Livro parte de perda de filho para se debruçar sobre lutos, identidade e pertencimento

Livro parte de perda de filho para se debruçar sobre lutos, identidade e pertencimento

Uma conversa com a jornalista Gabriela Aguerre, autora de ‘O quarto branco’, romance sobre uma mulher que, em luto por um filho que não nasceu, revisita seu passado para encontrar novo sentido a seu futuro

Renato Prelorentzou

22 de março de 2019 | 09h39

Gloria é uruguaia mas foi criada no Brasil. Aos 40 anos de idade, cuida do pai hospitalizado, é demitida da empresa em que trabalhou por anos, sofre um aborto espontâneo, perde o filho e a possibilidade de ter filhos.

Nesse presente atormentado, decide voltar ao Uruguai de sua infância para se haver com as reminiscências da ditadura militar que levou a família ao exílio e com a memória de Gaia, a irmã gêmea que morreu com poucas semanas de vida.

Este é só o começo de O quarto branco, romance de estreia de Gabriela Aguerre que acaba de ser publicado pela editora Todavia.

Gabriela nasceu em Montevidéu, no ano de 1974, mas ainda na infância veio para o Brasil. Aqui se formou jornalista, foi diretora de redação da revista Viagem e Turismo e trabalhou em várias outras publicações. Em 2015, entrou na pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz e de lá saiu com O Quarto Branco, seu trabalho de conclusão de curso.

Na conversa abaixo, Gabriela fala do desafio de narrar a dor e a resignação nesse relato a um tempo forte e delicado sobre ser mãe e ser filha, sobre o que se interrompe e o que continua.

Foto de Renato Parada

Sinto que, mais que em outras entrevistas, preciso ser delicado aqui, pois seu livro me soou muito dolorido, íntimo, me deixou pensando no que você precisou viver e superar para escrevê-lo… 

Eu ando muito comovida com a reação de alguns leitores em relação ao livro que escrevi. Conhecidos ou desconhecidos, primeiro eles se aproximam e me elogiam por uma suposta coragem de ter enfrentado temas tão difíceis de uma maneira, eles dizem, tão delicada. A segunda reação tem sido perguntar, de modo mais ou menos pudoroso, se tudo o que está ali eu realmente vivi. Eu não sei muito bem se me resta muito a dizer para além do que escrevi – mas aceito esse seu convite de me debruçar sobre o processo de escrita que resultou no OQB, como eu o chamo.

Os pontos de contato entre minha biografia e a história da personagem do livro existem, e não são poucos. De cara, porque eu mesma tive uma irmã gêmea que viveu apenas três meses – e essa história, além de constituir a minha própria identidade, é também uma de minhas obsessões pessoais. Tudo o que se abre a partir da existência de um duplo que não existe mais me constitui como indivíduo. Sou uma metade? Metade de quê? Que metade é essa que procuro e que não se consegue preencher? – são alguns dos questionamentos que me interessam desde muito cedo.

Outro ponto de contato, explícito na própria orelha do livro, é o fato de eu mesma ser uruguaia e ter vindo ao Brasil ainda criança, questão fundamental na minha formação, na escolha da língua em que me expresso em tais e quais circunstâncias. Os demais temas que estão no livro foram se abrindo à medida que escrevia, e refletem a minha percepção de acontecimentos ao meu redor que não dizem respeito somente a mim, mas sim a como eu os pude ver durante a escrita. E aí entra a questão da perda de uma gestação, da impossibilidade de engravidar, da doença do pai. Ao imaginar uma personagem que não sou eu, pude realmente mergulhar na intimidade de uma mulher às voltas com tudo o que acontecia ao seu redor nesse intervalo curto de dias (o enredo transcorre ao longo de menos de duas semanas – esse é o tempo em que acompanhamos Gloria, a personagem principal, na viagem de ida e volta de São Paulo para Montevidéu e La Paloma, no Uruguai). Alguns temas me atravessaram – o que eu fiz foi deixar que eles entrassem, sem saber muito onde poderiam me levar. Eu não sou a Gloria. Eu sou o livro todo.

