Quantas vezes você ganhou na loteria?

Quantas vezes você ganhou na loteria?

Renato Prelorentzou

17 de fevereiro de 2017 | 19h13

É claro que não me lembro das palavras exatas. Era uma festa de família ou só mais uma tarde no sítio de nossa infância. Alguém devia comentar a última Mega-sena acumulada pois meu pai então disse: “Olha só esses meninos. Nenhum acidente sério. Nenhuma doença grave. A gente já ganhou na loteria umas trezentas vezes”. Hoje gosto de pensar que me lembrei dessa história quando, muitos anos depois, me aconteceu de ler um conto de Jorge Luis Borges.

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O escritor argentino Jorge Luis Borges e a capa de “Ficções”, seu mais célebre livro, onde se encontra o conto “A loteria em Babilônia”.

Como em muitos países, escreve Borges, na Babilônia a loteria começou como um jogo banal. Os mercadores vendiam pedaços de pergaminho adornados com símbolos numéricos. Fazia-se, em pleno dia, um sorteio. Os contemplados recebiam moedas de prata. Nada mais.

Com o tempo, o povo babilônico ficou indiferente, pois tais loterias não solicitavam às pessoas nada mais que uns trocados e sua esperança. Vendo a ruína do negócio, os mercadores elaboraram uma primeira reforma: entre os números favoráveis inseriram uns tantos símbolos adversos, pelos quais os sorteados tinham de pagar uma multa. Quem comprava os retângulos pintados, diz Borges, agora corria o “duplo risco” de ganhar e de perder muito dinheiro.

O perigo reascendeu o interesse público pela loteria. Os babilônicos se lançaram ao jogo com esperança e também com pavor e coragem. Pouco depois, a Companhia se decidiu por uma nova reforma: trocou os prêmios e multas em dinheiro por “elementos não pecuniários”, pois haveria outros modos felicidade talvez mais diretos que a posse de moedas. O sucesso foi ainda maior.

Enquanto isso, nos bairros mais humildes de Babilônia, os pobres exigiam à Companhia o direito de participar tanto quanto os ricos da possibilidade “notoriamente deliciosa” de encontrar o terror ou a redenção nos sorteios. A gente babilônica quis que a loteria se tornasse “secreta, gratuita e geral”. Mas, para que a Companhia soubesse das “íntimas esperanças e dos íntimos terrores de cada um” e, assim, pudesse providenciar todos os resultados, entregou-lhe a soma de todos os poderes.

As consequências foram incalculáveis. Uma jogada feliz podia determinar que o contemplado fosse promovido ao cargo mais importante ou encontrasse “na pacífica treva do quarto, a mulher que começa a inquietar-nos ou que não esperávamos rever”. Uma jogada adversa, porém, podia trazer “a mutilação, a variada infâmia, a morte”.

Como se misturavam números de sorte e de revés, como os prêmios e penas não mais se entregavam em dinheiro, como já não havia quem não participasse dos jogos, ficou impossível saber se os acontecimentos diversos e imprevisíveis não eram, “porventura, uma secreta decisão da Companhia”. Tal dúvida, escreve Borges, provoca desde então todo tipo de conjecturas. Alguns dizem que a Companhia é eterna e onipotente. Outros ainda dizem que nunca existiu nem nunca existirá. Silenciosos, os resultados de sua loteria se confundem com os desígnios de deus ou do acaso.

Muitas vezes me lembro desse conto de Borges e dessa história de meus pais. Fico me perguntando quantas vezes ganhei na loteria e o que é, afinal, ganhar na loteria. O ônibus se aproximar assim que chegamos ao ponto, encontrar na noite entre amigos alguém que nos trará alegria, ver os filhos crescendo sem graves acidentes — e mais uma infinidade de outras coisas que a todo instante acontecem e deixam de acontecer. “Na realidade”, lembra Borges, “o número de sorteios é infinito”. E a cada mínimo ato nos lançamos, com pavor, com esperança, nessa loteria gratuita e geral, cujo funcionamento permanecerá para sempre inescrutável.

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