‘The Crown’ e a incrível sobrevivência da monarquia

‘The Crown’ e a incrível sobrevivência da monarquia

Renato Prelorentzou

23 Dezembro 2016 | 14h17

Logo nos primeiros episódios de The Crown, a jovem Elizabeth ouve de sua avó, mãe do rei que acaba de morrer: “Enquanto você chora a morte de seu pai, chore também por outra pessoa: Elizabeth. Ela morreu para dar vida à Rainha Elizabeth II. As duas entrarão em conflito. Mas a Coroa deve vencer. Sempre”.

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Claire Foy como Elizabeth II na cena de sua coroação em ‘The Crown’

Não é spoiler porque todo mundo sabe que Elizabeth se tornou rainha da Inglaterra. O que nem todo mundo sabe é que, em 1953, enquanto ela subia ao trono, o historiador alemão Ernst Kantorowicz trabalhava no livro Os dois corpos do rei, no qual explica uma curiosa doutrina jurídica da Idade Média. Para os juristas medievais, diz ele, os reis possuíam dois corpos: um corpo físico, natural, falível e imperfeito, como qualquer outra pessoa, e um corpo místico, imortal, infalível e perfeito, manifestação do poder divino do monarca.

À sua maneira, The Crown atualiza essa ideia da duplicidade dos corpos da realeza. Pois o que vemos na série não é apenas a ascensão da chefe de Estado de uma potência ocidental. É muito mais o retrato – um tanto idealizado – de uma moça de bom coração e fortes valores familiares que talvez só desejasse uma vida simples como mãe e esposa, mas que, por um golpe do destino, virou herdeira do maior império do planeta.

Com esses elementos, os roteiristas souberam fazer da série uma espécie de história de origem da rainha e, na melhor tradição do melodrama, transformaram a antiga cisão entre corpo pessoal e corpo régio numa fábula sobre os conflitos entre a pessoa e sua imagem pública, entre trabalho e família, vontades da vida e obrigações da carreira – algo que fala muito de perto à audiência contemporânea.

Mulher jovem num mundo de homens velhos, rainha poderosa e moça perdida em meio aos protocolos e às regras não ditas do poder, a Elizabeth II de The Crown luta para aceitar seu destino e para esconder sua vulnerabilidade – e até mesmo sua frivolidade – debaixo da simbologia da Coroa. Na sua jornada, sofre para aprender que não pode demonstrar nada além de elegância e perfeição. E, claro, sofre ao perceber que a felicidade do reino depende da felicidade de seu casamento e que as inevitáveis falhas de seu corpo físico seriam vistas como falhas do império.

Elizabeth II foi coroada numa época em que o império britânico já se esfacelava, com a perda de sua primazia econômica e a independência de suas colônias. Sem poder político efetivo, Elizabeth parece ter compreendido que, mais que dar dignidade ao governo e servir de modelo moral para o povo, o papel da Coroa agora era reunir o país em torno de um imaginário.

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A verdadeira Elizabeth II em sua coroação no ano de 1953

Desde que sua coroação foi televisionada para 27 milhões de pessoas, os ingleses se acostumaram a acompanhar a vida da família real como quem assiste a uma novela – uma novela que já dura mais de seis décadas e que agora será contada não só nas manchetes dos tabloides, mas também nos episódios de The Crown. Prevista para durar seis temporadas, a série começou a contar a história da Inglaterra contemporânea através da biografia daquela que – ao lado das estrelas da era de ouro de Hollywood – talvez tenha sido a primeira celebridade mundial. Elizabeth II aparece na tela da Netflix como símbolo de uma nova era, matriarca de uma monarquia que só sobreviveu porque soube se modernizar, se aproximar do imaginário popular com aparições nas telas de TV e nas bancas de jornais.

Nessa história, como em qualquer caso de celebridade, o que queremos é saber dos escândalos, dos segredos impublicáveis. Será que, por trás de toda a riqueza e ostentação, eles são gente como a gente? Qual é o corpo de verdade que se esconde debaixo do corpo da Coroa? Elizabeth II atualizou nosso antigo fascínio pelo poder régio ao convertê-lo no nosso novíssimo fascínio pelas celebridades. Isso talvez explique por que os ingleses aceitam bancar os fabulosos gastos a família real – e por que nós ainda vamos gastar muito tempo assistindo à sua história.

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