Peça baseada em conto de Doris Lessing explora a angústia feminina

Peça baseada em conto de Doris Lessing explora a angústia feminina

‘Quarto 19’, monólogo adaptado da obra da escritora britânica Nobel de Literatura em 2007, conta a história de uma mulher que parece ter uma vida de sonho, mas se sente aprisionada pelo casamento e pela maternidade

Renato Prelorentzou

28 Setembro 2018 | 11h34

Uma mulher inteligente, bem de vida, bem resolvida, morando numa bela casa, com um belo marido e três belos filhos. Ela parece ter tudo aquilo com que qualquer pessoa poderia sonhar. E, no entanto…

Depois de largar o emprego para cuidar da família, ela se sente cada vez mais sufocada por seus papéis sociais de mãe, esposa, dona de casa, mulher.

Este é o papel de Amanda Lyra em ‘Quarto 19’, monólogo adaptado do conto “To Room Nineteen”, publicado em 1963 pela escritora britânica Doris Lessing, Prêmio Nobel de Literatura em 2007.

Sob direção de Leonardo Moreira e com uma atuação impactante, que lhe valeu a indicação ao Prêmio Shell na categoria Melhor Atriz, Lyra encarna essa mulher que, para se redescobrir, precisa desaparecer da casa, do marido, dos filhos, da empregada e da babá, buscando refúgio no silêncio de um quarto de hotel barato.

Formada pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo, a atriz idealizou, produziu e atuou em espetáculos como ‘O Jardim’, da Cia Hiato (vencedor de Melhor Autor no Prêmio Shell e Melhor Direção no Prêmio APCA); ‘Tragédia: uma tragédia’, de Will Eno, com direção de Carolina Mendonça; e ‘Uma História Radicalmente Condensada da Vida Pós-Industrial’, com direção de Carolina Mendonça e texto criado a partir do livro Breves entrevistas com homens hediondos, de David Foster Wallace.

Na conversa abaixo, Amanda Lyra fala sobre a atualidade do texto de Lessing, sobre movimentos feministas como o #EleNão e sobre a tentativa – pessoal, feminina, humana – de se libertar de certos modelos de felicidade, de família, de consumo, de identidade.

Amanda Lyra na peça ‘Quarto 19’. Foto de Cris Lyra

Saí da peça lembrando de uma frase que a escultora francesa Camille Claudel escreveu numa carta a Auguste Rodin, de quem foi amante e colaboradora: “Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta”. É uma história sobre a ausência, sobre a falta?

Muita gente assiste à peça e fica pensando: “ah, a personagem tinha tudo na vida, estava tudo certo”. A própria personagem reconhece isso. Mas, então, o que está faltando, o que a atormenta? Difícil saber. A frase da Camille Claudel tem tudo a ver com a história, porque não é uma coisa simples de definir. Se a personagem da peça precisasse de dinheiro, ou se seu marido fosse um daqueles machistas clássicos, abusadores, se ele batesse nela ou algo assim, seria fácil apontar o dedo e dizer: o problema é esse cara, ela precisa se livrar dele. Mas a questão não é essa. A gente só sente que ela está aprisionada, que precisa de liberdade. Mas o que exatamente é essa liberdade?

Na última temporada, chegamos a fazer debates com o público depois de algumas apresentações da peça, e era comum que as pessoas dissessem: “Por que ela não foi malhar na academia? Por que não foi fazer compras no shopping ou jogar baralho com as amigas?”. Acho que isso expressa bem nossa condição: você precisa fazer alguma coisa o tempo todo, se manter ocupada para não entrar em contato com aquele demônio interior.

Mas o que exatamente é esse demônio? Claro que não se trata do demônio no sentido religioso, embora a criatura chegue a surgir para ela na forma de um homem. Acho que, nessa história, o demônio é esse algo que ela não consegue definir nem controlar.

Isso aparece logo na primeira frase do conto e da peça, quando a narradora diz: “Esta é uma história sobre o fracasso da inteligência”. Como se o bom senso, a boa vontade, a boa vida e os bons sentimentos desse casal não fossem suficientes para livrá-los das armadilhas do casamento. Como se fosse necessário algo que não está na esfera da razão…

Todo o conto da Doris Lessing gira em torno dessa primeira frase, dessa ideia de que a inteligência não dá conta de explicar tudo, mesmo hoje em dia.

O conto foi publicado em 1963. Agora, cinquenta e tantos anos depois, a gente tem muito mais nomes para as coisas: podemos simplesmente dizer “ah, ela está deprimida, está com a síndrome do ninho vazio, precisa tomar este ou aquele remédio”. Existe um monte de diagnósticos possíveis. Mas todas essas palavras, esses rótulos, são apenas artifícios da inteligência, do racional.

E acho que o conto e a peça falam justamente da batalha entre o racional e o irracional, a selvageria. A mulher selvagem. O que a gente seria se não tivesse de dar conta de nenhum papel social? Ela diz muito isso: quando está no quarto, sente que não precisa cumprir mais nenhum papel, não é mais a mãe, a esposa, a patroa. E isso é libertador.

Nesse sentido, o quarto 19 é muito mais que um espaço físico. É a metáfora de um lugar onde qualquer pessoa pode existir para além das exigências da sociedade, para além desses modelos que estão cada vez mais sufocando nossa sensibilidade. É uma metáfora da libertação.

Foto de Cris Lyra

Você falou do tempo entre a publicação do conto e a estreia da peça, mais de cinco décadas em que a sociedade e o próprio feminismo passaram por muitas transformações. O que dizer sobre a atualidade dessa história diante do que mudou e do que permaneceu? Diante de tantos movimentos de mulheres, como #MeToo e #EleNão?