Procurar as palavras certas para exprimir as dores que apareceram foi o meu grande desafio. O que eu tentei fazer foi justamente revelar essa busca, deixar expostas todas as marcas do processo. Muitas vezes eu procurava a palavra e não a encontrava, mas deixava essa procura explícita, como quem tateia, no escuro, o quarto onde todas elas habitam, e sai de lá com uma porção delas, algumas bem escorregadias, outras menos.

Se escrever foi um processo dolorido? Foi, especialmente os intervalos, aqueles em que você sabe que precisa continuar a história mas não sabe como. Mas à medida em que a personagem foi buscando o seu quarto branco, a autora também encontrou seu espaço dentro dele.

 

Em livros de leitura tão inevitavelmente pessoal assim, muito se fala numa espécie de cura, num poder curativo da escrita…

A escrita, eu acho, permite nos aproximarmos do sentimento da dor, mas não tem em si efeitos curativos. Agora mesmo, ao falar de mim, me chamei de “a autora”, olha só. A única coisa que cura, a gente sabe, é deixar a dor chegar, ficar e passar – e ela passa.

Em síntese, e tentando ainda te responder: se tem algo que reconheço como corajoso na minha escrita, foi observar a dor sem rótulos de antemão. Se tem algo que reconheço como curativo, é a possibilidade de estabelecer relações de muita intimidade com quem lê, se emociona ou identifica. Para mim, esses diálogos que ocorrem a partir do livro são bonitos e talvez necessários.

Seu O quarto branco me lembrou o livro O pai da menina morta, do Tiago Ferro, uma espécie de diário em que um pai registra o luto pela perda da filha de 8 anos. Romances como o seu e o dele sempre atraem alguma curiosidade sobre o que foi inventado e o que aconteceu de fato – e me parecem que seriam mesmo quase inimagináveis sem as experiências que vocês viveram. Como você se vê nesse debate entre a ficção e a não ficção? 

Esse debate é central na literatura, né? E não vem de hoje. O recurso de escrever em primeira pessoa, a gente sabe, cria uma identificação direta com o autor ou a autora, e nos leva a caminhar de mãos dadas com eles. Como leitores, gostamos disso. Como autores, precisamos muitas vezes nos justificar. Eu não acho que o livro que escrevi dependa de explicações externas a ele. Fico sempre pensando no valor da experiência – reconheço e identifico que tudo o que seja “baseado em fatos reais” nos leva a uma admiração a priori, como se aumentasse a vibração do relato, tornando-o possível, replicável, concreto, mais pungente. Como se o humano que existiu de fato falasse diretamente com o humano de quem lê, o mesmo estar no mundo. Mas não é isso o que a literatura faz? Não acho que minha biografia particular mereça holofote, por mais que reconheça que cada um de nós tenha sua trajetória absolutamente rica e peculiar, cada uma digna de seu próprio romance.

A minha crença particular é a de que um autor ou uma autora sempre falam de si. Não há nada que possa ser inventado ou imaginado que não passe pelas experiências vividas por quem escreve. O mais absurdo dos enredos, o mais fictício dos personagens – tudo são ecos de algo vivido, lido, ouvido. Ler e ouvir, aliás, são apenas outras formas de viver, eu acho.

Para responder à sua pergunta, no entanto, eu prefiro contar o que escrevi a um dos meus irmãos na dedicatória do livro: “Algumas coisas são verdade; o resto é ficção”. E tudo o que há de verdade diz, sim, respeito à minha relação com o Uruguai e com o jeito de enxergar esse pertencimento/despertencimento aos dois países, deixando em suspenso a noção de territorialidade, o corpo assumindo a posição central da própria identidade da personagem.

 

Depois de tantos anos de experiência no jornalismo, como surgiu a vontade de se tornar romancista? E como continuar escrevendo agora, depois de uma experiência tão difícil e profunda?

A vontade de escrever ficção surgiu de um vácuo. Eu realmente quis experimentar algo novo. Entre amigos, dizia estar cansada da realidade, como se não encontrasse espaço possível de expressão nos canais que eu já conhecia. No fundo eu procurava um desafio que me colocasse de volta em atividades que estivessem mais conectadas com a minha individualidade. O jornalista é um ser social, inevitavelmente. Eu queria me voltar para dentro e saber o que tinha lá para investigar. E o curioso é que só consegui fazer isso por estar em um ambiente coletivo propício: a pós-graduação em Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz, em São Paulo. Ou seja, um curso, com rotinas, exercícios, leituras, propósitos comuns, escuta, orientação.

