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3 textos de Zé Onofre

Ricardo Lombardi

29 de abril de 2009 | 20h31

Triste notícia: me informam que José Onofre, ex editor do Caderno 2 do Estadão, está em coma profundo há 18 dias, em Porto Alegre. Zé é autor de alguns dos melhores textos do jornalismo cultural brasileiro. Republico abaixo trechos de três deles, que já apareceram aqui neste blog em outros momentos.

 

A vida de um homem é uma carta escrita na água de um rio e destinada ao seu próprio autor. Só ele sabe como foi realmente escrita, quais as palavras empregadas e por que estão ali. Quando cai a sombra, ele perde o direito à soberania, o Eu imortal que reinava até sobre suas derrotas. É como o leão que agoniza por velhice, doença ou ferimento. Enquanto observa seu último sol, percebe, a uma distância prudente, os chacais e as hienas à espera de que sua vida cesse por completo. Pelo ruflar de asas e farfalhar de folhas, pressente os abutres. As forças abandonam seu corpo, fugindo ao cenário lúgubre. Não pode mais emitir nenhum som. Já não consegue manter os olhos bem abertos, mas pode vê-los e ouvir suas vozes mesquinhas, que tantas vezes calara com um rugido. Então se deixa levar por aquele silêncio e por aquela escuridão imensa. E vai embora. Quando eles chegam, o que há ali é a velha carcaça de um animal qualquer.

No tempo em que os deuses andavam na terra, a morte jovem era um sinal de amor. Os escolhidos eram levados ao Olimpo para uma existência entre os divinos. Não importava quem fossem, mas suas virtudes – beleza, coragem, lealdade e generosidade, entre outras – os colocavam acima dos demais humanos. Foram-se os deuses, foram-se suas promessas mitológicas, e ficou apenas a certeza da morte, cavaleiro solitário, sombra persistente que segue o homem em busca de seu destino: ela mesma.

Há quem a veja com a tranqüilidade da inconsciência; existem os que vivem em permanente estado de medo, aterrorizados com sua inevitável aproximação a cada dia que passa; e há os que convivem com ela em estado de desafio, num duelo com o risco, como que viciados na droga excitante que é a própria extinção. Ernest Hemingway (1899-1961) vivia embalado por esse tipo de impulso. (…)” (José Onofre em “À caça do macaco sujo”, texto de 1999).

 

Ele caminhou pelo lado selvagem sem ter lido Nelson Algreen, nem ouvido roqueiros e sua marginalidade de milhões de dólares, e muito menos sabido da existência de poetas beat. Sua marginalidade era de fabricação própria; ele não precisou ler ou ouvir ninguém, exceto o comunicado da polícia de que sua mãe fora assassinada, estrangulada com suas meias. Ele não sabia o que fazer, tinha 10 anos. Poucos anos depois, o pai morreu. Os laços estavam desfeitos, não havia compromissos, estava livre. Ele levou muitos anos para entender que seu sentimento, a partir daí, era o de ter sido abandonado. E tratou de buscar a companhia de outros abandonados como ele. E entrou em todas. Era um sem-teto e vagava por Los Angeles. Não demorou muito para se tornar um alcoólatra, viciado em todas as drogas, assaltante, ladrão e um assíduo freqüentador de prisões, sendo detido mais de trinta vezes. E estava enlouquecendo. Passou mais de dez anos nesse ritmo. Nem ele sabe como deu o fora do jogo e sobreviveu. O fato é que, nos meados dos anos 70, James Ellroy parou com a bebida, com as drogas e as tentativas de ganhar dinheiro fácil. Trabalhou em tudo. E começou a escrever. Em 1979, publicou seu primeiro romance: Browns’s Requiem. Em 1981, foi para Nova York, sempre escrevendo. Publicou mais quatro livros: Clandestine, Blood On The Moon, Because The Night, Suicide Hill. No sétimo, imitação profana de outro criador, ele descansou: Dália Negra foi sucesso de crítica e de público, chamou atenção para seus livros anteriores e ele virou talk of the town. (…)” (José Onofre, em “O marginal engajado”, sobre James Ellroy).

 
Vasto é o mundo do futebol quando a bola rola e entram em ação seus verdadeiros protagonistas, os 22 boleiros. Aí só o que importa é o espetáculo, o jogo, e nele se sucedem o drama e a farsa da ação, os efeitos sublimes, a atenção burocrática, a performance medíocre, em que cada um realiza no campo as metáforas de seu caráter. Esse desafio, em que os protagonistas escrevem sua história de improviso, é, ao mesmo tempo, um espetáculo em si e uma revelação. Porque há o jogo e o olhar sobre o jogo, e esse é um julgamento de características sumárias. Em nenhuma outra atividade humana existe um julgamento tão severo como o que sofre um boleiro a cada jogo. O futebol tem o dom de conduzir o torcedor passa do lúdico ao depósito em segundos, da euforia pela jogada alegre, bem resolvida, à fúria pelo fracasso. São nesses momentos que se forjam os mitos, as carreiras, as grandes histórias (épicas, dramáticas ou engraçadas) que serão repetidas pelos milhares de aedos, em cada esquina, em cada bar, em cada jogo. (…)”. (José Onofre, “Era uma vez o espetáculo”).

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