‘O conto da aia – The Handmaid’s Tale’ e nosso futuro distópico

‘O conto da aia – The Handmaid’s Tale’ e nosso futuro distópico

Futuro descrito no clássico de ficção especulativa da escritora canadense Margaret Atwood é mais um – ainda mais um – sinal de alerta sobre nossas escolhas do presente

Renato Prelorentzou

27 Outubro 2018 | 13h54

Há alusões a um golpe de Estado. Há menções a uma guerra. Bombas explodem nas ruas, talvez pelas mãos de dissidentes, talvez pelas mãos de forças militares. Tudo o que se sabe é que metralharam o Congresso e atribuíam a culpa aos terroristas. Que o exército declarou estado de emergência e suspendeu a Constituição.

Os jornais estão censurados e as universidades, fechadas. O novo regime controla todas as notícias, que são poucas e falsas. A paranoia gera suspeitas e hostilidades mesmo entre os oprimidos. Ninguém confia em ninguém. Qualquer um pode ser um adesista do governo e delatar, ameaçar, cometer atos de violência – simbólica, cotidiana, extrema – uma violência consentida e disseminada pelo próprio Estado, que se vale da enganosa promessa de ordem, segurança e disciplina para banir opositores e acobertar a corrupção.

Este é – pelo menos por enquanto – o mundo que Margaret Atwood criou em O conto da aia: The Handmaid’s Tale.

‘O conto da aia – The Handmaid’s Tale’ , pela Editora Rocco

Publicado em 1985, com sucesso absoluto e imediato de público e crítica, o romance narrava um futuro próximo, em que fundamentalistas religiosos de extrema-direita derrubam o governo dos Estados Unidos e estabelecem a República de Gilead.

Nessa teocracia totalitária, uma grave queda nas taxas de nascimento – reflexo da poluição e da radioatividade – é pretexto para uma reengenharia social: os donos do poder dividem as mulheres em castas, de acordo com serventia que podem ter para os homens.

As poucas que continuam férteis são obrigadas a se tornarem aias, servas sexuais que devem gerar filhos para a elite. As que já não conseguem engravidar ficam com os trabalhos domésticos ou a função de doutrinar e punir as aias. Às que não se submetem às normas resta a prostituição ou o mesmo destino reservado a negros, homossexuais, dissidentes políticos e religiosos: são mortas ou “banidas da pátria”, mandadas para colônias de trabalho forçado nas áreas contaminadas por materiais tóxicos e radioativos.

Com a eleição de Donald Trump e a absurda normalização de seus discursos racistas, misóginos e homofóbicos, repletos de fake news e repúdio a qualquer forma de empatia e conhecimento, O conto da aia voltou à lista dos mais vendidos e virou série de TV. Era a sensação geral de que os Estados Unidos tinham se tornado Gilead.

Mas Atwood negou que seu livro fosse profético. Quase ao contrário: “Criei uma regra para mim mesma”, escreveu ela, “não inventaria nada que os seres humanos já não tivessem feito em algum tempo ou lugar”.

Regimes que dividem a sociedade em castas, que criminalizam homossexuais, que roubam crianças e as entregam a oficiais de alto escalão, que se erguem sobre a exclusão e o obscurantismo, que perseguem dissidentes e incitam linchamentos, que impõem rígidos códigos morais sobre toda e qualquer escolha de vida, que compactuam com assédios, estupros e assassinatos de mulheres, tudo isso teve precedentes históricos – inclusive em sociedades ocidentais e cristãs.

Por isso, mais aterrador que ler no romance de Atwood a descrição de uma distopia possível é entender que esse futuro está presente em muitos países e é, por toda parte, um passado que sempre prestes a retornar.

“As nações nunca constroem formas radicais de governo sobre fundamentos que já não estejam lá”, escreveu ela. E os fundamentos mais profundos dos Estados Unidos não são as ideias republicanas, laicas e iluministas do século XVIII, mas, sim, a severa teocracia puritana do século XVII, cujos princípios conservadores e excludentes “só precisariam da oportunidade de um período de caos social para se reafirmarem”.

O que se apresenta como novo, Atwood poderia dizer, muitas vezes é só o retorno oportunista do que há de mais antigo e grotesco.

A aia que nos narra sua história fala aos sussurros, vive de cabeça baixa, não pode mais estudar e trabalhar, ler e escrever, ir e vir. Ela sonha – dormindo, acordada – com a pessoa que era “no tempo de antes”.

Seu passado – que tanto lembra nosso presente – agora lhe parece distante, irreal. Seu presente – que tanto se aproxima de nosso futuro – lhe surge como inesperado, repentino.

Mas a verdade é que havia muitos sinais do que estava por vir: a escalada do ódio, da ignorância e da paranoia, da falsa moralidade e do fanatismo religioso, do desejo por um retorno a valores tradicionais de um passado mitificado.

Sua história mostra como o autoritarismo pode tomar os corpos e os afetos. E como os corpos e os afetos conseguem resistir, reafirmando a humanidade – a nossa e a dos outros.

É, no fim, uma história sobre nossa fragilidade e nossa resistência. “Como poderíamos saber que éramos felizes?”, ela se pergunta quando vê que seu passado virou um presente distópico. Para ela, é tarde demais. Para nós, ainda dá tempo.

Para outras histórias e ficções, me acompanhe no Facebook