O meu livro foi realmente um projeto de escrita, acompanhado, compartilhado – mas eu não sabia que histórias ele ia conter muito menos que iria ser publicado. Nunca tive a ambição de me tornar romancista nem penso que essa etiqueta possa ser colada na gente de um dia para o outro. O livro foi virando livro à medida que foi se distanciando de mim, como se tivesse vida própria.

Mesmo depois de ter terminado o livro, por muitos meses continuei escrevendo o mesmo livro. Percebi imediatamente que ainda estava na mesma vibração, como se a história ainda quisesse ser contada, como se eu ainda quisesse responder: mas o que aconteceu depois? Aí tem um fator adicional: uma vez que encontrei a minha voz como autora, foi difícil me separar dela, muito embora eu tenha terminado o livro convicta de que aquele relato chegava realmente ao final.

Como projeto, estou iniciando uma nova história, em um registro diferente, que não sei onde pode me levar. Penso que a prática da escrita vai me apontar esse caminho.

 

Desde as primeiras páginas, quem lê vai juntando possíveis sentidos para o que seria “o quarto branco” do título. Às vezes, parece um espaço físico mesmo, certo quarto em certa casa. Outras vezes, parece um abrigo, como um colo ou um útero, um lugar para descansar de um mundo saturado de gestos e objetos e palavras e memórias. De um jeito ou de outro, não é difícil escutar nesse seu quarto branco ecos do “Quarto 19” da Doris Lessing, do Teto todo seu da Virginia Woolf e de toda uma tradição literária que se dedicou a construir um espaço para o feminino existir livre de pressões e expectativas, de abusos e violências, sem amarras. Dá para dizer que, para você, esse quarto branco foi o próprio livro, a própria literatura?

A metáfora do quarto branco vai ressoar diferente em cada um que lê. Eu gosto muito de saber como essa ideia vai mudando. Mas, sem dúvida, nem preciso ir muito longe para perceber que tanto a referência concreta (sim, ela existe) quanto todas as tentativas de aplicação dessa ideia dizem respeito a um espaço interior. Não se trata de evocar aqui nenhum conceito de autoconhecimento ou espiritualidade. Mas, para mim, o quarto branco sempre foi mais dentro do que fora.

 

Ao mesmo tempo, o livro todo parece resultar de um distanciamento da narradora em relação a si mesma: ela está sempre atenta aos mínimos gestos e objetos, narra tudo no presente, com muita precisão e certeza. É alguém que se vê de perto, mas, principalmente, de fora.  

Sem dúvida o deslocamento é uma peça importante para mim, como autora. Minha irmã gêmea se chamava Gloria. Eu assumir o nome dela foi uma provocação com minha própria história. E se eu fosse ela? Só assim pude enveredar pela imaginação e pelo reflexo, muitas vezes invertido. Se eu fosse ela, eu poderia ser assim.

 

Falando em deslocamentos, o livro tem trechos inteiros que mais lembram relatos de viagem, crônicas urbanas ou mesmo roteiros turísticos para bairros, bares e restaurantes. São os vestígios do ofício de jornalismo de viagens? 

Muito possivelmente. Eu passei mais de quinze anos viajando e escrevendo, como ofício, no chamado jornalismo de viagens. Na minha trajetória, fui conquistando um espaço de escrita de relatos mais pessoais, que me considerassem como observadora subjetiva, muitas vezes expondo mais de meu olhar que do próprio lugar em si. Ou, dito de outra forma, que falassem do lugar a partir de minha experiência. Me lembro particularmente de algo que fui adquirindo: o fascínio pelos detalhes e uma certa obsessão com o que dá errado, como se só nas características peculiares das coisas e nos imprevistos dos acontecimentos pudéssemos ter contato real com aquilo que é diferente. Sem dúvida são hábitos que seguem comigo.

