Livro traça panorama da prosa de Beckett

Livro traça panorama da prosa de Beckett

Lançamento da editora Humanitas / Fapesp, ‘Em busca de companhia: o universo da prosa final de Samuel Beckett’ é bom guia para leitores iniciantes e iniciados

Renato Prelorentzou

14 Setembro 2018 | 08h44

Lívia Bueloni Gonçalves vem dedicando toda a sua carreira acadêmica ao estudo de Samuel Beckett. Doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), com passagens pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pela Beckett International Foundation, no Reino Unido, Lívia Gonçalves lança agora Em busca de companhia: o universo da prosa final de Samuel Beckett (editora Humanitas/Fapesp), livro que se debruça sobre o romance Companhia, mas faz um mapeamento de toda a obra beckettiana.

Na conversa abaixo, ela fala dos desafios de ler e escrever sobre Beckett, da ideia de ficção como companhia e da inevitável tensão entre a tentativa de contar uma história e sua impossibilidade.

Samuel Beckett é um nome que causa certo temor, mesmo entre os leitores mais experientes. O interessante de seu livro é que você consegue falar tanto ao leitor iniciante quanto ao iniciado…

Essa fama de autor difícil intimida, mas não deveria. A aura de hermetismo em torno de Beckett faz com que as pessoas se assustem antes mesmo de lê-lo. No livro, nunca assumi que o leitor já devesse entender do assunto. Fui caminhando do geral para o particular, de modo a preparar a leitura de sua prosa final. Assim, o leitor iniciante consegue acompanhar um percurso e o leitor iniciado encontra uma possibilidade de diálogo e aprofundamento no universo beckettiano.

Não estou dizendo que seja um autor simples, mas, assim que você começa a estudá-lo, vai identificando as temáticas, os procedimentos, as continuidades, as discussões literárias, a luta com a linguagem, etc. Para mim, sempre houve a descoberta de um universo muito intrigante e criativo. Depois de tantos anos pesquisando Beckett, o autor me ficou mais familiar, claro, mas isso não significa que as ideias tenham se cristalizado. Sua obra não permite isso. Falar de Beckett pressupõe reconhecer os paradigmas que ele rompeu, tanto na prosa como no drama, e pressupõe também respeitar uma obra que não se dobra a interpretações evidentes ou esclarecedoras. Acho que é aprender a caminhar um pouco na bruma, buscando hipóteses.

As coisas não se complicam um pouco mais quando se lembra que a obra de Beckett tem várias faces e fases?

Beckett foi um autor extremamente produtivo e se aventurou por diversas áreas. Apesar de mais conhecido pelas peças, entre as quais se destaca Esperando Godot, sua trajetória na prosa é muito importante. A trilogia de romances composta por Molloy, Malone Morre e O inominável é frequentemente citada como uma referência para a crise da narrativa no século XX.  Isso sem mencionar as peças radiofônicas e televisivas, as poesias e Proust, ensaio bastante conhecido no qual ele analisa Em busca do tempo perdido.

Meu livro faz um mapeamento de sua prosa. A crítica beckettiana costuma pensá-la em três momentos. A primeira fase relaciona-se com o início da carreira e abrange seus primeiros textos, escritos em inglês, entre os quais se destaca o romance Murphy. No segundo momento, podemos ressaltar a adoção do narrador em primeira pessoa tipicamente beckettiano e a mudança de idioma que o autor empreende no pós-guerra, passando a escrever em francês. A terceira fase, na qual está a obra Companhia, é marcada por textos que parecem investigar o próprio funcionamento da mente no momento da criação. Aqui Beckett volta a usar a língua materna, embora não exclusivamente.

Além da apresentação e análise da prosa beckettiana, seu livro faz também um mapeamento muito útil da fortuna crítica.

Existem vários nomes consagrados na crítica beckettiana. Hugh Kenner, Ruby Cohn, John Pilling e Stanley Gontarski escreveram livros importantes. James Knowlson foi amigo de Beckett e é o autor da conhecida biografia Damned to Fame. The life of Samuel Beckett.

No Brasil, temos obras de destaque, como Samuel Beckett. O silêncio possível, de Fábio de Souza Andrade (2001), um relevante estudo sobre a trilogia romanesca, mas que também comenta o teatro. Uma publicação recente é o livro de Cláudia Maria de Vasconcellos, Samuel Beckett e seus duplos. Espelhos, abismos e outras vertigens literárias (2017). A Cláudia também é a autora de Teatro Inferno: Samuel Beckett (2012). O Fábio e a Ana Helena Souza têm sido responsáveis pelas traduções mais recentes de Beckett no Brasil, perpassando drama e prosa. A Ana Helena escreveu A tradução como um outro original. Como é de Samuel Beckett (2006), um livro sobre a tradução de How it is. Existe um grupo de estudos beckettianos na USP, coordenado pelo Fábio, com muita gente interessada. Espero que outras publicações venham por aí.

