‘Solaris’: uma ficção científica de ideias

‘Solaris’: uma ficção científica de ideias

Clássico da ficção científica escrito pelo polonês Stanislaw Lem fala dos limites de nosso olhar sobre outros planetas, outros seres, outras inteligências – e sobre nós mesmos

Renato Prelorentzou

31 de agosto de 2018 | 13h06

O psicólogo Kris Kelvin está prestes a aterrissar em Solaris, planeta misterioso que orbita dois sóis e é coberto por um oceano que parece ser vivo, consciente.

Nos cem anos desde sua descoberta, as viagens exploratórias a Solaris viveram tempos áureos. Mas agora a estação espacial que paira sobre seu imenso oceano abriga apenas três pesquisadores.

Kelvin encontra a estação toda suja, em absoluta desordem. Não demora a descobrir que um dos cientistas se matou e que os outros dois estão arredios, como que paranoicos, atormentados por estranhas aparições.

Solaris, de Stanislaw Lem, pela Editora Aleph.

A origem e o significado dessas aparições começam a se desvendar quando Kelvin acorda ao nascer de um dos sóis e vê Harey, uma namorada morta dez anos antes: o oceano parece conhecer as lembranças mais profundas dos cientistas e, de alguma maneira, as projeta na forma de espectros, representações vivas, de carne, osso e sangue, idênticas à memória que cada um deles guarda das pessoas mais marcantes de seu passado – mulheres que amaram, filhos pequenos.

Sem conseguir viver com suas projeções muito menos evitá-las, os cientistas se trancam com elas, não querem que ninguém as veja. Sabem que, mais do que reflexo do amor, elas são a materialização de segredos, culpas e fantasias inconfessáveis. Mas nunca chegam a entender se, ao projetá-las, Solaris quer torturá-los ou lhes oferecer uma chance de reconciliação.

Kelvin se fecha com Harey na biblioteca da estação. É, sobretudo, um leitor, um pesquisador diligente. E, por isso, é também um narrador meticuloso, que descreve em detalhes não só o planeta, o oceano e seus fenômenos, mas também a inesgotável bibliografia da solarística, o campo de estudos dedicado a Solaris.

Nada em Solaris se compara à Terra. Ainda assim, no esforço de entender e explicar o planeta, os solaristas precisaram recorrer a analogias com o que lhes era conhecido. Nisso, acumularam um século de neologismos, metáforas e jogos de palavras, descrições imaginativas, sinuosas, poéticas. O mistério do planeta impôs à linguagem um desafio que Kelvin lê na vasta biblioteca e que nós lemos nas páginas do romance do polonês Stanislaw Lem.

Ele publicou Solaris em 1961. Tinha 40 anos e encarava a ficção científica como uma literatura de ideias, um experimento mental que lhe permitia indagar o humano e seu lugar no universo.

Por isso, falava que quase tudo que os escritores mais populares do gênero produziam era mal escrito e mal pensado, cheio de explosões, batalhas intergalácticas e interesse comercial, mas vazio de ideias e formas literárias.

Essas opiniões lhe renderam críticas e esconjuros, especialmente nos Estados Unidos. Apesar (ou por causa) disso, Lem se tornou um dos grandes nomes da ficção científica.  Bem mais especulativos que aventurescos, seus livros falam pouco de feitos heroicos e muito daquilo os personagens enfrentam na tentativa de prever, compreender e comunicar o que lhes acontece. São histórias – às vezes trágicas, às vezes satíricas – de como tentamos conhecer outros planetas, outros seres, outras inteligências e falhamos.

Kelvin e Harey, na adaptação de Andrei Tarkovski, 1972.

Em Solaris, esse fracasso se manifesta numa espécie de insistência do olhar: olhamos para fora mas só vemos nós mesmos. “Não precisamos de nenhum outro mundo, precisamos de espelhos”, diz um dos cientistas da estação. “Queremos encontrar nossa própria imagem idealizada”.

A Harey que Kelvin vê na estação é ideia sua: “Se ela é maravilhosa”, esse cientista lhe diz, “é porque suas lembranças eram maravilhosas”. Incompleta, parcial, distorcida, será uma representação sempre aquém da Harey real.

Mas até que ponto essa Harey real também não era uma projeção? Kelvin conseguia vê-la de verdade?

Nessa ficção que indaga os sentidos da ciência e do entendimento humano, Lem parece dizer: cobrimos de descrições, projeções, imaginações, metáforas e poesia tudo que vemos e queremos entender. Com isso, projetamos no mundo ao redor nossas vontades e medos. O real, no entanto, resiste: como o oceano vivo de Solaris ou o próprio o amor, guarda algo irredutível à nossa compreensão, nossas palavras.

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