Estreamos em março de 2017, logo depois do Dia Internacional das Mulheres. Lembro que eu e o Leonardo Moreira, diretor da peça, saímos do teatro e nos deparamos com a notícia de que o Michel Temer tinha feito um discurso horroroso, dizendo que o papel das mulheres na economia era fazer compra de supermercado. Aí o Leo disse: “ele acabou de deixar a peça ainda mais atual”, num grau que a gente nem queria que fosse verdade, porque era desesperador.

De lá pra cá, as coisas se agravaram ainda mais, com esse risco aterrorizante de o país eleger um presidente que simboliza a ascensão do fascismo, a recusa à diferença e à possibilidade de outras vozes se fazerem ouvir: vozes de mulheres, gays, negros, pobres, vozes que o poder não tolera porque não quer sair da posição privilegiada que ocupa há não sei quantos mil anos.

Mas o movimento das mulheres está muito bem organizado e dá uma esperança, porque não podemos mais ouvir certos absurdos e não fazer nada a respeito.

Muita coisa avançou da geração da minha avó e da minha mãe para a minha. Mas ainda hoje estamos falando sobre igualdade salarial entre homens e mulheres, sobre mulheres em cargos de decisão. E isso porque estamos falando de dentro da nossa bolha. Se você pensar nas periferias, a condição da mulher é ainda mais precária.

Então, de certa forma, a peça fala de white people problems, problemas de gente branca. É um drama burguês, obviamente. Mas, ao mesmo tempo, é uma reflexão humana que pode se estender a qualquer pessoa. Não é à toa que o texto é tão atual, que as pessoas se identificam tanto.

Falando nisso, a montagem aposta bastante nessa identificação do público com a personagem: o quarto vazio, a mulher sem nome, a cidade sem lugar. Tudo parece funcionar como uma superfície onde as pessoas podem projetar suas próprias vidas. O que você sente, ali no palco e depois, da reação das pessoas?

Na hora de traduzir e adaptar o conto, eu e Leo resolvemos tirar o nome do marido, da mulher e das crianças, justamente para dar essa sensação de que eles podem ser qualquer pessoa, para aproximá-los da plateia, que acaba virando cúmplice da história.

Pode parecer angustiante, mas tem dia que as pessoas riem muito na peça, principalmente as mulheres. A maneira como a Doris Lessing escreve, sobretudo na primeira parte do conto, faz com que a situação às vezes pareça meio absurda, meio patética, o que fala de perto a todo mundo que está num esquema tradicional de casamento e filhos e tal.

Por outro lado, a escritora usa muito a ironia, que é um recurso da inteligência: quando você fala com ironia, está se colocando à distância do objeto. Então, a peça tem essa dinâmica, em que as pessoas se distanciam e se identificam. E o riso tem esse papel: rir como quem diz “não é comigo” e rir da própria tragédia.

Esse jogo entre aproximação e distanciamento parece se refletir na alternância entre as vozes em primeira e em terceira pessoa, que está no conto e você adapta muito bem ao palco e que, de alguma forma, acaba evidenciando a cisão entre o eu íntimo e o eu social da protagonista, a solidão dessa mulher que não tem com quem falar, nunca pode falar o que sente de verdade…

Essas variações entre a voz em primeira e em terceira pessoa criam um efeito muito interessante. A terceira pessoa permite um distanciamento, é mais segura – inclusive para mim, como atriz e como mulher, porque tenho meu próprio embate com a personagem, também me identifico com ela.

A terceira pessoa é o discurso da racionalidade, da inteligência. É muito mais fácil dizer certas coisas na terceira pessoa, porque você está olhando de fora e, assim, consegue analisar. Já a primeira pessoa é o turbilhão, a voz que nem sempre consegue dizer e, mesmo quando diz, parece muito mais o lugar onde as coisas ainda estão sendo elaboradas. Isso reforça a ideia de que o conto é uma batalha entre racional e irracional: a personagem tenta entender as coisas racionalmente, não consegue e só encontra alguma paz quando está sozinha no quarto 19, num tipo de esvaziamento.

É uma questão marcante na obra da Lessing, mas muitas outras escritoras percorrem esse caminho. Alice Munro toca em questões parecidas. A própria Clarice Lispector tem um conto chamado “Amor”, em que uma mulher, casada e com filhos, vive uma espécie de epifania quando vê, pela janela do bonde, um cego mascando chiclete. E, claro, Virginia Woolf, principalmente nos textos de Um teto todo seu, que falam da necessidade de um quarto, um espaço onde a mulher possa ser o que quiser. Há muitas relações possíveis aí. Não é por acaso que o conto da Lessing se passa em Richmond, na Inglaterra, onde Virginia Woolf foi morar e, mais tarde, se suicidou.

Seu monólogo tem um laço estreito com a literatura, mas também faz lembrar toda a tradição dos “contadores de histórias”, do narrador de que fala Walter Benjamin: aquele que se coloca de corpo presente diante de uma audiência qualquer e conta uma história, relembrando, improvisando, reinterpretando a história a cada vez que ela é contada.

A ideia era bem essa mesmo. O projeto da peça é muito antigo: começamos a pensar na montagem em 2010, mas o texto só saiu do papel em 2017. E no fim foi ótimo, não só pela minha maturidade enquanto artista, mas também pelo momento do mundo: o que a peça tem a dizer é muito mais forte, mais necessário, hoje do que há sete ou oito anos.

Ao longo desse tempo todo, imaginamos várias possibilidades de encenação, pensando na maravilha que é o texto da Doris Lessing e acreditando na potência do ato de narrar. Até que, enfim, chegamos a essa forma da peça: simplesmente uma mulher que ocupa seu espaço e conta sua história.

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