"A empresa é a última fortaleza"
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"A empresa é a última fortaleza"

Ricardo Lombardi

20 de fevereiro de 2009 | 06h11

Circular: “(…) o que faz a arquitetura? Ela fixa itinerários predispostos. Esses itinerários podem ser rígidos como uma estrada ou flexíveis como uma série de atalhos, como, por exemplo, em Veneza ou Nápoles. E é claro que uma primeira parte das modificações dos locais de trabalho foi o espaço aberto. O edifício de Niemeyer para a Mondadori [editora italiana fundada em 1907], em Milão, um edifício maravilhoso, é todo em espaço aberto, no qual não há paredes, mas há lugares fixos. Portanto, ainda existiu um elo com a visão de empresa, de linha de montagem. Pois devemos considerar que a linha de montagem acabou influenciando, em nível quase psicanalítico, a organização do trabalho. E, da fábrica, ela passou para os escritórios. Por isso, os escritórios burocráticos são organizados como linhas de montagem. Para começar, uma primeira etapa é, obviamente, abolir os escritórios fechados e os lugares demarcados. Mas a segunda… o muro que cerca a empresa. Hoje a empresa é a última fortaleza, o último castelo que sobrou. Ao entrarmos numa empresa damos os documentos, recebemos o crachá, como numa grande prisão. Agora, enquanto o visitante tem de entregar o crachá, porque só pode entrar com autorização, milhares de informações entram e saem sem nenhum documento [mexe as mãos de um lado para o outro], por telefone, fax e correio eletrônico. Uma desestruturação total do trabalho é o próximo passo.

Pois o trabalho intelectual, o trabalho já realizado por 60% ou 70% da população ativa, por ser mental, pode ser feito em qualquer lugar, em qualquer lugar onde a informação possa nos alcançar. Em qualquer lugar, onde possamos contatar os outros através de telefone, fax e internet. Por isso, o local e o tempo do trabalho não têm mais sentido. Toda aquela massa enorme de aparatos burocráticos que as firmas e os ministérios usam para controlar horários de entrada e saída dos trabalhadores são completamente inúteis. Eles podem ficar em casa, sempre que lá pudessem fazer determinado trabalho. Poderiam ir ao escritório só se necessário para uma reunião ou para lidar com algo que não possa ser deslocado para casa. Isto é necessário. Ontem, no Rio [Rio de Janeiro], passei praticamente o dia tendo de me deslocar dentro da cidade, não menos de 4 horas no carro. Imaginemos que isso leve, em média, duas horas. E imaginemos que, no Brasil, 20 milhões de pessoas passem todo dia duas horas no carro. São 40 milhões de horas ao dia praticamente desperdiçadas. E é o sacrifício pago por uma cidade organizada pelo critério de linha de montagem. Como se ainda todo o trabalho fosse feito em um alto-forno e fosse necessário sair de casa e ir ao escritório. Então, o senhor fez muito bem desestruturando tudo aquilo. Os arquitetos têm de fazer o mesmo, assim como os dirigentes e os chefes de pessoal. Hoje tem-se ainda uma visão, eu diria, clintoniana das relações de trabalho. Ou seja, é preciso ter os dependentes à mão, de forma tangível. Não há nenhuma necessidade disso. Podemos estar juntos quando necessário e dialogar à distância quando necessário (…).”

(Domenico de Masi, em entrevista ao Roda-Viva, 1999). Para ilustrar o post, still de vídeo de Melanie Smith.

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