Romance sobre desejo e maternidade reverbera questões espinhosas em ritmo cinematográfico

Romance sobre desejo e maternidade reverbera questões espinhosas em ritmo cinematográfico

Uma conversa com Giovana Madalosso, autora de ‘Suíte Tóquio’, romance sobre o familiar desejo de ter outras vidas

Renato Prelorentzou

15 de setembro de 2020 | 07h42

com Natalia Timerman  

Maju, a babá, perseguindo o sonho da maternidade, tenta fugir com a criança a quem conhece melhor que a própria mãe. Fernanda, a mãe, ocupada demais com o trabalho e a possibilidade de uma paixão, demora a perceber o rapto da filha – e quanto está distante da família, do casamento, de si mesma.

Esta é a trama de Suíte Tóquio, mais recente romance de Giovana Madalosso, publicado pela editora Todavia.  

Nascida em Curitiba no ano de 1975, Giovana é jornalista, redatora, roteirista e também assinou A teta racional, finalista do Prêmio Biblioteca Nacional, e Tudo pode ser roubado (Todavia, 2018), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura.

Na conversa a seguir, ela fala de como chegou a esse enredo vertiginoso e tragicômico, da busca de suas personagens e do que move sua escrita.

Foto de Renato Parada

Entre todas as questões tão espinhosas e tão familiares que perpassam o livro –nossos afetos inconfessáveis, nossos privilégios sociais – qual foi a que disparou a escrita?

Quando minha filha tinha dois anos, achei uma babá por uma agência de empregos. Fiz uma entrevista, chequei a referência, contratei-a. No dia seguinte, saí para uma jornada de trabalho e pensei: acabo de deixar minha filha por dez horas com uma completa desconhecida. A partir daí comecei a pensar no sistema em que vivemos. Poucas creches, cargas horárias absurdas e homens que ajudam muito pouco. Se é difícil para uma mãe de classe média, imagine para as babás, que muitas vezes também são mães, deixando seus filhos com outras pessoas por períodos ainda mais longos. Ninguém pensa muito nisso, mas vivemos em uma sociedade que só se sustenta porque é carregada nas costas, e no colo, por um “exército branco”. Milhões de babás e funcionárias domésticas que, embora tenham um papel tão crucial, marcham por aí invisíveis, muitas vezes privadas de seus direitos mínimos. Suíte Tóquio é como Fernanda chama o quarto de empregada da sua casa depois que faz uma reforma para torná-lo mais atraente para a babá, de forma que ela passe a morar no cubículo. Escolhi o título do livro para cutucar essa ferida escravagista do nosso país e também para representar o epicentro das tensões domésticas, um lugar de onde tanto babá quanto mãe querem escapar.

 

Se nos contos de A teta racional predominavam as agruras dos cuidados com o bebê e a percepção de que ser mãe exige uma renúncia quase total, em Suíte Tóquio o afeto maternal entra em conflito com outros desejos. A questão com a maternidade evolui conforme os filhos crescem?

Venho amadurecendo junto com os meus livros. Com exceção de Tudo pode ser roubado, escrito com base em experiências que tive uma década antes, todas as minhas narrativas caminham ao meu lado, como sombras, projeções, formas de elaborar o que estou vivendo. Da mesma forma que algumas pessoas olham para trás e veem suas vidas marcadas pelas casas em que viveram ou pelas relações que tiveram, tenho a impressão que verei a minha como “a fase desse ou daquele livro”. Agora estou burilando a ideia de um romance narrado por uma mulher entrando na menopausa e, às vezes, já me pego ansiosa, pensando quando vou parar de menstruar para ter logo calorões e escrever melhor a respeito. O que revela, de um lado, um quadro tragicômico de narração compulsiva e, de outro, algo belo sobre o fazer literário: se não posso evitar a dor, pelo menos posso transformá-la em matéria-prima.

Capa de Paula Carvalho e Manuela Eichner

Suíte Tóquio é narrado por duas personagens em tudo diferentes entre si. Como se deu a construção dessas vozes?

Desde que resolvi escrever esse livro, sabia que meu maior desafio seria encontrar uma voz única para cada narradora. Tanto que fiquei meses só desenvolvendo essas vozes. Criei um vocabulário e uma sintaxe para cada uma. A Fernanda, por exemplo, diz trepar. A Maju, fazer amor (parece um detalhe, mas esse tipo de coisa diz muito sobre um personagem ou uma pessoa). Uma delas usa frases mais curtas, outra mais longas, sôfregas, cheias de vírgulas. E, acima de tudo, defini a forma de cada uma ver o mundo, porque é daí que nasce o jeito de falar, naquele sistema de mão dupla em que o sujeito molda a linguagem e a linguagem molda o sujeito. Mas acho que o mais difícil mesmo foi encontrar um senso de humor distintivo. Porque na literatura e na vida é a mesma coisa: narradores com senso de humor são mais carismáticos. E eu não queria abrir mão desse recurso para nenhuma delas. Então tive que dividir até o humor em dois terrenos: para uma, a ironia e o sarcasmo, para outra, a graça que brota da irreverência.

