O desafio de pensar o Brasil de hoje

O desafio de pensar o Brasil de hoje

Uma conversa com o editor de ‘Democracia em risco?’, coletânea de artigos que procura responder às muitas interrogações suscitadas pela ascensão política de Jair Bolsonaro

Renato Prelorentzou

15 de fevereiro de 2019 | 09h51

Ricardo Teperman nasceu em São Paulo no ano de 1978. É doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo e autor de Se liga no som: as transformações do rap no Brasil (Claro Enigma).

É também editor da Companhia das Letras, que acaba de publicar Democracia em risco?: 22 ensaios sobre o Brasil de hoje.

Nascido da certeza de que a eleição de um candidato de extrema-direita, ultraconservador nos costumes e ultraliberal na economia significava um forte abalo na Nova República, o livro conseguiu reunir, em poucas semanas, análises profundas de pensadores e pensadoras como André Singer, Angela Alonso, Boris Fausto, Carlos Melo, Celso Rocha de Barros, Christian Dunker, Conrado Hübner Mendes, Daniel Aarão Reis, Esther Solano, João Moreira Salles, Matias Spektor, Monica de Bolle, Ronaldo Lemos, Ruy Fausto, Sérgio Abranches, entre outros.

Seus artigos refletem sobre a história brasileira dos últimos meses e décadas para tentar compreender as causas e consequências do bolsonarismo em campos como política, economia, sociedade, justiça, religião, educação, tecnologia, diplomacia e direitos das minorias. Entre diagnósticos e prognósticos, expectativas e advertências, os 24 autores e autoras avaliam os riscos de o Brasil dos próximos anos viver sob uma democracia ainda mais corroída e excludente.

Na conversa abaixo, o editor Ricardo Teperman fala da urgência do livro, de outras obras que debatem a democracia no Brasil e no mundo e do papel da sociedade do conhecimento em épocas de crise.

Quais foram os desafios de pensar o Brasil de hoje diante de tanta desinformação, caos e incerteza?

É uma pergunta difícil de responder, mas, pensando numa resposta, me lembro de um livro que publicamos no ano passado, O novo iluminismo, do Steven Pinker, psicólogo e linguista canadense. Esse livro fez muito barulho nos Estados Unidos porque, a cada capítulo, tocando nos temas mais diversos, Pinker propõe uma reflexão bem contra-intuitiva: enquanto, no debate público em geral, fala-se muito de violência, de mortalidade, de desigualdade, de um certo horizonte distópico que se impôs nos últimos anos, Pinker diz que a humanidade nunca esteve tão bem. A partir de dados que resultaram de pesquisas empíricas, ele prova que nunca houve tão pouca guerra, que a expectativa de vida nunca esteve tão alta, que nunca houve tanto saber disseminado. Segundo o autor, todos esses avanços e melhorias podem ser atribuídos à herança do iluminismo. E é por isso que ele faz uma defesa da ciência e da razão como instrumentos necessários para tomarmos decisões, para lidarmos com a realidade.

Essas proposições geraram uma enorme polêmica. Mas creio que, aqui no Brasil, O novo iluminismo teve boa recepção porque foi publicado durante uma campanha eleitoral que, por suas próprias circunstâncias, impossibilitava um debate profundo sobre as grandes questões nacionais. O debate se viu sequestrado por uma conjuntura marcada, de um lado, pela prisão do ex-presidente Lula e, de outro, pelo atentado sofrido pelo então candidato Jair Bolsonaro. Dois eventos inéditos na história do Brasil que, por diferentes razões, mobilizaram os campos políticos em torno dessas duas lideranças. Não estou culpando nem aquele que foi preso, nem aquele que foi esfaqueado. Mas o fato é que a tal polarização política exacerbou reações emocionais que acabaram por solapar qualquer possibilidade de discussão pública.

Então, para responder à sua pergunta, diria que o desafio de pensar o Brasil de hoje passa por essa defesa da ciência e da razão de que fala o Pinker. É o desafio de olhar para o país tentando enxergar alguma coisa por entre as brechas na poeira baixando, tentando fugir de tudo aquilo que está contaminado pelas muitas fraturas e feridas que foram abertas pelos mais diferentes motivos. É o desafio de propor uma discussão que esteja fundamentada na história, na ciência política feita com dados de pesquisas empíricas, na metodologia de conhecimento legada pelos iluministas. Quero crer que Democracia em risco? e outros livros que estamos publicando têm esse objetivo: qualificar e aprofundar o debate público.

