Livro sobre diários fala da possibilidade de compreender a vida a partir da literatura

Livro sobre diários fala da possibilidade de compreender a vida a partir da literatura

Uma conversa com o professor e crítico literário Felipe Charbel, autor de ‘Janelas irreais: um diário de releituras’, misto de ensaio com romance, de meditação pessoal com aula sobre literatura contemporânea

Renato Prelorentzou

03 de maio de 2019 | 09h13

Diante de umas tantas encruzilhadas, um professor decide reler alguns dos romances que foram decisivos para sua formação como leitor. Retornando a esses “clássicos particulares”, a esses livros que marcaram sua vida e o fizeram feliz, ele acaba relendo também suas anotações de leitura e seus diários de outras épocas, revendo as pessoas que foi e as que amou em outros tempos.

Este é o impulso que vai construindo Janelas irreais: um diário de releituras, livro de Felipe Charbel publicado pela Relicário Edições.

Escritor, crítico literário e professor de teoria da história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Felipe se vale de seus estudos sobre a ficção histórica contemporânea para compor um livro feito de anotações que unem memória e ensaio, diário e romance, ficção e crítica literária. Uma obra híbrida que, confundindo as vidas lidas com as vividas, revela o instante mesmo em que a leitura se abre para a escrita.

Na conversa abaixo, Felipe fala sobre os seus diários e os diários dos outros, sobre as inúmeras passagens entre a ficção e a não ficção na literatura contemporânea e sobre o ofício de ler, escrever e ir vivendo enquanto isso.

Talvez pudéssemos começar por aí. Escrevi muito lendo seu livro. Como se ler seu narrador relendo os próprios diários levasse o leitor a também anotar, escrever, entender que a própria vida, a própria leitura, tudo aquilo que acontece a quem lê, pode ser matéria da escrita…

É curioso como alguns livros são como convites à escrita, e outros temos vontade de percorrer sem nenhum tipo de interrupção. Quando leio, gosto sempre de ter por perto uma lapiseira, uma caneta e um caderno, e se estiver silêncio e a poltrona for confortável, se não for um dia quente e o café estiver fresco, se a noite do sono tiver sido boa e a cabeça estiver vazia, então as condições de leitura se aproximam do ideal.

É claro que nem sempre isso é possível. Quase nunca, na verdade. Leio muito no metrô, de pé, indo ou voltando da UFRJ, e quando esbarro numa passagem sublinhável, num trecho que convida à anotação, sinto a mão coçando e fico irritado por não poder marcar, copiar, glosar. Nunca mais vou encontrar essa frase ou aquela cena, tantas ideias se dissolvendo entre o Catete e o Largo do Machado!

É claro que esses insights parecem melhores do que são na realidade, porque logo evaporam: é raro que a anotação real faça justiça ao estalo, ao que impulsiona a pegar o lápis. É como se o hábito de tomar notas fosse mais importante para o agora da leitura do que para o depois, e com o diário acho que acontece a mesma coisa. Afiar a atenção, agarrar alguma coisa que já ia sendo tragada nesse bueiro das horas que é a vida adulta: acho que é isso o que me motiva a ter um diário.

Às vezes tenho a impressão de que o que mais importa nessa documentação maníaca da vida é a constatação de que estive ali, de que estava vivo quando ocupei as páginas em branco de um caderno. Acho que é esse sentimento o que junta as duas pontas que você mencionou, a escrita e a leitura do diário. Como se o principal assunto do diarista fosse a constatação de que está vivo.

 

E o que dizer do apelo do diário enquanto gênero literário, da tradição dos romances escritos sob a forma de diário e dos diários que acabam por serem lidos como romance? O que faz com que ficcionistas optem pela forma diário? É só um artifício do realismo, um “efeito de real”? Por outro lado, o que faz com que certos diários alcancem o status de “livro”?