E, para não ficar maluca, preguei todo esse sistema na parede de cortiça do meu escritório, onde costumo espalhar visualmente o livro que estou escrevendo. A parede de cortiça parece algo esquemático, mas, para mim, é o contrário disso. Colocando nela a espinha dorsal do livro, desalojo meu cérebro para trabalhar mais livremente no resto da narrativa. Outra coisa que faço é encher a cortiça de estímulos. Ando por aí juntando tudo o que se relaciona ao romance: passagem de ônibus, fotos de animais, imagens de Nossa Senhora Aparecida, bula de remédio, matérias de jornal, fios de seda, rótulo de bebida, e vou pregando na cortiça. Às vezes fico olhando para essa parede e dela pesco detalhes que enriquecem o texto.

 

Nos seus livros o humor parece se alternar com a reflexão, como se um amparasse a outra, como se o primeiro prevenisse o peso da segunda. Lembra o que dizia Freud: o humor é “das operações psíquicas mais elevadas”, um “dom raro e precioso” pelo qual se pode obter algum prazer mesmo diante da dor.

Não é só nos meus livros, é um mecanismo da minha vida. Talvez seja até uma deficiência, não saber viver sem o escudo do humor. Tem uma frase de um escritor israelense Etgar Keret que traduz bem o que sinto: “o humor é uma luva que usamos para tocar aquilo que não conseguiríamos de uma outra maneira”. O difícil para mim seria escrever sem essa luva.

 

Você mesma viajou para narrar as viagens que as personagens fazem no livro? Como elas transformaram o enredo, as personagens, a autora?

Meus livros sempre me levam para algum lugar. Quando estava escrevendo o Tudo pode ser roubado, fui caminhar de madrugada pelo centro de São Paulo, entrei sozinha num hotel de viração, quase me meti numa encrenca. Para o Suíte Tóquio, viajei de ônibus até uma fazenda de bichos da seda no interior do Paraná e fui até uma reserva indígena no Acre. Em todos os casos, fui procurar uma coisa que não encontrei. E é por isso mesmo que faço essas pesquisas: para não achar o que procuro, para encontrar coisas que nunca me ocorreriam. Na fazenda fui buscar a rotina de quem produz seda, porque foi num lugar desses que cresceu a personagem Maju. Voltei para casa com seis lagartas dentro de uma caixa de sapatos e, para desespero da minha família, criei esses bichos, abrindo no romance um flanco que não havia planejado, sobre animais e sobre o conflito, sobretudo humano, entre o doméstico e o selvagem. No Acre, fui visitar os Yawanawas porque queria conhecer a primeira mulher pajé desse povo, Raimunda Putani, e cruzar a sua trajetória com a da personagem Yara. Só que cheguei na aldeia no meio do festival anual da comunidade, o Mariri, e me deparei com centenas de Yawanawas cantando e dançando em cerimônias e rituais que iam noite adentro. Fascinada, acabei deixando de lado o que tinha ido fazer ali. Só fui entrevistar a pajé no último dia. E tudo bem, porque ao contrário de um biólogo ou de um historiador, boa parte da pesquisa de um escritor se dá pelo inconsciente, na captura aleatória de cheiros, sons, imagens. E é isso o que mais me interessa.

 

Em Suíte Tóquio, parece haver um centro – talvez o próprio quarto que dá nome ao livro – do qual as narradoras querem fugir. Maju se direciona para o Sul, para sua terra de origem. Fernanda, para o Norte, para terras selvagens que até aquele momento não tinham nenhuma relação com sua trajetória. Todo retorno é uma fuga? Toda fuga é uma tentativa de retorno? 

Acho que sim, toda fuga é uma tentativa de retorno. No caso dessas personagens, um retorno ilusório. Podemos voltar às nossas origens, refazer relações, reconstituir tudo à nossa volta mas esse esforço é inócuo. Nunca voltaremos a ser quem fomos.