 

Alguns dos artigos do livro parecem sugerir que, no Brasil, o debate racional vem sendo ameaçado não só pelas gritarias de lado a lado nas mídias digitais, mas também pelo retorno de uma tradição autoritária e salvacionista de vários líderes conservadores, preconceituosos, violentos e intransigentes da história brasileira…

Para explicar o estado desse nosso debate público rarefeito, emotivo, ideológico e muito pouco qualificado, alguns autores recorrem à conjuntura de crise econômica e política, com o trauma institucional do impeachment e a polarização potencializada pelas mídias digitais. E outros autores preferem traçar essa continuidade do conservadorismo brasileiro, com raízes históricas mais antigas.

Nesse ponto, o que me chama a atenção é o fato de quase todos os autores de Democracia em risco? acabarem tocando no tema do anti-intelectualismo dessa extrema-direita em ascensão, algo que talvez não estivesse aí desde sempre, mas que nos últimos anos foi encarnado por Bolsonaro e muitos outros nomes um pouco mais distantes de seu círculo íntimo e de seu partido. Quando vemos um líder político desqualificando os jornalistas, os cientistas, os pesquisadores acadêmicos, devemos ficar muito preocupados. É claro que os especialistas nem sempre estão certos. Mas a premissa fundamental é que sempre se possa debater o mérito das questões. O anti-intelectualismo é uma característica muito nociva dessa extrema-direita que ascendeu ao poder. E, não por acaso, é um tema que atravessa todo o livro.

 

Você falou do livro como um esforço para qualificar o debate, trazendo a público vozes mais ponderadas e bem fundamentadas, mas me parece que existe também um outro desafio que é próprio da tentativa de se escrever uma história do presente, disso que vocês chamaram de “interpretação, a quente, do fenômeno” que estamos vivendo. Como não sabemos os rumos que os acontecimentos dos nossos dias irão tomar num futuro próximo, fica difícil dar sentido a eles…

A ideia do livro era que cada autor escrevesse a partir da visão de seus respectivos campos de trabalho, com aquela bagagem de pesquisa que lhes permite analisar o momento presente – e, em alguma medida, modestamente antecipar algo do que pode acontecer. E há métodos e ferramentas científicas para isso, seja em história, sociologia ou antropologia, seja na ciência política ou na análise dos resultados eleitorais. É claro que as análises podem errar. Mas o importante era que não fossem meros palpites, mas, sim, análises sólidas que, além de bem fundamentadas, também tirassem vantagem de serem escritas ainda no calor dos acontecimentos.

Nas ciências humanas há uma longa tradição de livros escritos assim, a quente, por intelectuais que decidiram publicar de imediato, reagindo aos fatos presentes. São livros que, quando bons, conservam seu interesse por muito tempo, independentemente de as análises serem mais ou menos acertadas. O exemplo mais emblemático talvez seja o 18 Brumário de Luís Bonaparte, que Karl Marx publicou ainda em 1852, três meses depois do golpe de Estado que derrubara a revolução de 1848 na França. Continua sendo um clássico 150 anos depois – ainda que hoje você possa ser acusado de marxismo cultural ao citá-lo…

De todo modo, tenho certeza de que o leitor, quando abrir Democracia em risco?, vai entender a proposta. Mesmo se vier a ler o livro daqui alguns anos, vai saber situar as discussões neste momento histórico – e tirar proveito disso.

Alguns artigos do livro foram mais ousados nas apostas e, por isso, têm mais chance de errar – e também de acertar. Mas não é isso que está em questão. Não se trata de futurologia. É muito mais uma tentativa de entender como é que chegamos até aqui. E, por isso, é diferente de um artigo de jornal, em que o autor tem a oportunidade de amanhã escrever um outro texto, ajustando suas impressões e corrigindo suas análises. Uma vez escrito e publicado, o livro enfrenta o desafio de se manter vivo.

