O paraíso são os outros

O paraíso são os outros

Livro de Valter Hugo Mãe que ganha nova edição brasileira é uma aposta afetiva no viver junto

Renato Prelorentzou

22 Junho 2018 | 11h45

Uma menina olha para o mundo e nele vê as pessoas e nelas enxerga suas escolhas.

“Reparei desde pequena que os adultos vivem muito em casais”, ela diz logo nas primeiras linhas. Casais de todos os tipos: de mulher com homem, de mulher com mulher, de homem com homem e também casais de pássaros, coelhos, elefantes, besouros, pinguins. “Até golfinhos podem ser casais. Tudo por causa do amor”.

Ela sabe que existem casais nada óbvios. De gente velha com gente moça. Gente de sombra com gente de sol. Gente que pensa de um jeito com gente que pensa de outro. São casais que às vezes parecem improváveis mas que sempre são possíveis.

Porque para dar certo só “precisa de sorte e, depois, empenho. Precisa de respeito”. E, é claro, viver junto dá trabalho mesmo. Cuidar e deixar-se cuidar. Conhecer e deixar-se conhecer. Requerer, consentir. Gostar de alguém “é como fazer prédios ou cozinhar para mesas de mil lugares. Mas amar é um trabalho bom”.

Nova edição pela Biblioteca Azul, com ilustrações do autor inéditas no Brasil.

Na voz da menina que narra O paraíso são os outros, Valter Hugo Mãe diz tudo isso com a simplicidade, o estranhamento e até com a certa confusão da poesia própria da fala infantil – ou pelo menos da fala que os adultos imaginam nas crianças. Ou, pelo menos, numa criança que imagina como é ser adulto.

Fascinada com um mundo que vê e quer entender, a menina pensa muito no futuro, em “quando for maior”, em tudo que ainda vai descobrir, aprender e fazer. “Todas as pessoas são a felicidade de alguém”, ela vai descobrindo no correr das páginas, para logo imaginar: “Um dia eu e essa pessoa desconhecida vamos nos encontrar por algum motivo, e uma intuição talvez nos diga que chegamos à vida um do outro”.

É nessas horas que as dúvidas e descobertas da menina iluminam as nossas. O que mais existe na vida dos adultos que uma criança não consegue vislumbrar? Qual é o significado do amor que tem em cada casal seu início ou destino?

O próprio Valter Hugo Mãe disse que o livro lhe surgiu depois da escrita do romance A desumanização, em que tinha narrado a perda, falado de abandono e refletido sobre a famosa frase de Sartre, virando-a pelo avesso: se para o filósofo francês o inferno são os outros, para o escritor angolano radicado em Portugal os outros são o próprio começo da humanidade.

“Ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa”, diz a narradora do romance, também uma menina. “Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes”.

Dessa passagem de A desumanização nasceu O paraíso são os outros e seu elogio à companhia, aos casais, ao amor que passa por eles e vai além. “Acho que é o propósito, o sentido da vida, se quiser”, disse Valter Hugo Mãe numa entrevista. “As pessoas certas têm a impressão de que somos um coletivo, e quem escolhe a solidão escolhe, de alguma forma, deixar de ser gente”.

Apesar do pouco texto, das muitas ilustrações, do estilo de escrita que procura uma voz de criança, não dá para dizer que O paraíso são os outros seja um livro infantil.

A abordagem do tema é ingênua e, ao mesmo tempo, séria, comprometida. Trata-se de uma educação para os afetos, valiosa para quando os pequenos ficarem maiores e também para quando os maiores estiverem pensando pequeno. Uma história que talvez os adultos devam ler para as crianças e as crianças, para os adultos. Porque o paraíso também é ler junto.

“Nunca podemos dominar o que miúdos vão ser no futuro”, disse Mãe. E quem sabe pudesse acrescentar: tampouco dominamos o que no futuro seremos nós, crescidos. “A única coisa que podemos fazer”, continuou ele, “é dotá-los de uma consciência que tenha valor ético e humano”. E talvez pudesse concluir: uma consciência que sempre vale aprender e reaprender em qualquer idade.

Esta é a aposta afetiva de seu livro: apesar da improbabilidade dos casais, das dificuldades das famílias, das diferenças entre as pessoas que se cercam, somos melhores quando estamos juntos.

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