 

A mãe, com o dinheiro excessivo que ganha no tempo em que a babá cuida de sua filha, adquire e pendura na sala de estar uma obra de arte que representa uma placenta e que, para ela, parece significar não só o natural, o animal, o selvagem, mas também um status e um “investimento”. O que dizer desse contraste entre o visceral e seu entorno, que se esforça por “civilizá-lo”? Essa dualidade ecoaria também no fascínio que Yara exerce sobre Fernanda – cheia até a tampa, como todas nós, de neuras, pavores, preconceitos e ansiedades urbanas?

Um dos temas de Suíte Tóquio é o domesticado e o selvagem, e o fascínio que o segundo exerce sobre nós, que somos tão achatados por uma série de padrões. Fernanda é uma boa representação disso. Uma mulher que parece estar casada por inércia, que provavelmente não teria sido mãe se esse não fosse o papel esperado de uma mulher, que se mata de trabalhar para cometer a transgressão máxima de pendurar na sala uma obra de arte impactante. Como ela mesma diz, “eu já estava pronta para morrer quando Yara apareceu”. E Yara, uma diretora de documentários de mundo animal que vive relações abertas e sequer tem endereço fixo, vem mesmo para se contrapor e despertar a fantasia do selvagem que, como toda fantasia, logo vai se despedaçando.

 

Seu livro vem a público num momento em que você está envolvida com o Inumeráveis e o Fervura, projetos ligados a dois temas graves, urgentes: a pandemia e as mudanças climáticas.

Quando a pandemia começou e passou a ser tratada como uma gripezinha, senti que ficaria louca se não me movesse em alguma direção. Passei a colaborar com o Inumeráveis, um projeto artístico que se propõe a contar a história de cada uma das vítimas de coronavírus no Brasil, de forma que essas mortes não sejam apenas números. Como contar tantas histórias? Esse era um dos nossos desafios. Criei um questionário para as famílias das vítimas e um Manual de Redação de Obituários para os escritores voluntários, um trabalho que me fez confirmar que todo ser humano carrega histórias incríveis, basta você apertar no lugar certo – e querer ouvir – para que apareçam.

Junto com Gabriela Veiga, também comecei a coordenar a escrita dos obituários indígenas, tarefa que abracei para destacar o genocídio que está em curso. São tantos os absurdos no Brasil que ficamos anestesiados. A maioria das pessoas não se abala mais com as mortes por covid ou com as invasões em terras indígenas mas se comove ao ler um epitáfio que diz: Viveu para salvar a língua Kokama. Ou: Guerreira, queria que as meninas da aldeia aprendessem a matar o seu próprio jabuti.

Com o Fervura foi parecido, fui movida por uma angústia. A crise climática é o maior problema da história humana. Mais do que um assunto, o cenário que vai pautar todos os assuntos daqui pra frente. Quando descobri a gravidade desse cenário, fiquei atordoada. Foi um pouco antes de eu ir para a FLIP, em 2019, e lembro de estar lá e pensar: ninguém deveria estar falando de outra coisa. Antes que eu perdesse todos os meus amigos com esse monotema, fui procurar Matthew Shirts, um dos jornalistas que mais entendem de clima no Brasil. E com ele, Caco Galhardo, Alê Meiguins e Simone Az gestamos o Fervura, um movimento de artistas e jornalistas que fala de clima de um jeito pop, com humor e arte. Porque descobrimos que tratar do assunto com dramaticidade afugenta as pessoas – quem vai se engajar numa luta que já parece perdida? Então o que fazemos é criar novas formas para falar disso: tirinhas, poesia, memes, vídeos de humor. E vale muito a pena falar a respeito, porque para resolver a questão climática teremos que resolver distribuição de renda, racismo, formas de consumo, o próprio capitalismo. É a nossa chance de repensar e reformular um sistema que já nasceu doente.

 

Na sua escrita, na sua cabeça, como esses projetos, esses temas se relacionam com seus romances? O que pode a literatura ao narrar essas histórias do nosso presente, do nosso futuro? 

Tanto meus romances quanto meus projetos têm o mesmo eixo: a narração. Mas não apenas isso. Se eu estivesse vivendo em outra época, talvez não estivesse escrevendo sobre os mesmos temas. Só que estou vivendo agora. Além da crise climática, há a ameaça de autoritarismo no Brasil e em vários países, direitos de minorias ameaçados. Na minha literatura, tento contar histórias de mulheres que não costumam ser contadas. No Inumeráveis, narro trajetórias indígenas e não-indígenas que beiram o apagamento. No Fervura, teimo em contar aquilo que os negacionistas querem esconder. O mundo está repleto de histórias que, por diversos motivos, não conseguimos enxergar. O que me estimula é tornar essas histórias visíveis da maneira mais bonita possível.

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