O diário realmente tem poucas convenções: a divisão por dias, o caráter lacunar, a espontaneidade da escrita, a ausência de fechamento narrativo (pelo menos do ângulo de quem escreve, mas não necessariamente de quem lê. Veja os casos de Cesare Pavese e Anne Frank: como não ler cada entrada sem pensar no destino dos dois?). Em resumo, quase nenhuma restrição. Uma forma aberta.

É o que acontece nos diários de Kafka, por exemplo: ali encontramos de tudo, esboços de ficção, parábolas, relatos do cotidiano, voos filosóficos. É que o diário recebe bem a ousadia, e talvez seja por isso que os diários interessem tanto aos escritores, seja como laboratório para as próprias ideias, para o estilo, ou como forma para o romance e para o ensaio.

As novelas e os romances em forma de diário são herdeiros do romance epistolar, do Werther de Goethe, e existiam aos montes no século XIX. Acho que isso tinha a ver com certo realismo psicológico favorecido pela forma do diário, mas também com a valorização social dessa modalidade de escrita íntima. Quando o caderno escondido no fundo do armário passa a ter um interesse mais amplo? Acho que tem a ver com o esforço do diarista para trabalhar a atenção, para encontrar beleza ou estranhamento no banal, tem a ver com cuidar do estilo sem prejuízo da espontaneidade da escrita.

Julio Ramón Ribeyro, por exemplo, tinha uma autoconsciência admirável em relação ao valor dos seus cadernos. Leitor voraz dos diários íntimos de Amiel, Virginia Woolf, Gide, ele sabia muito bem que qualquer coisa que anotasse poderia no futuro ser lida por milhares de pessoas.

Então me parece que esse é um bom critério para pensar o que você chama de passagem do diário ao livro: o interesse. O diário está pronto para alcançar o “status” de livro quando consegue capturar o nosso interesse. E esse interesse, como disse Roland Barthes, não é apenas pelo “valor literário” no sentido usual do termo. Ele tem muitas faces. É interesse pela pessoa que escreve, por sua forma peculiar de ver as coisas. É interesse amoroso, mas também interesse histórico, documental. Ou mera bisbilhotice etc.

Em Janelas irreais, as inúmeras leituras e releituras se confundem com a rotina: preparar aulas, adiar textos prometidos, ver amigos, beber, comer, dormir, divorciar. Isso faz de seu livro um inventário das várias formas de ler: ler sozinho, ler junto, com os amigos, as mulheres e os alunos, lendo a leitura dos outros (o que parece ser o próprio ofício de professor). E, claro, reler, lendo anotações de leitura, pensando nas vidas de outras épocas. Em tudo o que tem de íntima e pública, solitária e gregária, a leitura aparece como um exercício de compreensão da própria vida: é com os livros que aprendemos a reconhecer a complexidade das vidas e é com nossas vidas que os lemos e os escrevemos. Sendo um lugar de anotação de leituras e de esboços de escrituras, parece que o diário tem um papel fundamental nessas passagens…

Quando a leitura ocupa um lugar colossal no cotidiano da pessoa, ela acaba se confundindo com a própria vida. Ler um bom livro, preencher uma lacuna, descobrir novos escritores e universos literários, tudo isso ganha contornos de um grande feito. Foi o que aconteceu comigo nessas férias, quando li pela primeira vez Zama, do Antonio di Benedetto, e O enteado, do Juan José Saer. Essas leituras foram os acontecimentos mais notáveis das minhas férias de verão…

Lembro também de ler Guerra e Paz num calor demoníaco, anos atrás, em dezembro, num estado de completa suspensão. O meu diário daquele mês praticamente só trata de Pierre Bezkhov, de Natasha, do príncipe Andrei: foi o que me coube em matéria de vida naqueles dias, uma vida substituta, vicária.

No caso das releituras, tem ainda uma outra questão: reler é uma forma de revisitar a si mesmo. É como viajar no tempo, uma maneira de se transportar às circunstâncias da primeira leitura (um sofá que já não existe, uma determinada incidência de luz, um cenário mental de bem-estar ou de angústia), e também de reviver a si mesmo como um outro, se espantar com as mudanças do percurso, com uma pessoa que, para o bem ou para o mal, deixou de existir e continua existindo. Como você disse, é com nossas vidas que lemos os livros e que os escrevemos: as releituras marcam esse encontro da pessoa que fomos com a pessoa que somos agora.

