Livro resgata histórias de luta e resistência do povo negro

Livro resgata histórias de luta e resistência do povo negro

Uma conversa com Ale Santos, autor de ‘Rastros de resistência: histórias de luta e liberdade do povo negro’

Renato Prelorentzou

17 de janeiro de 2020 | 09h38

Escritor, pesquisador, colunista e mídia ativista de cultura afro-americana, Ale Santos vem conquistando cada vez mais público no Twitter, com suas threads sobre os horrores da colonização e os heróis e heroínas da resistência negra.

Esse trabalho de pesquisa e divulgação agora deu origem a Rastros de resistência: histórias de luta e liberdade do povo negro, publicado pela editora Panda Books.

Formado em publicidade, especialista em games e storytelling, ele reuniu vinte relatos breves e fartamente ilustrados sobre reinos, heróis e heroínas da África e da diáspora africana cuja história foi apagada pelos séculos de colonialismo e pós-colonialismo.

Na conversa abaixo, Ale fala de seu livro, do silenciamento da história dos povos africanos e das consequências desse silêncio para seus descendentes.

Em nossa última conversa, você contou sua jornada desde a infância até se tornar mídia ativista de cultura afro-americana, conquistando milhares de seguidores nas redes sociais com histórias sobre a luta e a resistência do povo negro. Agora essas histórias viraram livro…

Depois de alguns meses, minhas threads no Twitter já estavam chamando a atenção de muita gente. Aí algumas editoras vieram falar comigo. Fiz algumas reuniões, troquei alguns e-mails, conheci o pessoal da Panda Books e deu match.

A editora tinha alguns livros sobre diversidade, como O livreiro do Alemão, do Otávio Júnior, já sabia como lidar com essas narrativas. A gente conversou e viu que seria muito legal transformar em livro o que eu vinha fazendo no Twitter.

 

O que você faz no Twitter e, agora, no livro é basicamente resgatar e recontar histórias do povo negro. Por que essas histórias foram esquecidas e apagadas?

A principal questão é o eurocentrismo. Os grandes filósofos do século 16 e 17 estabeleceram a Europa como o centro de toda a cultura, toda a beleza e toda a capacidade intelectual do mundo.

Essa perspectiva eurocêntrica fundou a ideia de que história é somente aquilo que está escrito, de que as tradições orais são pré-história, coisa de povos bárbaros, com pouco valor.

Essa noção se impregnou e constituiu a história enquanto ciência. Então, o campo do conhecimento histórico sedimentou a perspectiva eurocêntrica e desprezou as narrativas orais, contadas e recontadas pelos povos negros nos mitos, na música, na dança e em tantas outras manifestações culturais.

A elite intelectual brasileira dos séculos 18 e 19 tinha uma extrema dependência da Europa. A nossa república, por exemplo, foi construída sobre bases francesas. Mais tarde, durante toda a ditadura, as escolas só podiam ensinar versões que estivessem de acordo com a ideologia dos militares. Vivemos um período de grande silêncio, não só do conhecimento negro, mas também do conhecimento popular. O Brasil não fez esforços para reescrever sua história agregando outros pontos de vista. Demoramos para nos livrar dessa herança.

 

“É fácil esquecer o passado cruel e devastador quando ninguém se preocupa em contá-lo”, você escreve no seu livro. O que esse esquecimento fez com a vida dos negros no Brasil?

Acho que a negação do racismo é uma das principais consequências do desconhecimento da história brasileira. É um clássico, desde quando Rui Barbosa mandou queimar os registros dos escravizados, impedindo que nós soubéssemos quem são hoje os descendentes dos escravagistas, quais foram as fazendas que enriqueceram com o trabalho escravo. A gente vê grandes famílias, com grandes terras e riquezas, e não se dá conta de que elas descendem de pessoas que escravizaram negros. O que essas pessoas fizeram para compensar a sociedade por essa tragédia que foi a escravidão? Elas nem têm consciência disso.

