Os anos eternos de Stevie Wonder

Os anos eternos de Stevie Wonder

Livro sobre seu álbum mais célebre conta como Wonder soube eternizar os instantes de ímpeto criativo de sua juventude

Renato Prelorentzou

18 Maio 2018 | 10h55

Dizem que o nome do álbum lhe veio num sonho: Songs in the Key of Life, canções no tom da vida.

Quando acordou, Stevie Wonder entendeu que era o nome perfeito para o disco duplo que vinha gravando, para aquelas 21 faixas que tentavam colher em letras, ritmos e melodias toda a variedade de sua vida.

Euforia, fé e indignação. Memórias de infância, de amores perdidos e encontrados. Esperança e desesperança. A paz, a paternidade.

No livro Songs in the Key of Life – Stevie Wonder, o crítico musical Zeth Lundy analisa como esses sentimentos se expressam a cada faixa. E também narra os bastidores da gravação, o processo criativo do artista, o amadurecimento pessoal e musical do cantor, compositor, produtor e multi-instrumentista que inventou uma mistura única de soul, funk, R&B, jazz, gospel e pop.

Songs in the Key of Life, pela editora Cobogó

Stevie nasceu seis semanas prematuro. Um erro na concentração de oxigênio na incubadora o cegou. O “atributo simbólico da cegueira”, diz Lundy, aquele imaginário que, desde a antiguidade, diz que são cegos os poetas, os profetas, os visionários, foi explorado pelo departamento de marketing da Motown assim que Stevie assinou seu primeiro contrato com a gravadora, em 1961. Tinha 11 anos e logo virou o herdeiro de Ray Charles, o menino prodígio que perdera um dom para ser agraciado com muitos outros.

Como era menor de idade, o pagamento de seus direitos seria depositado num fundo até que ele completasse 21. Sua mãe ganhava apenas uma quantia para cobrir as despesas: 2,50 dólares por semana (uns 20 nos valores atuais).

Sob o domínio financeiro e criativo da gravadora, Stevie represou o talento que iria transbordar nos quatro discos do início de sua maioridade: Talking Book (1972), Innervisions (1973), Fulfillingness’ First Finale (1974) e, finalmente, Songs in the Key of Life (1976).

“Esta seria a última vez que trabalharia tanto”, diz Lundy, “entregando um produto que refletia o amadurecimento de seus esforços”. Dois anos virando dias e noites dentro do estúdio, tentando eternizar em Songs um impulso artístico que ele próprio sabia efêmero. Tinha 26 anos.

No álbum seguinte, Journey Through the Secret Life of Plants (1979), o impulso já o havia abandonado. Stevie continuou trabalhando e fez praticamente tudo que o tornaria famoso no mundo inteiro pelo resto da vida antes dos 36 – nunca mais com a mesma potência dos 20 e poucos.

Ao completar 68 no último dia 13, foi (pouco) lembrado por seus 25 Grammy, pelos 100 milhões de discos vendidos, por seu ativismo junto ao movimento negro em causas políticas e humanitárias.

Belo material para uma biografia, sem dúvida. Mas não é disso trata o livro de Lundy. Sua versão da vida de Stevie é muito mais uma reflexão sobre o tempo da criação e de quem cria.

O auge da criatividade, diz Lundy, é sempre muito breve: John Coltrane o viveu de 1961 a 65. Bob Dylan, de 63 a 66. Os Beatles, de 65 a 69.

Stevie foi um artista mediano antes de 72 e voltou a sê-lo depois de 76, diz Lundy. Mas, “enquanto se encontrava sob o feitiço desse fugaz período de iluminação, capitalizou sua maré de sorte (sua benção criativa, se preferir) escrevendo e gravando quase o tempo inteiro, e fazendo pouco mais que isso”.

Para ele, o jovem Stevie entendeu que vivia um momento raro, que exigia obstinação e sacrifício. E que nunca voltaria.

É por isso que seu livro se abre com versos de Walt Whitman: “Nunca houve mais começo que agora, nem mais juventude nem idade que agora. E nunca mais haverá mais perfeição que agora”.

Ouvindo Songs in the Key of Life mais de quatro décadas depois, dá para entender que esse agora – raro, efêmero, pleno de potência – é o instante em que se vive a criação, a inspiração e também os muitos outros sentimentos de toda a variedade da vida.

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