Os diários de Ricardo Piglia e a escrita do tempo

Os diários de Ricardo Piglia e a escrita do tempo

Em 'Anos de formação', primeiro de três volumes dos 'Diários de Emilio Renzi', o escritor argentino Ricardo Piglia narra a busca por uma forma de expressar a angústia de viver entre o passado e o futuro

Renato Prelorentzou

23 de fevereiro de 2018 | 15h50

Difícil não contar essa história. Um certo escritor chamado Ricardo Piglia passou a vida falando de seus diários. Em suas muitas entrevistas e ensaios, em seus premiados contos e romances, sempre dizia que os cadernos manuscritos que vinha escrevendo desde 1957 é que eram o verdadeiro centro de sua obra, o que havia de melhor em sua escrita.

Anos atrás, cercado por uma doença implacável, Piglia decidiu reler, editar e enfim publicar seus diários. Mas aí os assinou como um outro, Emilio Renzi, nome que desde o início da carreira lhe servira para batizar pseudônimos, personagens e narradores de vários de seus textos. Depois de passar décadas prometendo as páginas que contavam sua vida, Piglia as entregou a um ser ficcional, um alter ego, seu duplo.

Os anos de formação de Renzi e Piglia, pela editora Todavia

A brincadeira pode ter muitos sentidos. Talvez fale do estranhamento de quem escreve para consigo e com seus escritos. Talvez sugira que só conseguimos ver nossa própria vida quando pensamos que ela aconteceu com outra pessoa. É, certamente, uma poderosa reflexão sobre os muitos trânsitos entre o real e o fictício. E também um forte indício de que desse primeiro volume dos Diários de Emilio Renzi não se pode esperar um relato verdadeiro de Piglia, pois muito dessa juventude parece ter sido imaginada por Renzi e para Renzi.

É claro que, por afeto a Piglia, fica quase impossível não o enxergar ali, real, jovem ainda, anotando conversas, noitadas, amores, aulas, trabalhos, leituras, projetos. Mas, para além da formação de um escritor, o que mais se lê nessa reedição tardia de seus diários é um Piglia já consagrado encenando em seus cadernos de juventude uma espécie de making of editado e ficcional da escrita das obras que viriam a consagrá-lo, da trajetória que percorreu desde a anotação de uma ideia até o livro pronto.

Numa das últimas entradas de 1964, o jovem Renzi, o jovem Piglia fala de um conto que está revisando naquelas semanas, a história de alguém que recorda o dia em que foi nadar numa praia deserta.

Na primeira versão, diz, esse nadador narra no presente um dia que aconteceu no passado. “Já na versão que estou trabalhando agora, o narrador conta os fatos enquanto eles acontecem. Está na praia e fala do navio afundado aonde quer chegar nadando para ver se encontra algo nos camarotes inundados”.

Na nova versão do conto, ele continua, “quem narra não sabe o que vai acontecer, quer dizer, o que vai encontrar no navio. Um narrador que tende ao presente e conta os fatos enquanto acontecem sem lhes dar o sentido que eles terão no futuro. É a técnica de Hemingway” – e também de James, Conrad, Fitzgerald e outros autores que Renzi/Piglia consome compulsivamente.

Um dos muitos fios narrativos que atam toda a dispersão dos diários é esse seu estudo, descontinuo mas insistente, sobre a posição do narrador diante do narrado. “O que vale em Faulkner é a presença constante de quem narra a história”, o jovem escritor anota nos cadernos. É uma aguçada observação de leitura. É também um norte para sua escrita.

A partir daí, a busca será por uma prosa viva, imediata, que seja capaz de dar conta da realidade. Em outro livro de Ricardo Piglia, um personagem diz a Emilio Renzi que, desde o Ulisses de James Joyce, a literatura se depara com um único problema: como narrar o real?

A resposta – que Piglia perseguiu em décadas de carreira e cujas origens quis mostrar em seus cadernos de juventude – parece ser essa narrativa calcada na oralidade, no diálogo, na presença de um narrador que narra enquanto vive e, por isso, não pode fazer muito mais que justapor acontecimentos sem muita ordem, sem saber muito bem o que se passa ao redor e muito menos aonde a história vai levar. Como se estivesse apenas relatando uma passagem breve da vida, recontando uma conversa que ouviu por acaso e não entendeu direito. Como se nem existisse um leitor. Como se fosse uma página de diário.

Todo diário carrega uma tensão com o tempo. Guarda memória do que aconteceu hoje e expectativa para o que vai acontecer amanhã. “Será que serei um fracassado daqui a vinte anos? Será que vou pensar – como hoje – que tenho a vida pela frente?”, o jovem escritor se pergunta, sabendo apenas que, quando o dia chegar, ainda vai “querer – como agora – conhecer o futuro”.

Se essa aflição por conhecer e desconhecer o futuro é a condição primeira do humano, faz bastante sentido pensar que um dos primeiros e mais sofisticados objetos de sua imaginação foi o ato de narrar: a fantasia de se colocar fora do tempo, olhando o passado de longe e, com o conhecimento de seu futuro, ditar seu significado.

À primeira vista, Os diários de Emilio Renzi, editados no fim da vida de Piglia, surgem como o exercício dessa prerrogativa: o velho escritor olha para trás e reescreve seus diários, sabendo que tudo “o que acontece só é entendido mais tarde”, quando já parece possível se enxergar como uma outra pessoa.

Mas Piglia – que passou a vida prometendo seus escritos pessoais e podia muito bem ter deixado, como outras personalidades de sua estatura, uma autobiografia canônica, grandiloquente, monumental – apostou na forma-diário.

Não foi, por certo, para garantir uma verdade comprovada e documentada por seus cadernos manuscritos: quem procura Piglia encontra Renzi e uma miríade de outros personagens mais ou menos fictícios.

E quem julga ver apenas Renzi acaba encontrando Piglia, a maneira como viveu seu tempo e sua procura por uma forma narrativa que falasse dessa angústia contínua por nunca saber o que vai acontecer no dia seguinte, que livro vai passar por suas mãos, que mulher irá abandoná-lo, o que ainda terá de sacrificar para vir a ser o escritor que imagina.

A longa promessa dos diários e sua reafirmação final parecem vir da ideia de que só uma escrita insistente e interrompida, que recomeça a cada tanto e não sabe quando vai parar, seria capaz de dar conta de algo que escapa a todos os outros gêneros: essa sensação real, inevitável na vida, de que nunca sabemos o que vamos encontrar no navio. Difícil pensar em algo mais verdadeiro.

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