático até levá-lo a um democrático suicídio. É como se Ibsen tivesse escrito as suas peças apenas para “debater” com qualquer badameco que se sentasse na sua mesa de café em Cristiânia. Ou Oscar Wilde tendo que “debater” seus ensaios com um estudante de sociologia de Goiás. “Não fuja, não fuja! Você não terminou de explicar como fica aquela sua frase sobre a classe média à luz dos conceitos de Durkheim!” (…)”.

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