 

Seu livro é um inventário das várias formas de ler e também das muitas maneiras de escrever. Além dos cadernos, diários em sentido mais estrito, o narrador de Janelas irreais registra a passagem dos dias também nas anotações feitas às margens dos livros que lê e relê, nos e-mails que troca com mulheres e amigos, até nas mensagens de aplicativos de encontros e conversas. Dá para dizer que esses registros cotidianos (intencionais, não intencionais) são novas formas de diário? Que possibilidades isto traria para a literatura?

Passo o dia pendurado no WhatsApp, e sempre me espanto com a quantidade de horas que gasto ali. Mas não vejo necessariamente como algo ruim: é um jeito de estar com os amigos, uma forma de colóquio à distância. Além disso, me agrada o tom de oralidade dessas conversas por escrito, muitas vezes gosto de relê-las. É claro que tem também o outro lado, as amolações de trabalho, os famigerados grupos de família…

Quis trazer alguma coisa dessa coloquialidade para o livro, porque Janelas irreais é também uma narrativa sobre amor romântico e amizade, e não existe relação amorosa ou de amizade, hoje em dia, que não seja atravessada por milhares de mensagens instantâneas. E há ainda muito o que explorar. Por exemplo, as mensagens de áudio, essa estranha variedade de solilóquio.

Já o e-mail é um registro um pouco mais clássico, em certo sentido um registro “nobre”, herdeiro da tradição de trocas epistolares. No livro, os e-mails acabam servindo como espaço de romantização, uma maneira de se pintar para o outro com tintas mais literárias, com tudo que há de patético mas também de singelo nisso, nessa estetização da vida. Em suma, pensando bem, são muitas relações à distância no livro: amizades, amores, fóruns virtuais. A vida mediada pela leitura, e medida com as lentes da literatura.

 

Diante disso, dá para definir o que é o diário? O que o define é sua cronologia? É o mero confessional? Se a lei dos gêneros literários determina, antes de tudo, o que não pode, o diário é o gênero em que pode tudo?

Existe uma vasta literatura sobre diários: Barthes, Lorna Martens, Philippe Lejeune, Alberto Giordano. Tomei gosto por esses debates escrevendo o livro: não foi a teoria que me levou à prática, mas o contrário.

Não acho o diário um gênero difícil de definir. Pelo contrário, é até bem simples. É diário quando a vida é transposta para a página em pequenas fatias, no calor do momento. É diário quando a sequência de fragmentos é datada, quando existe redundância, alguma pressa, quando o registro das coisas do mundo é feito na completa ignorância do que está por vir.

No diário cabe tudo, como você disse: cabem lamúrias, relatos de sonhos, registros de conversas, rememorações, fragmentos de contos, rascunhos de cartas, rabiscos e garatujas, listas de todo tipo. Por outro lado, num romance de Perec também cabe tudo: receitas culinárias, fórmulas matemáticas etc. O que diferencia uma coisa da outra?

Em certo sentido, o território do romancista é ainda mais vasto que o do diarista: porque o romance pode tudo também na forma, pode até mesmo fingir que não tem forma, pode fagocitar o diário, o ensaio, a poesia e ainda assim, como lembrou Abel Barros Baptista em O desaparecimento do ensaio, continuar sendo romance. O romance pode fingir que é diário, e pode até mesmo ser diário de verdade, como em A novela luminosa, de Mario Levrero, e nos Diários de Emilio Renzi, de Ricardo Piglia.