Dá para dizer que existe uma certa tendência a ver Beckett como o auge da crise da narrativa, uma espécie de ponto extremo da literatura?

Beckett é sempre citado por seus experimentalismos formais, sua radicalidade e fragmentação, pelas histórias que se desconstroem. Mas, na verdade, tudo isso está ligado a uma tentativa de dar continuidade à narração, de encontrar novas formas de prosseguir. Acho que é por conta dessa busca que há tanta angústia em alguns textos, especialmente em O inominável ou nos Textos para nada. A declarada insatisfação de Beckett com a linguagem é o que acaba servindo de motor para as histórias continuarem, ainda que sob o signo da ruína. Soma-se a isso o forte caráter autorreflexivo de sua obra: o teatro que pensa sua própria forma, o romance que pensa seus próprios métodos.

 Dentro desse universo vasto de leituras, você decidiu mergulhar naquilo que se convencionou chamar de segunda trilogia beckettiana, formada por Companhia, Mal Visto Mal Dito e Pra frente o pior

São textos mais enxutos, experimentais, compostos já no final dos anos 70, começo dos 80. É difícil categorizá-los em um gênero. Uma das coisas que discuto é o próprio hibridismo desses textos, uma mistura de prosa e poesia, costurada por reflexões de um narrador que tenta criar.

Não há uma unidade muito marcada nessa segunda trilogia. Mas a expressão “manicômio do crânio”, que aparece em Mal Visto Mal Dito, pode condensar uma temática. Os narradores desses textos referem-se constantemente ao que acontece no interior da mente no momento da criação, ou seja, perguntam-se como falar, o que falar, como ver, como representar, que linguagem utilizar, etc. É claro que essas reflexões aparecem subordinadas a um “enredo”, ainda que bastante rarefeito.

Em Companhia, o “enredo” gira em torno de um sujeito que está deitado de costas no escuro. No meio dessa escuridão, ele escuta uma voz que parece trazer recordações de sua vida. Mal Visto Mal Dito traz a história de uma senhora que vive isolada em uma cabana. Ela é observada por um olho que tenta descrever as imagens que vê. Pra frente o pior é o mais difícil de resumir. O texto mostra um narrador que, diante de algumas imagens, tenta piorá-las através de ataques e experimentações com as palavras.

Daí você se decidiu por mais um mergulho, dessa vez no livro Companhia. Por quê?

Entre esses textos finais beckettianos, Companhia se diferencia porque parece abordar, de uma forma nova, um conflito que está presente em toda prosa de Beckett: contar uma história e, ao mesmo tempo, questioná-la, tanto do ponto de vista de seu propósito como da linguagem que se utiliza. Mas aqui a estratégia é muito interessante e diferente das obras anteriores. Há semelhança com alguns textos teatrais. Ele realmente fragmenta o texto em mais de uma voz. Há a voz que traz as supostas lembranças do sujeito e os comentários narrativos em trechos separados, ainda que de vez em quando se note uma mescla. Essa confusão de vozes é proposital e caminha para uma unificação no final do texto, sugerindo a ideia de que a própria narrativa é uma companhia que se busca.

Não deixa de ser surpreendente esse ponto de sua leitura de Beckett: pensar que um autor tão hermético e solipsista na verdade procura no próprio narrar uma companhia que lhe parece impossível no mundo…

O tema da companhia aparece em vários momentos da obra de Beckett. Em suas peças mais conhecidas, como Esperando Godot, Fim de partida e Dias Felizes, há sempre duplas de personagens, que vivem relações de muito conflito e também de dependência e companheirismo. O tema da narrativa como companhia me parece mais evidente na prosa. Mas, como a prosa de Beckett se imiscui no drama e vice-versa, encontramos o mesmo tema na peça Ohio Improptu, por exemplo, na qual vemos um personagem que lê uma história para outro, reforçando essa ideia da própria narrativa como companhia.

Você discute se o livro Companhia seria uma espécie de reconciliação de Beckett com a arte de narrar, depois de tantos experimentalismos e desconstruções. Estaria aí uma tensão inevitável entre tentativa de contar uma história e sua impossibilidade?

Parece que a prosa de Beckett toma um caminho sem volta. É como se a obra mostrasse justamente o que está em jogo nessa tentativa, como se a obra se perguntasse: é possível voltar a contar uma história? De que forma? O que ela apresenta é o conflito, representado através desse jogo de vozes que mencionei antes. Entre os textos da prosa final de Beckett, Companhia é o que de fato mais se aproxima de uma narração. Isso ocorre por causa das lembranças trazidas pela voz, que se manifesta em uma linguagem mais acessível, mostrando a vida de alguém da infância à velhice. No entanto, o que se narra é permeado por dúvidas e tem esse caráter autorreflexivo típico da obra beckettiana. Ainda assim, acho que Companhia tem uma beleza que está ligada à tentativa de reconciliação.

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