Mas esse desconhecimento se reflete também na consciência da própria população negra. Quando o Neymar deu força àquela campanha #somostodosmacacos, ele desconsiderou a história, provou desconhecer que essa comparação foi utilizada pela pseudociência da frenologia, que dizia que os negros estavam mais próximos dos animais por causa das medidas do crânio – uma coisa que não tinha nenhuma fundamentação científica.

Desconhecer tudo isso impede que a grande massa da população negra reconheça sua identidade. E aí temos todos esses fenômenos sociais de pessoas que se anulam, que odeiam suas características físicas, que simplesmente minimizam as raízes históricas do racismo, que acham que elas não têm influência nenhuma na nossa sociedade, que ignoram que a escravidão foi a maior instituição brasileira, mesmo diante de todas as evidências da história.

Por exemplo, a indicação do jornalista Sérgio Nascimento de Camargo para a presidência da Fundação Cultural Palmares. Foi um dos pontos mais baixos e vergonhosos de toda a luta dos negros e descendentes de africanos no Brasil.

Palmares é o símbolo maior de nossa luta por liberdade e emancipação. Não existem muitos documentos sobre a vida de Ganga Zumba ou Zumbi, muitos desses registros foram destruídos pelos dominadores, mas existem inúmeros relatos explicando por que os escravagistas tinham medo de que Palmares inspirasse a luta de outros negros.

Por isso, era absurdo colocar à frente da Fundação Palmares, uma instituição dedicada a promover a cultura e a consciência negra, uma pessoa que despreza nossa luta, que chegou a dizer que o racismo brasileiro é “nutella” e que a escravidão foi benéfica para os descendentes dos escravizados, que ofende a cultura negra criada nos quilombos, terreiros, igrejas e periferias, uma cultura que fez nascer o jongo, o samba, o pagode, o funk.

Por outro lado, o episódio serviu para escancarar o racismo do governo, para revelar a grande farsa da democracia racial.

 

Falando no atual contexto político, hoje é quase impossível evitar o termo polarização. Você vê uma polaridade política também na questão racial?

Hoje existe uma grande polarização entre a visão negra da direita e a visão negra da esquerda. Me parece que os direitistas estão importando as discussões e os modos de agir dos negros americanos que apoiam o presidente Donald Trump, discutindo até que ponto o estado deve apoiar a melhoria das condições econômicas dos negros e a busca por equidade social.

Sei que muitos negros de direita acreditam que a pauta liberal vai solucionar o problema racial, que “a mão invisível do mercado” vai gerar e distribuir riqueza. Mas não é assim que funciona na prática. Até mesmo os liberais que trabalharam pela abolição da escravatura brasileira mais de um século atrás já falavam que era preciso promover a integração dos negros à sociedade e ao mercado de trabalho.

A maneira como enxergamos a grande farsa da democracia racial também gera polarização. Essa falsa noção de que as raças vivem em harmonia, de que não há discriminação, de que está tudo resolvido, é uma ideia que parte de ideologias brancas – e que a direita adora promover. Ela vem de Gilberto Freyre. Aí você vê, novamente, um ponto de partida branco e eurocêntrico tentando determinar a experiência de vida dos negros brasileiros.

O que a gente precisa é de um ponto de partida negro.

 

Diante disso, como você vê a ascensão de vozes negras contando a história dos negros a partir dos campos da história, da sociologia, da antropologia e da filosofia?

O processo de descolonização da África, por volta da década de 1950, potencializou a geração de um conhecimento construído pelos próprios negros, livre das noções europeias. Já havia pensadores negros nos Estados Unidos, a começar por William Du Bois, pai da intelectualidade negra. Mas a descolonização da África inspirou o mundo todo, inclusive o Brasil, onde os negros foram ganhando cada vez mais voz como historiadores, antropólogos, psicólogos e etc., algo que tinha começado com nomes como Abdias do Nascimento. Ele foi um dos primeiros negros brasileiros a internacionalizar a discussão do racismo no Brasil, estabeleceu contato com os pan-africanistas, viajou o mundo denunciando a farsa da democracia racial brasileira.