 

Logo no início do livro, como que para justificá-lo e preparar sua leitura, seu narrador diz que buscava uma “nova forma de escrita”, mas que já não pensava em construir personagens, nem fabular situações: “Inventar historinhas a essa altura da vida – não, eu me sentiria ridículo”. Mais adiante, fala dos diários não mais como “a antessala da literatura, mas o palco principal da comédia humana, onde o ridículo e o patético são expostos quase sem retoques”. Me lembrei de que “ridículo” é uma palavra recorrente nos diários de Ricardo Piglia – digo, de seu alter ego Emilio Renzi. Em seus Anos de formação, muitas coisas são “ridículas”, a começar pela própria ambição de ser escritor. Se fabular é ridículo, se querer uma carreira literária é ridículo, se ridícula é a própria vida, uma verdadeira comédia humana, o que resta é o diário, a consciência íntima e inconfessável desses ridículos todos?

Os diários deixaram a antessala da literatura para ocupar o palco principal. Não aconteceu de uma hora pra outra, é claro. Quando diaristas como Amiel e Gide introjetaram uma ideia de público que já não se reduzia ao próprio escritor e aos possíveis invasores da intimidade alheia; quando a reescrita, a edição e a publicação dos diários se tornou uma perspectiva viável, póstuma na maior parte dos casos; em suma, quando o desejo do livro suplantou o da preservação da intimidade, o diário se consolidou como gênero literário e passou a cobiçar voos mais altos.

O diário de Kafka é o meu preferido, por marcar uma espécie de grau zero dessa ambição de transformar em obra a escrita íntima: é grande literatura, e ao mesmo tempo tem toda a pinta de espaço privado, conjunto de esboços, tentativa e erro.

Um índice importante da passagem do diário ao livro é a atribuição de um título que não seja apenas “diário de fulano”. Alguns dos títulos que mais gosto são de diários, porque são como alegorias da vida, alegorias de tudo: O ofício de viver (Cesare Pavese), A tentação do fracasso (Julio Ramón Ribeyro), Conquista do inútil (Werner Herzog), Quarto de despejo (Carolina Maria de Jesus).

Digo isso porque livros como os de Levrero e de Piglia – esses híbridos de romance e diário íntimo – são tributários desse longo movimento, dessa dinâmica histórica. Eles não brotaram no vácuo. E me parece que o êxito de realização dessas obras tem muito a ver com acertar a dosagem exata do cômico: reconhecer que há algo de inevitavelmente vulgar, patético, em expor a própria vida sem a mediação das máscaras ficcionais.

Por outro lado, como inventar personagens também passou a ser, a essa altura do campeonato, uma pretensão um pouco suspeita – no mínimo exige uma dose elevada de autoconfiança –, a comédia de si parece uma maneira bem razoável de encarar o paradoxo da escrita íntima nos dias atuais: a aporia da sinceridade, ou seja, o reconhecimento de que é impossível alcançar a verdade sobre si mesmo e, ainda assim, continuar escrevendo como se isso fosse possível. Rir da própria condição não deixa de ser uma forma, mais uma, de desestabilizar uma ideia caduca de Eu autocentrado.

Numa das releituras, o narrador volta, dez anos depois, a J.M. Coetzee, À espera dos bárbaros, e o que ele descobre é sua própria “metamorfose como leitor”: tudo o que havia de imaginativo, inventivo, fecundo e selvagem “tinha dado lugar, por força do ofício – a crítica literária – a um modo analítico e controlado de apreciação estética, às boas maneiras na leitura”. O livro todo parece nascer de um indisfarçável enfado com a crítica acadêmica (seus vícios, ritos, prescrições e proscrições formais). “Só fui feliz como leitor”, diz seu narrador. Mas, para cumprir essa divisa, que soa tanto como um epitáfio, seria necessário fugir à crítica como adestramento do olhar? Escapar para os “livros inclassificáveis”, aqueles que parecem acomodar melhor a ideia de que a crítica também pode ser literatura e de que a literatura também é uma forma crítica? Parece que seu livro quer levar o leitor a compreender que sempre existe – talvez deva existir – um aproveitamento da matéria da vida tanto para a ficção e quanto para a não ficção. Mas, acima de tudo, compreender que a subjetividade também é uma “forma”, que mesmo nos livros “que resistem à ficção” existe artifício, criação…

