Para encarar 2017

Para encarar 2017

Renato Prelorentzou

30 Dezembro 2016 | 12h18

Voltando do interior no começo da semana, me peguei com aquele cansaço cada vez mais comum a todos nós em todo dezembro, aquele desânimo com o ano que passou e com o que virá, aquela impressão inconfessável de que a vida seria bem melhor se estivéssemos afastados de tudo… se fugíssemos de 2016 e da civilização. Quanto mais a cidade grande se aproximava, mais me convencia de que uma boa vida nova seria lá longe do mundo, debaixo das árvores.

Foi pensando nessas coisas que saí para assistir a Capitão Fantástico.

captainNo começo do filme, vemos Ben Cash criando os seis filhos no meio de uma floresta no Pacífico Norte. Eles constroem a casa onde moram. Costuram as roupas que vestem. Plantam e caçam o que comem. Vivem sem internet, televisão, telefone nem eletricidade.

De dia cuidam da casa e da floresta, praticam ioga, meditação, artes marciais e esportes radicais. À noite, em volta da fogueira, leem, cantam e conversam sobre filosofia, ciência, história, literatura e política. São uma curiosa combinação de caçadores paleolíticos com filósofos pós-modernos. Vivem aquilo que às vezes parece essencial: natureza, boa música, bons livros, boas conversas.

Mas, por um motivo que não vou contar, a família se vê obrigada a ir para a cidade. E desse encontro com o mundo real vêm a graça e os conflitos do filme. Mesmo que sejam superinteligentes e saudáveis, as crianças ficam desconcertadas com o convívio social — e quem não fica? É aí que as escolhas de Ben se tornam ainda mais questionáveis aos olhos dos personagens e também dos espectadores.

Para uns, sua tentativa de se afastar de tudo o que há de estúpido e venenoso no mundo — do açúcar da Coca-Cola à mediocridade das ideias — é a realização de um sonho de harmonia e autoconhecimento no meio do mato. Para outros, mais parece uma utopia meio ridícula que só revela o fanatismo e egolatria do pai.

Mas o diretor Matt Ross faz de tudo para que esse choque de perspectivas seja apresentado sem maniqueísmos. Você pode achar que Ben é um grande herói ou um grande vilão, um pai amoroso ou abusivo, louco ou visionário. De um jeito ou de outro, terá um pouco de razão. No fundo, por baixo dos excessos de seu modo de criar os filhos, Ben é apenas um pai: às vezes convicto e outras vezes indeciso, severo e também sensível, acerta e erra com uma criação que tem prós e contras — e qual não teria?

É justamente essa pergunta que move Capitão Fantástico: como ser pai nos dias de hoje? O que te faz perguntar: qual é o mundo que você quer para seus filhos? O que leva a outra pergunta: qual é a vida que você quer para si mesmo?

Viggo Mortensen como Ben Cash em ‘Capitão Fantástico’

De volta ao caos da cidade grande, me convenci de que o mais bonito e feliz dessa história não é a natureza isolada da civilização, mas justamente a força dessas crianças no mundo — e a calma com que se escutam, a generosidade com que se cuidam, o cuidado com que compartilham silêncios e alegrias, o respeito com que conversam mesmo quando discordam, a sabedoria com que transformam e se deixam transformar por seu pai, seus iguais e seus diferentes. Que 2017 venha com um pouco de tudo isso.

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