 

Os Estados Unidos de Trump, a Venezuela de Maduro, a Itália de Salvini, a Polônia de Duda, a Hungria de Orbán, a Turquia de Erdogan, as Filipinas de Duterte: não restam dúvidas de que regimes extremistas estão em ascensão no mundo todo, o que está provocando um debate internacional bastante produtivo. Como você vê Democracia em risco? no meio de tantos outros títulos que vêm sendo publicados nos últimos anos sobre o declínio da democracia?

Dias depois de Donald Trump ser eleito presidente dos Estados Unidos, o historiador Timothy Snyder publicou no Facebook um post elencando algumas lições para que os norte-americanos não repetissem experiências nocivas do século XX no século XXI.

Snyder tem uma obra muito sólida sobre regimes autoritários e escreveu longamente sobre o nazismo e o stalinismo. Seu post teve um enorme sucesso, tanto que, dois ou três meses depois da eleição, ele desenvolveu e aprofundou suas lições em Sobre a tirania, um livrinho curto, de intervenção mesmo, que nós publicamos aqui no Brasil ainda em 2017, bem antes de tudo que a gente viu acontecer nos últimos meses.

Sobre a tirania fala sobre a importância de defender as instituições, de formar juízos a partir da leitura e da conversa, de se envolver com assuntos que estejam para além da vida privada, que tenham alguma importância para a vida em sociedade.

E nós fizemos uma edição muito especial, convidamos designers para criar cartazes que viriam a ilustrar cada capítulo, com o objetivo de chamar a atenção do público para aqueles debates que estavam no livro do Snyder e que, já em 2017, à sombra da experiência dos Estados Unidos, nos pareciam urgentes.

Então, acho que Democracia em risco? se coloca nesse debate internacional e faz parte de um esforço da editora em sua missão de se fazer presente no debate. E estamos produzindo muitas outras coisas nessa mesma linha.

Vamos publicar em breve O povo contra a democracia, de Yascha Mounk, cientista político da Universidade de Harvard, e também o novo livro do Snyder, Na contramão da liberdade, em que ele explora a posição da Rússia no cenário contemporâneo, analisando os teóricos que influenciam a visão de mundo de Vladimir Putin e o papel ativo dos russos na disseminação de fake news e nas guerras cibernéticas. São livros que vêm para compor esse conjunto de obras nacionais e estrangeiras que estão tentando compreender a crise que surpreendeu quem um dia acreditou termos chegado ao “fim da história”.

 

Me parece os artigos de Democracia em risco? têm mais um traço em comum com vários desses outros livros sobre o tema, como 21 lições para o século 21, de Yuval Noah Harari, Como a democracia chega ao fim, de David Runciman, e Como as democracias morrem, de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt: por mais rigorosos e racionais que tentem ser seus autores, por mais sombrias que sejam suas perspectivas, todos eles tentam se encerrar com uma nota de otimismo. Não dá para fazer política, ou pensar a política, sem esperança? 

Não diria que todos esses artigos e livros se encerrem com uma nota otimista. No caso de Democracia em risco?, alguns autores encerram seus textos defendendo e apostando na sociedade civil. Outros creditam ao Supremo Tribunal Federal a obrigação de atuar como um poder moderador. Outros ainda consideram que até mesmo os militares possam cumprir um papel importante na moderação dos impulsos autoritários do presidente eleito.

Há uma certa unanimidade entre os 24 autores do livro: as eleições de 2018 foram um fato inédito na república que começou em 1988. E há uma pluralidade de opiniões quanto ao significado desse fato inédito. Fizemos questão de colocar o ponto de interrogação no título para que cada autor pudesse discutir quais dimensões da democracia de fato estão em risco, quais não estão, qual é o nível de risco que estamos enfrentando e o que pode ser feito.

O cenário é preocupante e desafiador. Vivemos crise política, crise econômica, crise de representatividade. Mas as instituições estão aí e têm mostrado resiliência. A constituição está aí e tem se mostrado resiliente. Mais que isso, diria que nós, como editora, nossos colegas editores no Brasil e no mundo, nossos colegas jornalistas, pesquisadores, intelectuais, escritores, artistas, todos que de alguma maneira produzem conhecimento, todos nós compomos uma parte da sociedade civil que está muito ativa, vigilante e crítica, pois sabemos que temos um papel a cumprir.

 

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