Novo livro do autor de ‘Sapiens’ aborda os maiores desafios e escolhas do presente

Novo livro do autor de ‘Sapiens’ aborda os maiores desafios e escolhas do presente

Depois de estudar o passado da humanidade em ‘Sapiens’ e seu futuro em ‘Homo Deus’, o historiador Yuval Noah Harari alerta sobre os riscos da tecnologia atual para a democracia e a autonomia do indivíduo

Renato Prelorentzou

19 Outubro 2018 | 15h15

Uma pergunta norteia 21 lições para o século 21, novo livro de Yuval Noah Harari: “O que está acontecendo neste momento?”

A resposta passa por uma reflexão sobre o indivíduo e sua percepção da realidade.

O mundo moderno se construiu sobre uma “confiança imensa no indivíduo racional”, capaz de tomar decisões sensatas. Mas economistas comportamentais e psicólogos evolucionistas descobriram que reagimos mais pela emoção que pela razão.

Se alguém adquirir capacidade tecnológica para hackear nossos temores, ódios e desejos, diz Harari, teremos de “lidar com hordas de bots” que saberão como nos vender não apenas um produto, mas um político ou toda uma ideologia. “A política democrática vai se tornar um espetáculo de fantoches”.

Bom, já está acontecendo.

21 lições para o século 21, pela Companhia das Letras

Basta lembrar do escândalo da Cambridge Analytica, empresa que coletou dados de milhões de usuários do Facebook para traçar perfis psicológicos e direcionar notícias falsas e teorias conspiratórias aos usuários mais propensos a radicalizar suas opiniões.

A ideia era espalhar um sentimento contra “tudo que está aí” e minar a confiança na democracia.

Por trás da estratégia, Steve Bannon, articulador de extrema-direita que esteve nas campanhas Brexit e Trump. Agora ele está dando “dicas de internet” para a equipe de Jair Bolsonaro.

É fato que as fake news apontam para todos os lados. Mas a candidatura do militar foi a que mais se beneficiou.

As dez notícias falsas mais compartilhadas no Facebook foram pró-Bolsonaro ou contra seus adversários. E seus eleitores são os que mais leem sobre política no WhatsApp, onde apenas 8% das imagens mais transmitidas são verdadeiras.

Se isso já ajudava a explicar o salto eleitoral de Bolsonaro e de candidatos associados, a peça que faltava veio a público ontem (18), com a denúncia de que empresários pró-Bolsonaro compraram pacotes de disparo de mensagens em massa pelo WhatsApp – o que implicaria caixa 2, uso ilegal de dados privados e abuso de poder econômico.

É difícil imaginar que a revelação mude alguma coisa. Mas deixa bem claro quais são as práticas desse grupo político.

Bolsonaro baseou sua campanha no medo, no ódio, na violência, na disseminação de notícias falsas e na rejeição da política. Não tem projeto consistente para o país e, se eleito, não terá alternativa além de intensificar a mesma tática. As fake news não são apenas sua estratégia eleitoral. Serão seu programa de governo.

O general que elabora as propostas para seu possível Ministério da Educação já afirmou (além do absurdo da educação à distância desde o Ensino Fundamental) o plano de se fazer ampla revisão dos currículos e bibliografias escolares. Entre os objetivos, ensinar o criacionismo e apresentar uma outra “verdade” sobre o “regime de 1964”.

Nada mais previsível. Faz tempo que o revisionismo histórico se evidencia nas falas com que Bolsonaro relativiza e falseia fatos como a escravidão, a ditadura militar, o horror da tortura.

É assim que se fecha o circuito: discurso antissistema, rejeição ao debate político, mistificação da memória, desprezo pela história e pelo senso crítico, bots pagos por empresários para viralizar fake news, ataques a jornalistas, artistas, intelectuais e qualquer um que apresente provas e argumentos contrários ao candidato.

Com isso, a campanha e o eventual governo Bolsonaro criam para seus seguidores um mundo mítico, refratário à realidade. Está na página dois do manual do regime autoritário: falsificar o real, criar uma outra “verdade”.

Parece distópico? Imagine.

George Orwell, sempre ele, já disse em 1984: “Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado”.

Agora está bem claro que quem controla o presente é quem domina a máquina que explora o medo e os preconceitos para disseminar mentira e paranoia pelas redes sociais.

Brexit, Trump, Bolsonaro. O que estamos vendo nestas eleições é mais que a prova de que a democracia foi hackeada. Talvez seja o prefácio de uma nova história dos humanos com a informação e a realidade.

O mundo moderno, diz Harari, se construiu sobre confiança na autonomia e na racionalidade do indivíduo.

Sua existência depende de que as pessoas tomem decisões mais ou menos sensatas para si e para os próximos, decisões que se fundamentam no conhecimento da realidade e no reconhecimento de que as mais diversas vozes precisam debater na arena pública para que se decida um futuro em comum.

O que acontece quando se perde essa confiança na sensatez do indivíduo? Quando as decisões decorrem de um bombardeio de informações inventadas precisamente para manipular as emoções? Quando, segmentadas em tribos que adoram seus próprios mitos, as pessoas deixam de partilhar um mesmo senso do que é a verdade e a mentira? Estudiosos deram um nome para isso: infocalipse.

“Como historiador, não posso dar às pessoas alimento ou roupas, mas posso tentar oferecer alguma clareza”, diz Harari, “fazer soar o alarme e explicar o que pode dar errado”.

E nunca soaram tantos alarmes, nunca houve tanta informação, tantas análises, tantos exemplos históricos. Nunca fomos tão capazes de entender “o que está acontecendo neste momento” – e de nos mobilizar para proteger o que nos resta de democracia.

Mas muitas pessoas já estão vivendo numa realidade paralela, blindada contra os fatos.