Daria mesmo um bom epitáfio! “Só foi feliz como leitor”. Bom, o estalo para o livro veio dessa sensação de esgotamento que você notou. Me sentia sem ânimo para escrever um ensaio para o livro que o Antonio Marcos Pereira e o Gustavo Silveira Ribeiro estavam organizando (Toda a orfandade do mundo, publicado em 2016 pela Relicário Edições). O Antonio, que acabou escrevendo a orelha do Janelas irreais e é meu amigo, tinha consciência de que eu mantinha um caderno, e sabia que para o diário não existia o tal bloqueio criativo. Foi quando me sugeriu: escreva um ensaio em forma de diário, o que te impede? Nada impedia.

Então, sim, o cansaço com a chamada “escrita acadêmica” e suas inúmeras restrições à aventura com a forma – principalmente no meu campo de atuação, a História, uma área bem mais fechada em relação a isso do que os Estudos Literários e a Antropologia –, essa obrigação do pé de página, do argumento de clareza cristalina, da fundamentação teórica, o cansaço com tudo isso era mesmo evidente. E tinha também a vontade de experimentar, de misturar os registros, talvez pelo impacto de duas leituras que fiz na época: O romance luminoso, que como o nome diz é um romance, e The sight of death, do T. J. Clark, um ensaio (o que aproxima os dois livros é o formato de diário).

Mas é claro que havia um background de leituras, muita teoria, muita filosofia, e que não dava para me despir do que me constitui: fui estudante de humanas nos anos 1990 e 2000, e as leituras que fiz naquela época forjaram uma maneira de ver as coisas. A própria ideia do diário de releituras é inimaginável sem esse background: é uma ideia bem barthesiana, no fim das contas…

Não sou um escritor, no sentido de alguém que se ocupa da escrita a maior parte do tempo. Sou professor, leciono teoria da história, oriento trabalhos acadêmicos, participo de bancas e de reuniões intermináveis. Na minha fantasia, já imaginei que as coisas poderiam funcionar de outra maneira: mas seriam necessariamente melhores, mais interessantes? Duvido. Às vezes tenho a impressão de que o enfado é inerente: se me fosse possível viver exclusivamente da escrita, logo trataria de dar aulas e não escrever coisa alguma.

 

“Tudo isso é insuportavelmente cruel sem o abrigo das máscaras da ficção”, diz seu narrador. Se, por um lado, há uma irredutível ficção, mesmo nos gêneros não ficcionais, por outro, há um inevitável senso de verdade (e, com ele, de voyeurismo), mesmo quando se alega o ficcional. De um jeito e de outro, parece sempre necessário essa tela narrativa para projetar as coisas, elaborá-las, torná-las legíveis e suportáveis…

Você pergunta se é sempre necessário criar uma tela narrativa e mobilizar a ficção para tornar legíveis as coisas que buscamos relatar. Escrever o livro me fez pensar que sim, embora anteriormente eu imaginasse que não. Acreditava nisso apesar do Hayden White, mesmo dando aula sobre os textos dele e achando tudo genial. É que os livros que mais me interessam na literatura contemporânea são os que recusam a onipresença do ficcional e somam ao artifício doses generosas de sinceridade. Não falo necessariamente de autobiografia, um gênero meio esclerosado, mas de relatos que se distinguem, ao mesmo tempo, pela ousadia na forma e pela fidelidade ao acontecido, aos nomes das pessoas, às coisas como foram, e não como poderiam ter sido. Penso aqui na Maggie Nelson, nesse livro estupendo que é Argonautas. Ou na Isabela Figueiredo, com o Cadernos de memórias coloniais. Ou no Karl Ove Knausgård.

