Os spoilers e o novo jeito de contar histórias

Os spoilers e o novo jeito de contar histórias

Renato Prelorentzou

21 Outubro 2016 | 10h31

Os spoilers são um tema tão polêmico que é difícil acreditar que esse fenômeno praticamente não existia anos atrás. Em 2009, a Wired, uma das revistas mais antenadas do mundo, ainda falava em spoiler como o estrago produzido pelos blogs que vazavam episódios inéditos de Lost — o que obrigou os produtores da série a gravar vários finais alternativos para a 4ª temporada. Nada a ver com nossa ideia atual de spoiler.

Nos dias de hoje, o spoiler não tem nada a ver com roteiros vazados, segredos de bastidores. O spoiler nosso de cada dia é muito mais trivial, acontece pelo simples fato de alguém ter assistido a certa narrativa antes que nós, fenômeno de uma cultura em que cada um acompanha as histórias no seu próprio tempo e tem as redes sociais para compartilhar suas impressões com milhares de pessoas. O que é um pesadelo para muitos.

Mas talvez não seja só isso. Os spoilers não teriam essa importância toda se as narrativas continuassem convencionais. Antes, quando a indústria do entretenimento ainda não tinha se segmentado em tantos nichos, um filme precisava cair no gosto de todo mundo. Para não correr o risco de desagradar ninguém, tinha de seguir certas regras: não podia ser complicado, o protagonista não podia morrer e, claro, o happy ending era obrigatório.

Com regras e estruturas tão rígidas, essas narrativas eram mais simples e até previsíveis. Só de ver o pôster da comédia romântica, você já sabia que a mocinha iria ficar com o galã. Só pela chamada do filme do Van Damme, já dava para sacar que ele iria distribuir porrada para todo mundo. Era como se cada gênero ficcional já fosse um grande spoiler de si mesmo.

spoiler-alertMuito dessa lógica continua funcionando, sem dúvida. Mas, em certos nichos da cultura pop, especialmente nas séries, começam a surgir narrativas mais complexas e imprevisíveis. E, quanto mais imprevisibilidade, maior o risco de spoiler.

Há, é claro, quem não se importe com nada disso, quem afirme que uma história bem contada é imune a spoilers, pois o que interessa não é o que vai acontecer, mas sim como as situações e personagens vão evoluir. Mesmo que se saiba o destino do herói — e, no fundo, todo herói vive a mesma jornada — a graça estaria em seguir seus passos até o fim. Em amar a trama mais que o desenlace.

Talvez tenham razão.

Mas o negócio é que também há aqueles que aproveitam a polêmica para zoar quem sofre de spoilerfobia — e, de quebra, dar uma achincalhada na cultura pop. Para esses críticos mais sisudos, as narrativas de hoje se transformaram em meras máquinas de produzir surpresas e reviravoltas rocambolescas, muito inferiores à “verdadeira arte”, aquela capaz de dar conta da “verdade da vida”.

Ok, é mesmo difícil negar que as séries de hoje pegam pesado nas reviravoltas. Mas o que esses críticos parecem não ver é que isso não precisa ser ruim. Bem ao contrário.

Com arcos narrativos mais longos e mais livres das regras dos gêneros ficcionais, essas histórias podem desenvolver cada aspecto de cada personagem. Nós os acompanhamos na vitória e na derrota, na alegria e na tristeza, na perdição e no aprendizado, até que a série acabe. O que fisga nossa audiência não é a mera surpresa, a reviravolta vazia e forçada. É a expectativa de conhecer personagens que não são estereótipos nem caricaturas, nem bons nem maus, nem instinto nem razão. São mais parecidos com pessoas mesmo. Mudam o tempo todo. Surpreendentes. Imprevisíveis.

É curioso — e talvez aborreça os críticos mais sisudos. Mas a mesma cultura que criou o spoiler pode estar recriando e popularizando uma forma de narrar que se aproxima da tal “verdadeira arte”. Com enredos longos e complexos, ela começa a expressar na ficção essa que talvez seja a única “verdade da vida”: a certeza de que nunca conhecemos todas as faces das pessoas e nunca sabemos a reviravolta que está por vir.

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