E não consigo me imaginar como autora sem observar o mundo como um lugar que pede e acolhe deslocamentos. Assim como não consigo deixar de praticar e refletir sobre a escrita de viagem, algo que sigo investigando permanentemente.

Sobre o meu romance em si, vejo que ele contém várias viagens, desse modo como as observo. A própria cidade da personagem é um destino para ela, mesmo quando ela não pensa em sair dele.

Em relação às minhas viagens ao Uruguai, elas são várias ao longo do tempo. Não me vejo a não ser nessa ponte entre os dois países. Mas não viajei particularmente para escrever o livro. Fui e voltei várias vezes, pois assim tem sido a minha vida ultimamente. Há pouco tempo, finalmente tenho uma pequena casa lá, realizando um desejo antigo de ter meu próprio pied-à-terre em Montevidéu.

 

O livro parece partir de uma indagação sobre vidas que perderam o futuro: a irmã perdida, o filho perdido, um quadro que ficou inacabado, um quarto que ficou vazio, um país que ficou no passado. E a pergunta que fica é: como dar novo sentido à vida, à maternidade diante de uma continuidade ancestral que se interrompe?

Especialmente para a minha geração, a questão da maternidade e da paternidade conversa diretamente com a reflexão do que fizemos com a vida até agora, com quem, para quê – e o que faremos a partir de agora. Não consigo ir muito além na sua pergunta, mas sim reconheço a voz da mãe e do pai que nascem quando nasce um filho, e da mãe e do pai que tentam, a duras penas, se reinventar quando um filho morre ou deixa de nascer. Isso e todas as nuances da mulher e do homem que projetam na ideia de filho tantos outros sentimentos e que se colocam, na vida, mais ou menos abertos para que isso possa acontecer.

Talvez eu devesse saber falar mais sobre esses temas, especialmente entre os que não têm ideia se isso vai lhes acontecer na vida. Talvez eu pudesse abraçar a causa do direito ao luto de um filho que não nasceu. Mas mesmo aqui, tentando dar nome a esses assuntos, tão fundadores e monumentais, não encontro as palavras nem me reconheço como porta-voz delas.

Quando eu pensei na personagem que investiga a ideia de sua gêmea, pensei também que era fundamental colocá-la diante da questão de seu porvir. Tive realmente uma visão quase matemática do momento dessa personagem, como uma equação: tudo o que a levara até aquele momento, e tudo o que se abria a partir de então. Nesse sentido, acho que o livro esmiúça a ideia de agora, do momento presente, de tudo presente em um único instante.

 

Antes de abrir seu livro, imaginei que ele faria parte disto que muitos críticos (mais do cinema que da literatura, é verdade) já identificam como um subgênero latino-americano: documentários e romances de filhos e filhas de exilados políticos das ditaduras militares, narrativas de pós-memória, como dizem, cujo exemplo mais presente aqui para nós talvez seja A resistência, do Julián Fuks. Embora O quarto branco não se centre na história política, acaba tocando em muitos temas comuns a esse subgênero: o exílio, a sobreposição da memória própria à memória dos pais, a busca pela identidade pessoal e por um lugar no mundo entre dois idiomas, dois países, duas culturas. Mas acho que, acima de tudo, o que aproxima seu livro dessas outras narrativas é a percepção de que a vida sempre acaba cortada pela história, de que sempre há algo inevitável a se impor sobre nossos caminhos, seja uma ditadura, um exílio, uma injustiça, um exame que atesta a impossibilidade de ter filhos. Tudo isso aparece desde a dedicatória do seu livro, em que você agradece a seu pai…

Se a ideia de filho é forte ao longo da narrativa, a ideia de pai também é. Um pai como origem, mesmo, algo que a psicanálise pode explicar melhor do que eu. Mas eu me permiti agradecer ao meu pai na dedicatória porque realmente tive um pai sensacional, que não chegou a ver o livro terminado. Ele costumava sempre ler as coisas que eu escrevia e às vezes suspeitava que eu podia ir mais fundo. Vai escrevendo e guarda tudo numa carpeta, ele me disse uma vez – e de quando em quando me perguntava se a pasta já estava mais gordinha: Uma hora você vai ter o que dizer.

Acho que ele tinha razão.

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