Ter amigos ou ter razão?

Ter amigos ou ter razão?

Pesquisadores dizem que, em termos evolutivos, ter amigos é mais importante que ter razão. Qualquer semelhança com o Facebook não é mera coincidência

Renato Prelorentzou

17 Março 2017 | 19h07

Você está conversando com alguém. Aí surge uma discordância qualquer sobre qualquer coisa. Você, é claro, quer provar que seu interlocutor está errado. Mas, mesmo que você apresente evidências irrefutáveis, ele diz que aquilo é só opinião. Mesmo que você mostre toda a lógica do seu argumento, ele nega, esbraveja e sai da conversa ainda mais convencido das próprias crenças.

Se você já passou por isso, certamente ficou se perguntando: por que as pessoas não mudam de opinião nem mesmo quando confrontadas por dados concretos? Por que se recusam a ver os fatos que contradizem aquilo em que elas acreditam?

Desde a eleição de Donald Trump, a imprensa norte-americana está procurando respostas a essas mesmas perguntas. Para explicar todo o radicalismo do cenário político do Estados Unidos — e do Brasil e do mundo — jornais e revistas já falaram um monte sobre o problema das notícias falsas, sobre o conceito de pós-verdade e até sobre o papel das redes sociais nesse rolo todo.

Agora, a The Atlantic e a New Yorker foram buscar explicações na psicologia e na ciência cognitiva — campos do conhecimento que vêm sugerindo que não somos tão racionais quanto imaginávamos.

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Se quisermos acreditar nos pesquisadores consultados por essas revistas, parte da explicação para a polarização e o negacionismo dos dias de hoje pode ser evolutiva. Segundo eles, nossos antepassados sabiam que tinha uma coisa muito mais importante que a sensatez e a aceitação da verdade dos fatos: a sobrevivência.

E sobreviver é viver junto. Você podia ser a pessoa mais sensata e racional da tribo, mas, se ficasse sozinha na savana, ia morrer. Já seu colega podia ser o cara mais paranoico e delirante, mas, se ele conseguisse juntar uma turma que acreditasse nas mesmas coisas, todos viveriam felizes para sempre — e milênios depois montariam uma comunidade no Face para dizer que vacinas fazem mal à saúde. Ou que homossexualidade é doença. Ou que aquecimento global não existe.

Nosso cérebro, dizem os pesquisadores, não evoluiu para solucionar problemas lógicos e abstratos. Mas, sim, para resolver os conflitos que surgem quando se vive em grupo. Porque só conseguiam sobreviver aqueles que tinham com quem cooperar para a caça, a colheita, a proteção, a guerra. E, para cooperar com um grupo, é preciso concordar com seus membros — mesmo que eles não tenham a menor noção da realidade.

Defender essa opinião e não aquela. Ler este jornal e não aquele. Curtir esse post e não o outro, tudo isso é um modo de dizer qual é a sua turma, quem você é, no que você acredita. Opinião é identidade. E identidade é uma forma de política. Daí o cenário atual: se o mais importante é concordar com minha própria turma, não vou perder tempo ouvindo as outras. Muito menos mudar de opinião só porque alguém me provou que estou errado. Só vou xingar mesmo.

Mas, se ninguém vai mudar de ideia por causa de fatos, qual é a solução? Os especialistas dizem que é preciso ensinar o pensamento crítico e combater as crenças fanáticas desde cedo. O Facebook diz estar combatendo as notícias falsas e até pensando em medidas para conter a viralização dos conteúdos.

As soluções, como se vê, são vagas. A reportagem da New Yorker se encerra com um otimismo meio envergonhado, quase indiferente: “Nossa racionalidade vai encontrar uma solução, mas, nesse tema, os estudos não são muito animadores”. A da Atlantic é bem conformista: “As pessoas só mudam de opinião por si mesmas, depois de um processo longo e doloroso de desencantamento”.

Esse tom de desânimo e imobilismo das reportagens talvez ajude a demonstrar por que é tão arriscado querer explicar com argumentos biológicos os fenômenos históricos de uma sociedade pós-industrial hiper-conectada.

As explicações evolutivas podem até fazer sentido e esclarecer uma parte do problema. Mas, se nossas decisões e comportamentos de hoje foram definidos milênios atrás, qual é a nossa responsabilidade? Quando explicamos o histórico pelo biológico, estamos a um passo de pensar: essa é a nossa natureza, não podemos fazer nada, só nos resta nos conformar e continuar achando que o problema são os outros.

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