Não vejo esses livros como autoficções em sentido estrito, porque a autoficção bebe muito da ironia: nunca é a pessoa do autor quem está falando, mas uma personagem que se porta como tal, mesmo carregando o nome de quem assina o livro. Quando leio Karl Ove, me sinto diante de uma pessoa em toda a sua complexidade; quando leio Verão, do Coetzee, ou O mapa e o território, do Houellebecq, esses romances estupendos, sei que são personagens literárias ali, que estou diante da boa e velha retórica da ficcionalidade. Essa minha forma de ver as coisas é obviamente muito ingênua, reconheço: a ficção comparece em Karl Ove de uma maneira que ele próprio talvez não esteja pronto a admitir, por exemplo na reconstrução luxuriante da paisagem da infância. Mas ali a ficção acaba sendo um meio, quase uma ferramenta que nos permite enxergar as nuances de uma existência particular.

Era um pouco isso o que eu tinha em mente quando me dei conta de que os ensaios em forma de diário iam adquirindo a fisionomia de um romance, e que necessitavam de uma armadura narrativa. A ficção veio por necessidade: primeiro bem mesquinha, mudar os nomes, mascarar as situações, mas logo depois de um jeito mais produtivo, quando percebi que me desviava dos referentes, das pessoas e situações reais que serviram de ponto de partida.

A mistura entre verdadeiro e fictício não está ali para confundir, ou dissimular: como diz o narrador de Negro dorso do tempo, de Javier Marías, “creio ainda nunca ter confundido a ficção com a realidade, muito embora as tenha misturado em mais de uma ocasião”. Foi apenas a maneira que encontrei de extrair de mim mesmo algo represado, que não emergiria de outra maneira. Se Janelas irreais fosse um diário tout court, acho que não teria ido longe: haveria um bloqueio, uma intervenção do superego. Mas não deixa de ser o meu diário, no fim das contas, como observou um amigo, o Gustavo Naves. E também o diário de uma persona que inventei com a matéria-prima da minha vida, como modo de entender, de dar forma ao que vivi. Em suma, acho que Hayden White estava certo: a ficção acaba sempre comparecendo, de uma maneira ou de outra.

 

No dia 2 de agosto de 1914, Kafka escreveu em seu diário: “A Alemanha declarou guerra à Rússia. Natação à tarde”. Em um artigo sobre o escritor alemão W.G. Sebald, você escreveu que as coincidências e encontros fortuitos são marca de uma “poética do acaso, em que a existência humana aparece impregnada, mas também regida, pelo aleatório e pelo acidental”. A melancolia dos narradores de Sebald viria desse reconhecimento da ausência de sentido, “experimentada não apenas como um traço das suas subjetividades, mas sobretudo como um aspecto constitutivo da condição histórica”. A poética do acaso, você diz, “reivindica para si tanto a incumbência de sondar o insondável, como a impossível tarefa de encontrar a verdade” – e a impossibilidade dessa tarefa, diz Sebald, contribui para a “infelicidade do sujeito que escreve”. É isso, afinal, que se registra no diário? Coincidências, encontros fortuitos, sacadas intempestivas, melancolias do sujeito que escreve? Foi essa percepção do efêmero e do fugidio, da falta de sentido que experimentamos a cada presente, que fez Kafka justapor guerra e natação? A poética do diário teria, assim, uma relação privilegiada com nossa experiência de tempo e, portanto, com a verdade? 

No diário tudo é acaso, contingência. Se Kafka soubesse o que estava por vir, ele noticiaria o início da guerra de maneira tão casual e displicente, e por isso mesmo genial? Agora, imagine que Kafka, depois da guerra, decidisse reescrever o diário, transformá-lo em romance: talvez ele riscasse a entrada. O que me encanta aí é a completa ignorância do futuro. Kafka tateava no escuro, e isso acontece com todos os diaristas. Penso também em Friedrich Reck, enterrando o diário no quintal para que não caísse nas mãos dos nazistas, escrevendo cada entrada com o agouro do último dia. E quando acaba, bem… o diarista não tem como dar notícias, a não ser num caso como o de Pavese, o anúncio de que não vai escrever mais.

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