Tiradentes, ‘O mecanismo’ e as versões da história

Tiradentes, ‘O mecanismo’ e as versões da história

Esquartejado pela monarquia, cultuado pela República, o mito de Tiradentes prova como são conflitantes e provisórias as representações do passado na história e na ficção

Renato Prelorentzou

20 Abril 2018 | 10h55

“Heróis são símbolos poderosos, encarnações de ideias e aspirações, fulcros de identificação coletiva”, diz José Murilo de Carvalho em A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. “Não há regime que não promova o culto de seus heróis e não possua seu panteão cívico”.

Quanto mais frágil o regime, diz Carvalho, maior o “esforço de mitificação de suas figuras políticas”. E, nesse sentido, a Proclamação da República é exemplar.

O 15 de novembro de 1889 foi evento de “pequena densidade histórica”, pouco mais que “uma passeata militar”, sem qualquer participação do povo – o que diz muito sobre as desigualdades dos dias de hoje.

Por isso, nos anos seguintes à Proclamação, militares, positivistas, republicanos e liberais travaram não apenas uma disputa política pelo poder, mas também uma luta simbólica pelos corações e mentes da população.

Nessa “batalha ideológica pela imagem do novo regime”, nenhum dos líderes (Deodoro, Constant, Bocaiúva, Floriano) tinha apelo suficiente para superar as diferenças entre os grupos sociais e unir a república nascente. É aí que Joaquim José da Silva Xavier entra na história.

Condenado pelo crime de lesa-majestade por sua participação na Inconfidência Mineira, enforcado a 21 de abril de 1792, Tiradentes foi ressuscitado um século depois para ser o herói integrador dos primeiros tempos republicanos.

Nas versões de sua morte que começaram a circular então, Tiradentes ressurgiu de túnica branca, barba e cabelos bastos, caminhando para a forca com um crucifixo entre os dedos, beijando as mãos e os pés do próprio carrasco, morrendo nu feito Jesus.

“Isso calava profundamente no sentimento popular, marcado pela religiosidade cristã”, diz Carvalho. Despojado de sua feição de político radical e transformado numa espécie de mártir religioso, Tiradentes virou a figura com que todos podiam se identificar. Deixou de ser homem para se tornar “um Cristo cívico”.

Tiradentes, litografia de Décio Villares, 1890, ano que marca a primeira homenagem ao 21 de abril.

“Joaquim” (2017), filme com direção e roteiro de Marcelo Gomes, segue no rumo contrário a essa idealização. O que vemos é a história de origem do herói, o Joaquim da vida antes de ser o Tiradentes dos livros e monumentos.

Ele é um simples alferes a serviço da Coroa portuguesa. Tem uma mínima noção de como arrancar dentes. Procura ouro e caça contrabandistas pelos caminhos do sertão mineiro. Sonha em subir na carreira para comprar a alforria da africana que é objeto de seu desejo e que, logo nas primeiras cenas, corta à faca seus longos cabelos cheios de piolhos, arrancando-lhe os traços messiânicos perpetuados pela iconografia.

Não é o herói visionário, com ideais de liberdade importadas da França ou dos Estados Unidos. É só alguém que quer um mínimo de dignidade e afeto, um pouco mais de vida, mas que se vê ludibriado por todos aqueles que subornam, corrompem e exploram, que são apadrinhados e têm privilégios num Brasil precário e violentíssimo, governado um regime colonial que explora e exclui o povo – o que diz muito sobre as desigualdades dos dias de hoje.

Na versão de Gomes, a consciência de Tiradentes desperta como reação pessoal a essa sociedade bruta e corrompida, “porque ele se envolve com pessoas que sofrem e resistem ao lado mais cruel do colonialismo: índios, mestiços e africanos”, disse o diretor em uma entrevista.

Júlio Machado e Isabél Zuaa, em ‘Joaquim’, filme de Marcelo Gomes.

É uma versão belíssima, de um naturalismo bruto, extraordinário, que ainda tem uma vantagem: não tenta impor uma versão definitiva dos acontecimentos históricos – tentação que costuma acometer tantas outras produções “baseadas em fatos reais”. Basta ver o exemplo da polêmica “O mecanismo”, série da gigante Netflix sobre a operação Lava-Jato.

Desde que nasceu para a memória nacional, o mito de Tiradentes foi reivindicado pelos mais diversos grupos políticos, do Estado varguista à resistência armada contra a ditadura militar. Foi também representado inúmeras vezes na literatura, no teatro, no cinema. E até hoje é objeto de discussões entre os historiadores.

As narrativas sobre a Lava-jato que hoje nascem e se proliferam nas manchetes e nas redes sociais, com seus heróis e vilões já um tanto mitificados, terão o mesmo destino.

E é ingênuo achar que um dia, quando houver o tal do afastamento crítico, a verdade final virá à tona para apaziguar as diferenças e redimir os injustiçados. Não tem dessa.

A história nunca acalma e raramente faz justiça. É uma constante disputa de versões, com sucessivas apropriações e reinterpretações de mitos que se esquartejam e ressuscitam no imaginário. Não há o que estanque essa sangria.

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