Hoje vemos muitos movimentos negros dentro da universidade, produzindo livros, teses e teorias. Nós sempre contamos nossa história a partir da cultura e das artes, mas é fundamental contar nossa história também a partir da academia, com embasamento teórico e científico, utilizando ferramentas intelectuais que o mundo reconhece. Acompanho muito o trabalho do teórico político camaronês Achille Mbembe, do antropólogo e professor brasileiro-congolês Kabengele Munanga e da filósofa e ativista americana Angela Davis.

 

Os historiadores estimam que, entre 1550 e 1850, a cada 100 indivíduos que chegaram ao Brasil, 86 eram negros africanos. Somos um povo formado por negros. E vivemos num país onde um negro é assassinado a cada 23 minutos, um país que promove o encarceramento em massa de jovens pobres, negros e periféricos. Me lembra aquela frase de Angela Davis: “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista”.

É necessário acabar com a falácia de que somos todos iguais. Você se lembra daquele atirador que entrou numa mesquita na Nova Zelândia, matou muita gente e deixou uma carta? Ele citou o Brasil, disse que nosso país nunca vai ser uma grande nação porque tem mestiçagem demais. É justamente o contrário. Nossa maior riqueza é a diversidade.

Em vez de higienizar, de enquadrar todo mundo num mesmo padrão, a gente precisa valorizar nossa diversidade. A história do Brasil tem muito sangue, muito conflito, muitas lágrimas, não podemos negar tudo isso. Mas podemos nos orgulhar de cada elemento dessa diversidade e dar espaço para que nossas diferenças sejam compreendidas na sociedade, entender o papel e as dinâmicas das diversas etnias que compõem o país, em busca da equidade, um objetivo consagrado na Constituição Federal.

Ser antirracista é ter consciência das diferenças. É compreender que, ao longo dos séculos, as sociedades construíram narrativas que discriminam pessoas por sua origem, sua cultura, suas características físicas. É lutar para corrigir as desigualdades que essas discriminações provocaram.

Como foi escolher as histórias que compõem o livro?

Minha bússola é minha emoção. Escolhi as histórias que mais me comoveram, que mais mexeram com meu imaginário enquanto pesquisava para postá-las nas redes sociais.

Algumas delas geraram comentários e reflexões que trouxeram lembranças de volta e me fizeram perceber aspectos da minha vida que nem eu havia percebido. Vivi na cidade do escritor Monteiro Lobato, muitas vezes era chamado de macaco, por isso as histórias de discriminação e resistência que conto no livro também falam um pouco sobre a minha trajetória.

 

Nas histórias que você narra no livro, as formas de resistência muitas vezes são a fuga, os quilombos, a rebelião dos escravizados. O que é resistir hoje?

Resistir hoje é uma mulher criar uma família de cinco ou seis pessoas com um salário mínimo. É entender que a PM tem um olhar diferenciado para pretos e pobres. Que jovens negros morrem mais por estarem desassistidos pelo estado e estereotipados pela mídia. Que saúde e educação são distribuídas de forma desigual para quem tem nome estrangeiro ou herdou terras e riquezas da família. Resistir hoje é confrontar as estatísticas de mortalidade, é chegar na universidade e se tornar um profissional de destaque, é romper as barreiras e ganhar visibilidade dentro da cidade, do bairro, das redes. É rasgar o véu que impede as pessoas de enxergarem quanto as políticas econômicas foram construídas para manter os afro-brasileiros na pobreza, desde a época da abolição.

 

Você vem aprimorando a maneira de contar histórias no formato breve do Twitter. Daria para contar a história dos negros no Brasil em uma thread? Como você a contaria?

