A vida de um homem
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A vida de um homem

Ricardo Lombardi

10 de novembro de 2008 | 05h43

Circular: “A vida de um homem é uma carta escrita na água de um rio e destinada ao seu próprio autor. Só ele sabe como foi realmente escrita, quais as palavras empregadas e por que estão ali. Quando cai a sombra, ele perde o direito à soberania, o Eu imortal que reinava até sobre suas derrotas. É como o leão que agoniza por velhice, doença ou ferimento. Enquanto observa seu último sol, percebe, a uma distância prudente, os chacais e as hienas à espera de que sua vida cesse por completo. Pelo ruflar de asas e farfalhar de folhas, pressente os abutres. As forças abandonam seu corpo, fugindo ao cenário lúgubre. Não pode mais emitir nenhum som. Já não consegue manter os olhos bem abertos, mas pode vê-los e ouvir suas vozes mesquinhas, que tantas vezes calara com um rugido. Então se deixa levar por aquele silêncio e por aquela escuridão imensa. E vai embora. Quando eles chegam, o que há ali é a velha carcaça de um animal qualquer.

No tempo em que os deuses andavam na terra, a morte jovem era um sinal de amor. Os escolhidos eram levados ao Olimpo para uma existência entre os divinos. Não importava quem fossem, mas suas virtudes – beleza, coragem, lealdade e generosidade, entre outras – os colocavam acima dos demais humanos. Foram-se os deuses, foram-se suas promessas mitológicas, e ficou apenas a certeza da morte, cavaleiro solitário, sombra persistente que segue o homem em busca de seu destino: ela mesma.

Há quem a veja com a tranqüilidade da inconsciência; existem os que vivem em permanente estado de medo, aterrorizados com sua inevitável aproximação a cada dia que passa; e há os que convivem com ela em estado de desafio, num duelo com o risco, como que viciados na droga excitante que é a própria extinção. Ernest Hemingway (1899-1961) vivia embalado por esse tipo de impulso. (…)” (José Onofre em “À caça do macaco sujo”, texto de 1999).

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