Nós e Homo deus

Nós e Homo deus

‘Nós’, distopia russa que deu origem a clássicos como ‘Admirável mundo novo’, ‘1984’ e ‘Fahrenheit 451’, diz pouco sobre o totalitarismo soviético e muito sobre o Vale do Silício

Renato Prelorentzou

25 Maio 2018 | 12h14

A história acontece daqui a mil anos. A Terra passou por uma guerra apocalíptica à qual sobreviveu apenas 0,2% da população, que agora vive numa cidade onde todos os muros e paredes são de vidro, sob vigilância dos Guardiões, a polícia política do Estado Único.

Sob a redoma do Estado Único, não há mais fome nem guerra. O céu é sempre límpido e os vidros, cristalinos. Todos andam uniformizados e são conhecidos apenas por seus números de série.

Os hábitos, as vontades, os horários – de trabalho, de lazer, de sono, do sexo – são controlados por uma tabela algorítmica, desenvolvida a partir de exames laboratoriais e equações matemáticas. Tudo é útil, preciso, constante e eficiente. Visibilidade e previsibilidade.

Essa história está no diário do matemático D-503, o construtor da Integral, nave que vai enfim integrar sistema solar, para “submeter ao jugo benéfico da razão os habitantes de outros planetas, que possivelmente ainda se encontrem em estado selvagem de liberdade”, para levar a eles “a felicidade matematicamente infalível”.

D-503 pensa que seus leitores serão extraterrestres tão selvagens quanto seus antepassados do milênio anterior, os terráqueos do século XX. O diário é uma tentativa de lhes ensinar “o que nós pensamos”. E “precisamente Nós será o título das minhas anotações”, ele escreve.

Nós nos transformamos em deuses. E até vocês, meus leitores planetários desconhecidos, iremos até vocês para tornar suas vidas divinamente racionais e exatas como a nossa”.

É curioso como essa passagem do romance Nós, escrito pelo russo Ievguêni Zamiátin em 1920 e publicado por aqui no ano passado, ecoa um outro livro que saiu no Brasil em 2017.

Em Homo deus, o historiador Yuval Noah Harari diz que, no século XXI, depois de vencer a fome, a doença e a guerra, o homo sapiens terá como meta a imortalidade, a felicidade e a divindade. “Transformar o Homo sapiens em Homo deus”.

Mas as correspondências entre os livros vão além: as ciências, diz Harari, começaram a destruir certas crenças humanistas, quando, desde Darwin, passaram a ver os organismos como máquinas de processamento de dados, verdadeiros “algoritmos bioquímicos”, determinados por pressões ambientais e genéticas.

Em vez de um indivíduo com voz, alma e livre-arbítrio, “somente genes, hormônios e neurônios que obedecem a leis físicas e químicas” e podem ser “representados por meio de fórmulas matemáticas”.

 

Se não há grande diferença entre animais e máquinas, diz Harari, o que importa é a capacidade de processar. E, com base na imensa quantidade de dados que deixamos nas redes todos os dias, os algoritmos inorgânicos conhecem nossos hábitos, sentimentos e desejos muito melhor que nós mesmos. Então, faz todo sentido delegar a eles nossas decisões.

Parece estranho, mas “já está acontecendo neste momento como resultado de inúmeras ações cotidianas”. Basta pensar em quantas vezes você se deixou levar pelas orientações do Waze, pelas recomendações do Spotify, pelas sugestões do Google ou do Facebook.

Em nome da eficiência, da performance, do conforto, damos ao smartphone um pouco mais de autoridade, e aí os algoritmos já começam a pensar por nós. Em troca, “só temos de abrir mão da ideia de que os humanos têm livre-arbítrio para determinar o que é bom, o que é belo e qual é o sentido da vida”.

 

O mundo moderno se fundou sobre a certeza de que os indivíduos eram a fonte de todo significado e poder. Na hora de votar, de comprar, de escolher como viver e quem amar, confiávamos no liberalismo, na democracia e na autonomia pessoal.

Mas, para Harari, o século XXI verá ascender uma nova religião: o dataísmo. Nascido no Vale do Silício, o novo credo prega a livre circulação das informações e tem um dogma fundamental: a verdade e o destino não se encontram na vontade do indivíduo, mas sim nos dados processados por algoritmos inorgânicos.

Uma tecnorreligião baseada nos algoritmos, diz Harari. Um “sistema de ética científica” baseado na matemática, diz D-503.

Como Zamiátin foi perseguido na Rússia e teve de se exilar para publicar suas obras, ficou cômodo dizer que Nós era uma crítica ao nascente Estado totalitário soviético.

Mas, lendo Homo deus, fica ainda mais claro que, na verdade, o romance projeta o futuro das sociedades industriais cientificamente administradas.

“Taylor foi o mais genial dos antigos”, D-503 escreve em seu diário. O mundo de Nós é o do taylorismo que sai da indústria para se aplicar a todo o resto da vida.

Ao final dos dois livros, fica a pergunta: depois que delegarmos nossas escolhas à tabela algorítmica – não de um Estado Único, mas das grandes corporações – quem seremos “nós”?

A resposta de ambos, escritas com quase cem anos de intervalo, é aterradora: uns poucos sapiens futuros, vivendo num mundo ordenado, protegido e cristalino, sob a lógica matemática dos dados. Um vislumbre do Vale do Silício.

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