Seria muito difícil, é uma história muito complexa, com inúmeros heróis e vilões, inimigos e aliados. Se eu tentasse resumir em poucas linhas, com certeza deixaria de lado algum acontecimento ou personagem importante, algum movimento, algum ponto de vista, alguma contradição.

A igreja católica, por exemplo. Ela, enquanto instituição, foi conivente com a escravidão e chegou a ser uma das maiores proprietárias de terras e escravos no país e no mundo. Mas, tempos depois, foi a Igreja que barrou o projeto eugenista de esterilização em massa de negros brasileiros.

Não dá para resumir em poucas frases a história dos negros no Brasil, mas dá para conta-la em algumas threads. Quem me acompanha no Twitter sabe como é.

 

Um dos aspectos centrais no seu livro é a questão da visibilidade – uma questão cara a outros grupos que também vêm tentando ganhar voz e representatividade na cultura, como mulheres, indígenas, LGBTQIA+… 

Existe toda uma ideia de interseccionalidade gerando discussões e reflexões sobre a maneira como essas histórias se cruzam. Acredito que, na busca por uma sociedade mais igualitária, faz todo sentido que todos se unam e busquem soluções conjuntas. Queremos um país melhor para todos, não apenas para um grupo ou outro.

Então, acho natural essa proximidade. Claro que, em vários momentos, é importante que cada grupo tenha seu foco único também. Mas tenho certeza de que essa diversidade dentro das pautas é boa para podermos abraçar todas as possibilidades de discussão.

As coisas estão mudando. Você vê mais gente confrontando preconceitos, trazendo para o debate outras pessoas que não estavam dispostas a refletir, forçando até mesmo a grande mídia a falar sobre esses temas. Há uma comoção na sociedade, essa comoção tem crescido e gerado pessoas mais conscientes. Acho que a gente tem um longo caminho pela frente, mas vejo também que as novas gerações já estão desconstruindo alguns preceitos e gerando mais conteúdo para essa desconstrução.

Isso tem muito a ver com entretenimento. Nasci em 1986 e não tive nenhuma referência de personagens negros, nenhuma representatividade positiva. O negro na televisão era sempre motivo de chacota. Hoje você vê movimentos por representatividade no Oscar, na Netflix, nas novelas, na propaganda. O negro consegue se enxergar mais, e isso ajuda muito a chegarmos a uma sociedade mais igualitária.

 

Um de seus interesses como escritor é a ficção científica, gênero que se propõe a ensaiar cenários futuros. Como você imagina o Brasil e o mundo das próximas décadas?

Teremos muitas discussões pela frente, principalmente sobre tecnologia. O historiador Yuval Noah Harari diz que a imensa maioria das pessoas – e até mesmo dos políticos – não tem a menor noção dos impactos e dos perigos que a tecnologia ainda vai trazer para a sociedade.

Os eugenistas do passado, quando defendiam o branqueamento da população, se baseavam em noções racistas totalmente infundadas, não tinham nenhum poder efetivo para além de suas crenças deturpadas. Mas, no futuro próximo, os geneticistas terão poder efetivo para transformar a sociedade, com técnicas de manipulação do DNA que criariam seres humanos com traços genéticos selecionados.

Como diz Harari, a ciência terá o poder divino de criar uma nova geração de seres humanos. Se houver alguma inclinação racista nessa nova ciência, a sociedade poderá entrar numa nova era de conflitos sociais e raciais ainda mais profundos.

Além disso, sabemos que hoje já existe a chamada discriminação algorítmica, ou seja, a discriminação dos algoritmos que acabam reproduzindo os preconceitos de seus desenvolvedores.

Quem lê ficção cientifica sabe que muitas tecnologias saíram da fantasia para se tornar realidade. Temos que ficar atento aos alertas da ficção científica para evitarmos uma distopia no futuro.

Para outras histórias e ficções, me acompanhe no Facebook, no Instagram ou no Twitter

Tendências: