Romance sobre a sobrevivência de uma mulher garante prêmios a escritora estreante

Romance sobre a sobrevivência de uma mulher garante prêmios a escritora estreante

Uma conversa com a autora de ‘Entre as mãos’, romance contemplado pelo Prêmio Sesc de Literatura 2018 e pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA)

Renato Prelorentzou

08 de fevereiro de 2019 | 09h41

Juliana Leite nasceu em Petrópolis no ano de 1983. É formada em Comunicação Social e mestre em Literatura Comparada pela UERJ. Publicou contos em antologias como 14 novos autores brasileiros (Mombak), organizada por Adriana Lisboa, e É tudo mentira – a corrida eleitoral na ficção de 22 escritores, da revista Época.

Em 2018, ela publicou seu primeiro romance, Entre as mãos (editora Record), sobre uma jovem tecelã que, graças ao saber ancestral de seu ofício, sobrevive a um grave acidente – e a outras violências, privações e abandonos. Repleto de realidade e devaneio, brutalidade e delicadeza, o livro foi contemplado na categoria romance pelo Prêmio Sesc de Literatura e pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).

Na conversa abaixo, Juliana fala sobre a ideia que deu forma de seu romance, o ofício de escrever e suas buscas como escritora.

Atravessei o livro levado pela ideia de que, assim como sua protagonista, você também precisou renascer e se reinventar para escrever esse livro, de que “usar as mãos para sobreviver” foi um gesto comum a você e a ela…

O Entre as mãos não é apenas o meu primeiro romance, como é, especialmente, o meu rito de iniciação como escritora. Vejo que ele representa, em muitas camadas, a minha busca por encontrar um certo cosmos de escrita em que eu pudesse transitar, pelo tempo que fosse necessário, como alguém que pela primeira vez busca escrever. Como buscadora eu precisava descobrir como se fazia aquilo, como seria possível me aproximar do ofício. Claro, há um lado técnico no que estou dizendo – e por enquanto me restrinjo a identificar essa técnica como a manifestação da linguagem. Porém, hoje tenho uma consciência um pouco mais lúcida de que esse gesto, ou seja, o de buscar/encontrar a escrita, não se refere a mim como autora (mais iniciante ou menos iniciante), mas sim ao texto em si (ou ao livro, se quisermos vê-lo em sua forma consolidada). Estou dizendo isso para dizer: se o Entre as mãos foi meu rito de iniciação no bailado, pressinto que cada novo projeto será uma nova chance de me aproximar de um corpo que dança. Um outro corpo, uma outra dança. Guardo espaço para esse estado de movimento, de pouca fixidez no que se refere a “ser uma escritora”.

 

Na primeira parte do romance, chamada “Trama”, a escrita é bem econômica, feita de frases curtas, ligadas por fios tênues, como se estivéssemos diante de uma tapeçaria se formando, ainda com muitos espaços vazios. Mas, na segunda parte, “Avesso”, em vez de preencher a trama, você a revira, mostra como ela é feita… 

A linguagem do Entre as mãos tanto diz algo quanto é algo em si mesma, em sua estrutura. Na primeira parte o estado físico da Magdalena, a protagonista, está refletido no texto: dos fragmentos e das vozes dissonantes surge um corpo em recomposição, com um coração arrítmico, um tecido de pele esfolada.

Já a opção por não preencher as lacunas na segunda parte foi estética, claro, pois não me interessava construir um corpo em que uma parte “pacifica” a outra – ou a soluciona, no que se refere aos nós de tensão daquelas vidas. Esse não me parecia o movimento humano viável para uma mulher cujo corpo está brutalmente reconfigurado por um acidente. Primeiro segui um instinto, que logo se transformou num desejo de assegurar estados de imanência no texto: liberação de imagens, mais do que de reflexões sobre isso ou aquilo. Essa decisão está diretamente ligada ao fazer manual, quero dizer, à escolha por pensar a matéria a partir do que está dado (e não a partir de uma elaboração intelectual). Queria que ao longo do livro a experiência de leitura oferecesse faíscas de intensidade ao leitor, uma reunião de sensações afetivas e físicas disparadas pelas palavras (pela economia delas, pelo que sugerem por presença ou ausência).

Mas também gosto de perceber no corpo do romance (em sua forma final) a manifestação física da minha ancestralidade. Sou descendente de uma enorme linhagem de trabalhadores manuais, gerações e gerações de uma sabedoria que, acredito, me marca em um nível constitutivo, ultra-celular. Testemunhei durante a minha infância e adolescência a minha mãe, costureira, em seu trabalho diário estudando a direção das fibras dos tecidos (um jogo pelo caimento das roupas), assim como se dedicando ao avesso perfeito das costuras (um jogo pelo acabamento das roupas). Ver minha mãe virando as peças do avesso, um gesto importante e contínuo do seu ofício, formou também meu olhar para o mundo, para as relações. Da mesma forma, meu pai, ferramenteiro, sempre muito interessado em se dedicar à descoberta dos objetos por meio de suas partes (como elas se juntam, como são dependentes umas das outras) me contagiou com essa curiosidade pelas coisas – os pequenos mistérios escondidos nos artefatos. Creio, com toda a minha verdade, que vem desse acervo subjetivo uma parte importante do meu modo de estar no mundo.

Já na terceira parte, “Linhas soltas”, os fios narrativos aparecem como que desenredados, como se os estivéssemos vendo antes de a trama ser feita ou depois de desfeitaNessa hora parece acontecer uma revelação sobre a escrita, a origem e a mão de quem trama o livro. Ver a ficção como uma artesania é, humildemente, reconhecer que a obra leva as marcas não só das suas mãos, mas das mãos daquelas que lhe ensinaram o ofício?

Tanto a obra leva as marcas, como também a vida em si. Todos os gestos contidos num gesto, todos os corpos contidos num corpo. É algo sobre o que reflito, pois para a compreensão do que é a ancestralidade não importaria tanto a cronologia da sua vida (esta sua presente vida), já que no seu corpo e naquilo que os seus gestos revelam estão presentes saberes subjetivos que te ultrapassam em muito. Entrar em contato com esses saberes é um movimento, a um só tempo, de humildade e transcendência.

Gosto de elaborar isso por meio de uma imagem: na linguagem da umbanda, o médium (aquele que torna possível a comunicação de algo transcendente) é chamado de cavalo. O cavalo empresta sua materialidade, seu movimento, a algo que se apresenta. Penso o ofício da escrita em paralelo ao ofício do cavalo, no sentido de que é possível que a escrita de ficção também demande, a seu modo, vestir a sela e se abrir para um movimento que ultrapassa em vários aspectos as circunstâncias imediatas de quem escreve. Para conseguir se apresentar a essa função, para servir ao trabalho, bom cavalo é humilde e mira o infinito. E tem mais um aspecto (bom alardear): apesar do desejo de transcendência de todo cavalo, não há labor que não demande musculatura, resistência, capacidade de servidão, assim como liberdade, rebeldia, insurgência. É de corpo que se faz outro corpo – e escrever é pura labuta.

 

O livro está repleto de gestos mínimos que são de uma imensa gentileza e generosidade – algo que talvez só pudesse vir de uma literatura pensada como artesania. As personagens parecem sempre preocupadas em saber e fazer o que os outros gostam, o que preferem, o que os pode agradar e salvar… Se o livro todo é uma indagação sobre como sobreviver à tragédia, você parece sugerir que a resposta passa por aí. Essa atenção, essa gentileza, essa presença atenta é o que nos resta de esperança?

Acho que isso se refere a uma imensa fé no cotidiano, nesse nosso pequeno heroísmo:  levantar da cama todos os dias mesmo na presença da tragédia (e aqui escrevo tragédia no sentido essencial, de tudo aquilo que não pode ser mudado). No livro não há distinção entre o cuidado do outro e o cuidado de si (entre escrever o outro e escrever a si) e, portanto, também fica sugerida uma teia que nos une e nos torna seres interdependentes, contidos na troca: no estar entre, e não no ensimesmamento. Para a protagonista, a cura é um processo de convocação das vozes internas e externas. Há uma escuta ampliada que é muito cara para o cosmos do livro – assim como há uma aposta intensa nos “fazeres cotidianos” como fonte de identidade, de simbologia. É por meio desses fazeres que fica revelada a coreografia humana das personagens. Por isso as perguntas que o livro se faz circundam mais o como, do que o o quê: como alguém chora?, como sente um corte na pele?, como abre a porta do armário onde está guardado o vestido de festa? (sendo o choro, o corte e o vestido não fatos dados, mas sim circunstâncias que atravessam um corpo).

Apesar de ser um livro essencialmente realista, no Entre as mãos isso se dá de maneira inseparável do devaneio (no eco, no simbólico). Porque sempre haverá, percebe?, algo da vida pequena, rotineira, que intensifica radicalmente nossa experiência de humanidade, bastando estarmos atentos para perceber: como quando viramos o corpo na cama durante uma madrugada quente e, num delírio celular, a pele encontra o prazer de um canto fresco de lençol. Essa humanidade me interessa muitíssimo.

 

Seu livro dá um laço bem bonito entre passado e futuro, quando você faz uma personagem continuar a trama da outra, quando você, já nos “Agradecimentos”, reverencia sua ancestralidade. Está aí o sentido da ancestralidade: ensinar a sobreviver? 

Para mim, venerar a ancestralidade é driblar a morte, a nossa e a de nossos mortos também. Lembrar, memorar, narrar: dobras para manter-se vivo.

Sobreviver, portanto, conforme proposto pelo Entre as mãos vai muito além da sobrevivência física (apesar do acidente, apesar do corpo intensamente ferido). A sobrevivência simbólica dessa mulher que se ergue (que não morre) graças à maneira peculiar com que convoca sua ancestralidade era para mim, ao longo de todo o processo de escrita, o espectro a ser seguido. Você menciona o “sentido da ancestralidade” (e talvez a gente possa pensar junto o “sentido da literatura”): sinto que nenhuma delas precisaria se referir a um sentido racional-pacificador da vida (razão de ser), mas sim a alguns sentidos direcionais (rotas, caminhos). Assim, livros também se tornam seres ancestrais, guardadores de caminhos: podemos coincidir neles, por semelhança ou diferença. Fato é que, lendo, seguimos vivos. Trabalhando, seguimos vivos. Por isso, no caso de Magdalena e de suas tias, trabalhar com as mãos está longe de ser um ofício romântico ou recreativo. O bordado, a tapeçaria e a costura são ferramentas de vida para essas mulheres, tanto pelo sustento financeiro, quanto pela atividade que as mantêm intensamente presentes em algo (pulsantes de vida). O trabalho é a cura. Escrever é a cura – não pelo texto em si, mas pelo espaço que se ergue entre o texto e nós: entre-caminhos, cruzamento.

 

Há uma pergunta que sempre aparece nas suas entrevistas e nas entrevistas de todas as escritoras, especialmente as mais jovens: é sobre o feminino, o feminismo, o lugar de fala, o protagonismo das mulheres e as mulheres protagonistas. Existe uma forma literária que seja própria das mulheres? Uma literatura que seja feminina? Feminista? Dá para pensar nisso na hora de escrever? Dá para não pensar nisso? 

Tenho sentimentos contraditórios com essas questões. Se por um lado é evidente que a circunstância de vida de todo sujeito pode afetar o produto de seu trabalho (e aqui não estou me referindo apenas a gênero), por outro lado restringir-se apenas às circunstâncias é, em nosso tempo histórico, necessariamente reforçar desigualdades. Se vivêssemos em uma sociedade igualitária em direitos e trânsitos, aquilo que nos distingue como artistas emergiria sempre como valor estético. No entanto, em 2019, apontar uma “forma artística própria da mulher” ainda implica, via de regra, retirar essa “forma” (e essa artista) de uma discussão estética, para inseri-la em uma agenda de gênero. É uma redução imediata, que atinge todos os âmbitos de recepção daquela matéria: aplica-se uma lente apartadora, perigosamente distanciada da discussão artística (ao invés de linguagem, forma, projeto e pesquisa, discutem-se temáticas e pautas). Além de ser cansativo para nós mulheres, é pouco diverso em termos de acervo, de corpus, de olhar (para a arte como manifestação humana).

No entanto, com tudo isso considerado, acredito que tanto eu quanto minhas colegas artistas (mulheres com experiências múltiplas de ser mulher) não estamos interessadas em abrir mão de nossas subjetividades, das vivências específicas que nos fazem pousar de determinada maneira neste mundo. Ir em busca das implicações artísticas disso em nossos projetos é algo que cabe a cada uma decidir. Somos mulheres escrevendo seus próprios interesses, e todos eles se inscrevem no mundo à sua maneira, em singularidade e complexidade.

 

E seu segundo romance? Já se sente à vontade para falar sobre ele? É também sobre sobrevivência?

Estamos convivendo há alguns meses, eu e ele. Gosto muito de conversar sobre o que estou escrevendo, é uma oportunidade de elaborar as ideias em uma dimensão expandida, sempre tiro percepções e dobras interessantes.

Em termos temáticos, acho que é possível dizer que a sobrevivência está presente (se for nosso desejo extrair um sumo em comum com o Entre as mãos). Mas, é um livro essencialmente e constitutivamente muito diferente do meu primeiro romance. Continuo me interessando pela sonoridade do texto e pela forma, mas em direções bastante distintas dessa vez. Aprendi que escrever um romance é também abrir espaço para conviver por um longo tempo com um organismo que vai se apresentando conforme se escreve. Estou gostando de conviver com esse novo organismo que, entre outros assuntos, trata do tema do desejo a partir dos olhos de uma mulher. Se no Entre as mãos o corpo da mulher é um corpo acidentado, sincopado, neste novo livro o corpo existente está íntegro e ciente de seus desejos. Ainda estou descobrindo, no entanto, como isso vai se manifestar em complexidade na roda do bailado.

 

Para terminar, inevitável falar sobre os prêmios que você recebeu, especialmente o Sesc, que chegou à sua 15ª edição e propiciou a publicação do seu romance…

Imagina o tamanho da alegria! Está sendo uma experiência incrível porque o Prêmio Sesc é voltado para escritores inéditos, e no caso do Prêmio APCA parece que foi a primeira vez que um escritor estreante foi contemplado. É entusiasmante ver o livro percorrendo seu caminho, indivíduo solto do mundo.

E o prêmio SESC é um empreendimento admirável tanto por sua longevidade, quanto pela coragem de apostar somente em escritoras e escritores inéditos. Isso não é pouca coisa. Muito além da chance de ter seu livro editado e publicado por uma editora renomada, o prêmio ainda proporciona aos vencedores a inestimável oportunidade de rodar o país encontrando leitores em dezenas de cidades. Os autores saem desse ano de viagens com uma nova cartografia de Brasil nas mãos e, certamente, com a certeza redobrada de que a literatura é uma arte de encontros.

Prêmios são legitimadores importantíssimos do nosso trabalho e ainda têm o papel simbólico fundamental de reconhecer a arte como um ofício (ofício que, aliás, precede em muito o momento da premiação em si). Em tempos de demérito da cultura e da produção artística temos que dar todo o nosso apoio às instituições que, cada uma a seu modo, impulsionam artistas brasileiros.

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