Qual foi a primeira história do mundo?

Qual foi a primeira história do mundo?

Renato Prelorentzou

13 Janeiro 2017 | 15h30

Dê uma olhada ao seu redor. Você vive num mundo feito de histórias. Não estou falando só da sua série favorita, do seu livro de cabeceira, do filme que você quer ver no cinema. Tudo que lhe aparece pela tela do computador ou do celular, todas as pessoas que você conhece e desconhece, tudo que se pensa e diz, tudo conta história o tempo todo, desde sempre.

Mas quem inventou isso de contar histórias? Qual foi a primeira história do mundo?

A narrativa mais antiga de que se tem registro é a “Epopeia de Gilgamesh”, uma série de poemas míticos da antiga Mesopotâmia. Muito antes da Bíblia hebraica, da Ilíada grega, do Tipitaka budista ou do Mahabharata hindu, os sumérios contaram a jornada de um rei em busca da imortalidade. Uma história de 2100 a.C. que chegou até nós quando os arqueólogos decifraram tabuletas de argila desenterradas no atual Iraque.

Pode ser que um dia os arqueólogos encontrem registros de uma narrativa ainda mais antiga. Mas qualquer história escrita será recente demais se comparada às orais. Tanto a jornada de Gilgamesh quanto a de Noé, Odisseu, Buda ou qualquer outro herói começaram como uma dispersão de narrativas cantadas de geração a geração e só muito depois fixadas em barro, pergaminho e papel.

Mas como rastrear as raízes dessas histórias que existiram só na fala e não deixaram nenhum vestígio material?

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Marca de mão na parede da caverna de Chauvet Pont d’Arc, no sul da França. Há 30 mil anos, alguém quis dizer: ‘passei por aqui’.

Na tentativa de responder a essa pergunta sobre a origem do ato de narrar, o historiador italiano Carlo Ginzburg lançou uma hipótese: a narração teria nascido numa sociedade de caçadores, muito antes de todas essas narrativas míticas e religiosas, antes das lendas dos povos de todos os continentes, antes mesmo que os seres humanos tivessem se organizado em impérios, cidades ou meras aldeias.

Ao caminhar por entre as árvores, perseguindo presas ou fugindo de predadores, esses homo sapiens dedicados à caça foram capazes de reparar nas pegadas do chão e entender que os rastros eram indícios da passagem de uma pessoa ou bicho. Souberam decifrar esses sinais no meio das matas e dizer: “Alguém passou por aqui”.

Essa frase aparentemente banal talvez tenha sido a primeira narrativa do mundo. Ela marca a primeira vez em que um homo sapiens imaginou uma coisa que não estava ali diante de seus olhos e depois transmitiu esse conhecimento a seus próximos. Marca o momento em que os caçadores se tornaram narradores.

Essa capacidade de pensar em coisas que não estavam presentes logo se transformou na capacidade de imaginar coisas que não existiam concretamente. No livro Sapiens – uma breve história da humanidade, o historiador israelense Yuval Harari fala sobre essa transformação como uma verdadeira Revolução Cognitiva: quando começaram a imaginar mitos, lendas, deuses e religiões, os humanos puderam se unir em grupos cada vez maiores de indivíduos que acreditavam nas mesmas coisas e, por isso, cooperavam entre si.

A cooperação para a caça logo se tornou cooperação para a guerra, o comércio e o conhecimento. Os pequenos bandos de sapiens viraram aldeias que viraram cidades que viraram impérios que viraram uma aldeia global.

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Marcas nas paredes da Cueva de las Manos, na Argentina, feitas há 10 mil anos. Foi a capacidade de contar histórias que uniu os sapiens.

“Não há deuses, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação coletiva dos seres humanos”, diz Harari, e com isso não quer dizer que os valores, desejos e saberes que compartilhamos sejam mentira. Quer dizer que foi contando histórias que construímos um mundo de coisas abstratas que nos permitiram dominar e transformar as coisas concretas.

Já se passaram uns 70 mil anos desde que um caçador contou a primeira história. De lá para cá, sua Revolução Cognitiva abriu o caminho para a Revolução Agrícola, a Revolução Científica e tantas outras transformações que estão por vir. Brevíssima e perdida no passado, a primeira história dos sapiens continua viva no nosso modo de pensar a realidade e de criar ficções. É graças a ela que podemos perguntar: qual será a próxima história do mundo? Quem olhará para os rastros que deixamos no planeta e dirá: “alguém passou por ali”?

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