O que faz um herói?

O que faz um herói?

Dois favoritos ao Oscar mostram o que acontece quando o herói se depara com um obstáculo insuperável

Renato Prelorentzou

03 de fevereiro de 2017 | 17h54

Existem muitas maneiras de definir o que ou quem é o herói de uma história. Uma das definições mais simples e bonitas diz: herói é aquele a quem as coisas acontecem.

Luke Skywalker vivia nos cafundós da galáxia quando, um belo dia, o droide R2-D2 caiu em suas mãos com os planos da resistência ao Império. Neo passava mais uma madrugada no computador quando, de repente, recebeu a mensagem de Morpheus sobre a Matrix. Não importa se foi predestinação ou mero acaso. O importante é que algo aconteceu a eles — justamente a eles.

Os roteiristas têm um nome para isso: inciting incident, o incidente que traz um problema ou uma oportunidade para o protagonista e, assim, dispara a narrativa. Antes desse evento, o herói está preso à estabilidade de seu cotidiano, parece qualquer um de nós. Mas, depois, é arrancado de seu mundo familiar e convidado a embarcar numa aventura de provações e transformações.

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Keanu Reeves e Mark Hamill, heróis de ‘Star Wars’ e ‘Matrix’. Casey Affleck, em ‘Manchester à Beira-Mar’ e Amy Adams, em ‘A chegada’. Ele deve ganhar o Oscar. E ela deveria.

O vizinho de Luke e o colega de trabalho de Neo nunca receberam nenhum chamado, jamais vão transformar a própria vida, muito menos o mundo ao redor. Mas os heróis partem para salvar os outros, voltar mais fortes — e, sobretudo, provar que são dignos de seu próprio destino. As coisas acontecem a eles, e aí eles fazem outras coisas acontecerem.

No começo de Manchester à Beira-Mar, vemos a rotina de Lee Chandler como zelador de um conjunto de apartamentos. Ele recolhe lixo, conserta chuveiro, bebe sozinho, não parece ter desejo nem ambição. Até que algo acontece. Uma chamada telefônica traz um desafio.

Se fosse um filme convencional, veríamos Lee embarcar numa jornada de aprendizado e redenção. Mas não é bem isso. Aos poucos, os flashbacks vão se sucedendo e revelando por que ele é o que é. Por que reage como reage ao chamado que recebeu. Por que não consegue levar o arco de seu personagem àquele lugar manjado aonde chegam os heróis: a superação, a vitória.

É certo que coisas extraordinárias aconteceram com ele e que, a partir disso, ele faz outras coisas acontecerem. Lee transforma a si mesmo e o mundo ao redor. Mas não muito, não tudo. Porque sabe que alguns obstáculos são mesmo insuperáveis. Será que por isso deixa de ser protagonista da própria vida? Ou será que isso só torna o personagem e o filme ainda mais verdadeiros?

Por quebrar algumas dessas regras e expectativas, Manchester à Beira-Mar é um filme difícil, de um realismo penoso. O diretor Kenneth Lonergan faz tudo o que pode para escapar das emoções reconhecíveis e confortáveis do dramalhão familiar. Aqui a tristeza não é clichê, nem apelativa, nem mesmo idealizada. Não é por sofrerem um trauma que as pessoas começam a conversar como se fossem grandes poetas ou filósofos, que seus dias se tornam uma sinfonia de momentos sublimes e edificantes. Elas continuam às voltas com todas as obrigações ridículas e absurdas e tediosas que ocupam a vida de todo mundo: arrumam trabalho, esquecem onde pararam o carro, pedem pizza, riem dos amigos. Sua tragédia não está ali para comover a audiência. Seu humor não aparece para dar um alívio cômico. Seus atos não servem às conveniências do enredo, mas sim à concretude da realidade. Tanto que às vezes você se esquece de que está assistindo a um filme. O que pode ser ótimo para alguns, péssimo para outros.

Depois de ver Manchester à Beira-Mar, fiquei me lembrando de um outro filme recente: A chegada. No primeiro, um pai não consegue ficar em paz com o passado. No segundo, uma mãe fica em paz mesmo sabendo do futuro. São personagens quase opostos de histórias completamente distintas, mas estão diante de perdas, culpas e incertezas igualmente insuperáveis. Embarcam na jornada do herói sabendo que o triunfo não será completo. No fundo, pensando nos dias de hoje, talvez não seja coincidência que dois dos melhores filmes do Oscar 2017 falem de um heroísmo mais real, mais possível.

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